O verdadeiro multi-instrumentista é um homem com vários talentos, que tem como maior desafio conseguir conjugá-los e dar-lhes forma, conteúdo e sentido. Casuar: é esse tipo de artista. É um homem dos setes instrumentos com um toque de modernidade, pois já se faz de outros aparelhos que condizem com os tempos atuais. Casuar: tem no cartão de cidadão o nome Rui Rodrigues e lança agora o seu primeiro álbum “Beto Desalinha”. Um trabalho onde explora batidas, brinca com as palavras e vai à procura da nostalgia da infância e da adolescência. É um álbum que materializa de forma eficaz como uma só pessoa pode dar corpo a uma canção, mesmo estando rodeado de vários instrumentos e ritmos com uma só central de comando.

Neste caso cada música tem uma construção que vai progredindo à medida que a canção avança. Quem já viu Casuar: ao vivo percebe que existe uma capacidade enorme de desdobrar-se e estar atento à maneira como cada instrumento/som deve ser tocado e controlado. Há uma parte acústica, mas também uma parte digital. É esta combinação das duas que faz com seja o multi-instrumentista moderno. Este disco é todo trabalhado à volta destes dois mundos e essa é a sua génese.

                                    

Olhando para conteúdo das canções percebemos que o músico lisboeta sabe usar as palavras para construir algo melódico, com comicidade e que usa o próprio beat da canção para dar uma energia muito própria às suas criações. Em linha com que outros artistas portugueses fazem como é caso de Samuel Úria ou Benjamim. “Beto Desalinha” é o primeiro tema, que abre o álbum homónimo, tem um beat que faz lembrar um videojogo que conjuga com o lado mais lúdico, dando uma canção alegre e com personalidade. Casuar: sabe rir de ele próprio e esta canção é claro exemplo disso. “Cruz que eu Carrego” tem a colaboração de PZ, que encaixa muito bem não só no estilo de Casuar:, mas também na maneira como este quer abordar a sua música. É um casamento feliz entre os dois artistas, que nos dão uma canção com muita vivacidade. Muitas das músicas apresentadas partem da mesma base e vão sendo moldadas de acordo com as palavras e os instrumentos que são utilizados. Há aqui um trabalho de artesão.

Contudo Casuar: dá-nos uma leque de outros temas, que mostram que é um artista versátil. Não só faz músicas pop, mas aqui neste álbum também conseguimos ouvir músicas mais sentimentais e experimentais. Naquela que é a segunda parte deste álbum começa com um tema instrumental, que mostra uma procura por novas sonoridades. Esse lado também põe em evidência uma uma pop alternativa, que reflete em temas como “Cicloop” e “Solidão Estelar feat. OMIRI”. Não é um trabalho linear e tem outras abordagens. Há um tema mais sentimental como “Ana (Amor Terraplanista)”, onde temos uma guitarra acompanhado por uma caixa de ritmos, é uma canção mais simples, mas que tem um mais toque humano e romântico.

Casuar: mostra neste seu primeiro trabalho um bom desempenho onde sabe aliar universos e referências distintas. Seja com um instrumento ou através de uma via digital a sua música é verdadeira. O músico conseguiu construir ali a sua realidade e captar a atenção de quem o ouve. Há espaço para uma série de ideias, que resultam por ser uma artista versátil e por ser o cérebro de uma operação por vezes difícil de gerir. São canções pop, são bons momentos e conseguem mostrar que existem músicos que são os verdadeiros entertainers

Nota: 8.0/10

Rodrigo Toledo