A nova viagem dos Capitão Fausto parte para um universo musical meloso, romântico e de chinelo no pé (no bom sentido). Em 2018, os cinco amigos partiram de Lisboa e rumaram até São Paulo, onde ficaram umas semanas para gravar o seu mais recente disco, A Invenção do Dia Claro. Foram focados, com vontade de trabalhar, partilharam experiências com os músicos locais e ainda tiveram tempo para visitar o Rio de Janeiro. Neste seu novo trabalho há influências de uma pop brasileira, que prima pela simplicidade, pelo gosto dos instrumentos e dá voz a um sentimentalismo com o qual qualquer pessoa se identifica facilmente. É uma nova jornada, que rompe com o indie-rock do passado e procura mostrar novas virtudes. A Punch Magazine falou com Manuel Palha, Francisco Ferreira e Domingos Coimbra no estúdio de Alvalade, para conhecer melhor este álbum.

O que traz este álbum de novo na sonoridade dos Capitão Fausto?
Manuel Palha (MP): Nós fizemos um bocadinho aquilo que fazemos sempre. Tocámos durante bastante tempo as músicas que já tínhamos e depois apeteceu-nos fazer coisas ligeiramente diferentes. Se calhar, a maior diferença é existir mais espaço, talvez mais ar entre as coisas. Mais silêncio, apesar de não ser um disco com muito silêncio. Levámos o essencial daquilo que queríamos que aparecesse lá.
Francisco Ferreira (FF): Além disso, tivemos uma abordagem mais simplista na forma como lidamos com os nossos instrumentos. Por exemplo, o Tomás gravou o disco todo sem efeito na guitarra, ligou directo ao amplificador e depois cá em Alvalade aplicámos alguns reverbs para dar espaço. Em comparação com os outros (discos) notou-se logo uma grande diferença. Ou seja, tentámos ir para um som de guitarra muito limpo.
Domingos Coimbra (DC): Eu lembro-me do Tomás dizer que neste disco queria gravar sem pedais.
FF: Não há muitos sintetizadores que ocupem muito espaço (nas músicas), são sobretudo melodias muito monofónicas. Não há uma grandeza neste disco, os beats de bateria são muito terra-a-terra. Comparando com o que fizemos, trouxemos pouco de épico aos nossos instrumentos.

Este disco serviu para terem um repertório diferente e explorarem outras competências?
DC: Outras competências, sim, e um repertório diferente, também.
FF: Isso são duas coisas nas quais se calhar não pensamos muito, mas que nos atingem sempre. Nós queremos fazer mais músicas e queremos explorar novos sons.
MP: Nós nunca queremos agarrarmo-nos a uma fórmula.

Este álbum inicia uma nova fase?
MP: Não houve uma estratégia de ruptura.
FF: Ainda agora o disco acabou de nascer. Estivemos com ele na barriga este tempo todo, mas ainda falta vivê-lo mais. Tocá-lo ao vivo durante meses e meses, para sequer pensarmos como é que vai ser o próximo. Não conseguimos definir se isto é uma fase, se o próximo vai ser nesta linha ou não. Não sabemos se vai ser uma ruptura grande. A única coisa que sabemos, é que temos, sim, muito interesse em procurar frescura enquanto compositores e temos, sim, muito interesse em criar novo repertório, porque o nosso span de atenção, como o de qualquer outra pessoa, tem o seu limite. Por muito que gostemos de músicas que fizemos ao longo dos anos todos, seria um bocado triste se tivéssemos como sina só tocar essas até ao fim e não tocar outras.

A vossa passagem pelo Brasil foi boa para vocês se conhecerem em melhor termos artísticos?
DC: Em termos artísticos não diria. Basicamente estamos muito gratos por termos tido uma experiência tão incrível como aquela. Mais do que uma experiência profissional foi uma boa experiência de amizade.
FF: Foi muito importante para a nossa vida, enquanto amigos e banda, mas não propriamente (em termos) criativos. Nós não fomos para lá numa residência, não fomos para lá compor, não fomos para lá procurar inspiração ou procurar novos sons e influências. Nós fomos para lá puramente gravar o disco. Isso trouxe coisas incríveis e alguns pozinhos de criatividade e inspiração. Porque felizmente a nossa estadia foi muito feliz.
DC: Nós podíamos ter ido também ao Brasil gravar um disco das canções que estávamos a fazer e voltar. Nós quase que fizemos isso. Mas acabámos por procurar ter um bocadinho de uma cultura musical que é riquíssima, que é a cultura musical brasileira. Houve este lado de pedir emprestado e beber um bocado. A ponte que foi feita entre o Manuel e o amigo dele, o Eduardo Pereira, que toca cordas, cavaquinho e violão de sete cordas. Através do Eduardo arranjámos uma roda de choro com cavaquinho e pandeiro. Quando nós estávamos no Brasil eles foram lá tocar connosco e foi uma experiência inacreditável. Nós não quisemos moldar o disco à volta de estímulos externos, mas o que aconteceu é que eles encaixaram numa maneira muito interessante naquela nossa música europeia. Deu uns laivos interessantes em muitos momentos do disco, que estão lá de uma forma meio escondida, quase um segredo.

Podem descrever resumidamente essa viagem? Quantos dias estiveram? O que fizeram? Que bandas viram? Com quem falaram?
MP: No Brasil estivemos 20 dias. Quatro, cinco dias no Rio de Janeiro, já no fim, para descansar. Correu na perfeição porque já tínhamos material que íamos trazer de cá (Portugal) programado para gravar. Então, basicamente, o nosso dia era acordar de manhã, estávamos às 10h00 no estúdio, ficávamos lá até às 17h30/18h00 e depois íamos literalmente passear. Tínhamos amigos portugueses que estavam lá, com quem estivemos. Estivemos com a malta dos Terno, o Tim Bernardes, que são de São Paulo, e que foram os nossos grandes anfitriões.
DC: Vimos um concerto de Terno. Fomos ver Mala. Fomos a um quintal da editora dos Terno, Selo Risco. Ouvimos o Sessa e Pedro Pastoriz.
MP: Foi giro, foi assim num registo meio familiar com amigos e num ambiente descontraído.
DC: No Rio fomos a uma roda de samba.

Há pessoas que conhecem Capitão Fausto no Brasil?
MP: Há algumas, mas no circuito que nós estávamos haviam pessoas que também não conheciam.

Quais são as vossas referências musicais brasileiras?
MP: Na fase em que estávamos a fazer o disco ouvi Cartola, adorei e não conhecia. Tim Maia.
DC: Eu gosto muito de Caetano Veloso e comprei lá uns vinis, Rita Lee e também gosto muito de Paulinho da Viola. Mutantes.
FF: Toquinho.

O que gostaram mais dessa viagem?
MP: Nós fizemos uma house party e tivemos sorte de ficar numa casa incrível, num edifício muito famoso de São Paulo, que é o Copan. Estávamos no 30º andar. Então, fizemos uma festa, combinámos com os nossos amigos brasileiros, depois aconteceu daquelas coisas do amigo que convida amigo e a certa altura tínhamos 60 pessoas em casa, sem conhecermos a maioria delas e isso foi um momento muito divertido. Foi um todo, nós fomos com uns objectivos e cumprimo-los. Ao sexto dia de onze dias de gravações já tínhamos tudo gravado. Foi um bom misto de trabalho com férias.

Este é vosso quarto álbum, ainda sentem que têm tempo e espaço para experimentar e errar?
FF: Era um bocado errado da nossa parte dizer que não temos.
DC: Eu pessoalmente não iria conseguir viver com a ideia de ter chegado a um ponto onde estou confortável. Eu acho que parte do exercício criativo parte de uma procura constante não pressionada. No meu lado, pessoalmente é querer fazer uma coisa nova. Uma coisa nova não tem de ser necessariamente uma coisa melhor, mas pelo menos é sentir não voltamos a coisas que já fizemos. Nas carreiras de algumas bandas, quando começam a ficar longas, começa-se a sentir isso. Eu gosto sempre das duas uma, ou de pessoas que foram inacreditavelmente boas a fazer aquilo que fazem melhor e fazem aquilo sempre muito bem ou então gosto de ser surpreendido.

Vocês têm algo dizer nas letras que são escritas pelo Tomás?
FF: Nunca é sobre as temáticas é mais sobre a abordagem.
MP: Em tudo o que nós fazemos estamos sempre a opinar. Vamos trabalhando, quando ele já vem com os esboços e as ideias finais, depois vamos dando as nossas opiniões.Eu gosto muito do que o Tomás escreve.
FF: Por acaso nunca aconteceu não estarmos sincronizados a nível de emocional ao ponto de dizermos para mudar de temática. É normal isso acontecer porque somos amigos e temos vivências muito parecidas.
DC: Neste disco é capaz de ser as minhas letras favoritas que o Tomás já escreveu. O que eu sinto neste disco é que o conteúdo pode não ser o mais alegre, mas sinto que há ali uma esperança.

O título álbum foram buscá-lo a Almada Negreiros. Vocês também se inspiram nas artes plásticas, do teatro ou da moda? Há outros artistas portugueses que vos inspiram?
MP: As inspirações não foram muito plásticas e visuais. É uma coisa mais auditiva.
FF: O poço onde vou buscar luz e inspiração não é a coisas plásticas, mas sim a coisas imateriais. Coisas que se dizem, coisas que se falam, coisas que se pensam.

O que é mais importante para a vossa música, surpreender ou fazer melhor?
DC: Fazer melhor.
MP: Eu queria arranjar uma ligação entre os dois, à medida que vamos fazendo melhor queremos é surpreendermo-nos a nós próprios.
FF: É mais importante tirar gozo para nós próprios e sentirmos que estamos a melhorar.

Rodrigo Toledo