O Parque da Cidade é mais um ano invadido pelo festival que prepara as boas-vindas ao verão, e as despedidas à primavera. Quatro palcos, inúmeros estilos musicais e versatilidade são elementos que não faltam no NOS Primavera Sound. Para ti, que correste de palco em palco, para ver aquele artista que sempre quiseste ver. Para ti, que quiseste relembrar aquele artista que viste naquele dia, àquela hora. Para ti, que descobriste um novo artista e o juntaste à tua playlist. Tens aqui um resumo dos três dias em que a música tomou conta da cidade do Porto.

Primeiro dia: O dia em que o palco do Primavera se tornou um santuário

Depressão Miguel? Chuva torrencial? Vendaval? Tudo isto estava presente no primeiro dia de festival. Mas nada disso te impede de ires a correr até ao Parque da Cidade. As portas abriram às 16h e, nesse momento, como que por magia, a chuva e os ventos fortes que se faziam sentir no Porto desapareceram. Se calhar foram os ritmos crioulos, que abriram o festival, que trouxeram o sol ao Parque da Cidade. Mas, com ou sem o sol, Dino d’Santiago pôs todos aqueles que ali se encontravam a dançar juntamente com ele. Uma hora depois, mesmo ali ao lado, diretamente de Madrid, tocava Christina Rosenvinge, que veio ao Porto contar um bocado sobre si, e dos seus gostos. Entretanto, o recinto do Nos Primavera Sound vai-se compondo, e as pessoas começam a explorar aquele que seria o espaço onde passariam grande parte dos três dias que aí se avizinhavam. Final de tarde, e Miya Folick entra no palco. Mas não entra sozinha. A energia e alegria que sempre a acompanham e que transmite através do seu pop também lá estavam, e juntos animaram quem preenchia cada espaço livre no palco Pull and Bear.

NOS Primavera Sound’19 – A trilogia

A noite já ia alta, e no palco Super Bock entra Seth Nyquist. Uma voz angelical e uns falsetes que se fizeram sentir tão bem em “Days Like This” e em ”Pass the Hours”. Tudo isto bastou para que MorMor marcasse positivamente a sua presença nesta edição do Primavera Sound. Tão positivamente que nem a chuva quis perder este concerto. Num dia onde já tínhamos sido presenteados com a música pop, rock e electrónica, tocam as 22h, e o hip-hop invade o festival: Danny Brown e Allen Halloween entram, um no palco NOS, e outro no palco Pull and Bear e, à sua maneira, fazem passar a mensagem subjacente às suas canções. O dia termina com Solange que, para além de ter mostrado que o apelido que traz consigo é sinónimo de (muita) força, quis não só fechar o palco principal, como torná-lo num santuário. E que bem o fez! Nada faltou neste concerto: desde a dança até à chuva torrencial, que se veio despedir de todos nós, prontos que estávamos para ir descansar para o segundo dia.

Segundo dia: uma história de amor entre o Primavera e Blake

O dia começa com a atuação de dois artistas nacionais, de géneros completamente opostos. Profjam Surma dão início ao segundo dia do festival que prepara as boas vindas ao verão, e onde se festeja o último mês de primavera (e também o aniversário de Profjam). A chuva, que marcou presença no primeiro dia, parece ter abandonado o Parque da Cidade, e deu lugar ao Sol, que já se preparava para se pôr, mas que ainda aproveitou um bocado do festival. Apesar de termos sido surpreendidos com a triste notícia que Mura Masa não iria atuar, o festival não parou, e entra em cena um jazz marcado com ritmos tribais, com Sons of Kemet XL. O ideal para dar uns pezinhos de dança num concerto que, com certeza, sentiste que passou demasiado rápido, mas que até durou mais do que o suposto. Entretanto, no outro lado do recinto, o rock reinava no Primavera, com Courtney Barnett,  de um lado, e logo a seguir, do outro, Shellac.

NOS Primavera Sound’19 – A trilogia

Uma pausa no rock, e o palco NOS é invadido por J Balvin, que traz o reggaeton para este final de tarde no Porto, rendendo o público do Primavera à música latina. Com o dia mesmo no final, e a lua lá bem em cima, temos João Barbosa, que se dá a conhecer por Branko com a sua mesa mesa de mistura, e em formato Live AV, no palco Super Bock. Já Interpol, na outra ponta do recinto, no palco Seat, presenteia mais uma vez, o público português com o seu rock que, independentemente dos anos que passem, continuam a ter um grande impacto em quem tem vindo a acompanhar esta banda. O relógio marca a uma da manhã e, com a típica pontualidade britânica, James Blake entra no palco principal, e faz com que cada um dos presentes sentisse aquilo que Blake sentiu, e sente, ao compor e ao cantar as suas músicas. É como se tivessem sido hipnotizados, sem saberem muito bem pelo quê: se pela sua doce voz, ou se pelas batidas e pelas melodias que marcam a dor, a tristeza e o amor de cada canção. Indepentemente da razão, ninguém ficou indiferente a este concerto que encerrou o segundo, e penúltimo dia do Primavera Sound.

Terceiro dia: o dia em que o soul e o flamenco se unem

Abrem as portas, e de longe já conseguimos ouvir o trio brasileiro O Terno. Num concerto que nos deixou com vontade de ouvir mais um pouco da música independente brasileira através da qual Tim Bernardes, Guilherme d’Almeida e Gabriel Basile nos dão as boas-vindas a este que foi o último dia do Primavera Sound. E, se achavas que o calor do Brasil ficava por aqui, este só veio a ficar mais forte com Jorge Ben Jor, que tornou o palco NOS num verdadeiro baile de sertanejo, e levou a que todos os que ali estivessem presentes sambassem como se estivessem num país tropical.  Como o indie rock não podia faltar a esta despedida, Big Thief Lucy Dacus (surpreendida pela quantidade de gente que ali estava a vê-la, no palco Super Bock) vieram diretamente dos Estados Unidos da América para esta festa da música que se vivia no Porto. Horas haviam passado, e entra Rosalía que, num concerto onde nos dá a conhecer o resultado da junção entre a tradição flamenca e o pop, através da sua (potente) voz, faz com que o público que ali estava caísse aos seus pés, não deixando ninguém indiferente à energia que irradiava em cada movimento deste furacão latino.

NOS Primavera Sound’19 – A trilogia

A noite estava quase a acabar, e Neneh Cherry veio mostrar que, mesmo tendo estado parada, nunca perdeu a sua força tribal, trazendo-a, e deixando-a ficar em cada pezinho de dança daqueles que ali se encontravam. A noite quase a terminar, e a pergunta pairava no ar: o que se passa? Já era uma da manhã, e tudo o que se via no palco principal era um dos técnicos que andava, discretamente, de um lado para o outro no palco. Mas, se achavámos que o recinto no Primavera ia ficar cada vez mais vazio, enganámo-nos: as pessoas iam-se juntando no palco NOS para ver Erykah Badu que, mesmo com um atraso de meia hora, foi recebida pelo público português, a quem deu a conhecer e a reviver a experiência Badu, em que o soul foi a ponte de comunicação entre a artista norte-americana e os momentos do passado, e com o qual fechou o palco principal deste festival primaveril.

Assim termina mais uma edição do NOS Primavera Sound. Uma edição onde o rock, o pop, o indie, a música eletrónica, e o reggaeton se encontram e, em conjunto, tornam o Porto a capital da música durante estes três dias do mês que dá as boas-vindas ao verão, e prepara as despedidas da primavera.

Texto: Márcia Cabral Barroso
Fotos: Alexandra Tavares Agostinho