Jazz, acid rock, hip-hop, sons do mundo e experiências sonoras. São estes os pilares através dos quais Baltasar Moreira, aka Mr. Bubble, edifica as suas “canções”. Colocamos aspas em canções porque, mais que isso, aquilo que Mr. Bubble nos oferece são viagens e experimentações. Partindo dos referidos pilares, traça rotas e sinas baseado nas suas próprias vivências, quer terrenas, quer etéreas, para nos hipnotizar. E tanto o pode fazer no nosso quarto, como numa pista de dança, porque o momento é um conceito-chave na galáxia de Mr. Bubble. É o maestro sem batuta que nos conduz, podendo mudar a direcção da bússola quando menos se espera.

primeiro EP de Mr. Bubble foi colocado online há duas semanas, facto que a par do concerto de hoje no Camones Cinebar à Graça, motivou esta escorreita conversa com Baltasar Moreira no refrescante Jardim da Cerca ao sabor de uma garrafa de vinho em promoção, numa colaboração entre a Punch e o blog Gramofone.

PUNCH - Pertencendo originalmente ao universo das artes plásticas, como te imiscuíste na música?

Mr. Bubble - A música sempre esteve próxima de mim. A minha mãe tinha um piano em casa e tentou dar-me umas aulas, dado que ela estudou no conservatório, mas nunca liguei muito inicialmente. O piano estava lá por casa e exercitava nele os dedos de quando em vez, basicamente. Passei, entretanto, por uma crise existencial muito negativa, enquanto procurava um espaço para trabalhar e produzir, e não me conseguia sentir conectado e enquadrado, e a certa altura comecei a invejar os músicos de rua, pela sensação de liberdade que o acto de tocar num espaço público me transmitia. No entanto, não sabia como conseguiria trazer um piano para tocar na rua, até que vi a melódica como a saída para esse beco, e permitia-me libertar aquilo que ia sentindo.

PUNCH - Como nasceu a personagem que acabaste por construir para debitar as tuas ideias sónicas?

Mr. Bubble - Após esse arranque à boleia da melódica, acabei por conseguir adquirir um pequeno órgão, um amplificador e uma loop station para tentar começar a criar música sozinho, e a certa altura alguém comentou «Estás aí na tua bolha a produzir algo!». E pensei imediatamente em Mr. Bubble.

PUNCH - E como chegou Mr. Bubble ao género de sonoridade pela qual envereda?

Mr. Bubble - Uns amigos mostraram-me coisas muito interessantes durante a adolescência, lembro-me principalmente de um professor do secundário que me facultava o tablet onde tinha sons como Brad Mehldau, Chick Corea, muito jazz contemporâneo, coisas às quais eu não iria chegar por mim naquela altura. Essas foram basicamente as acendalhas para aquilo que decidi criar mais tarde.

PUNCH - É curioso por não ser uma corrente musical que chame a atenção logo à primeira, pelo menos para a esmagadora maioria das pessoas…

Mr. Bubble - Passei muitas horas a desenhar e a pintar ao som desses compositores, e esse espaço criativo acabou por me ajudar a absorver essas sonoridades e alimentar o meu gosto pelas mesmas. Inconscientemente, acabou até por influenciar as minhas criações plásticas, como é lógico.

PUNCH - Dado teres interesses e conhecimentos multidisciplinares, pensaste alguma vez em fazer uma instalação?

Mr. Bubble - Tive uma experiência gira uma vez, em que fui tocar para o Jardim do Torel, comecei a tocar para as pessoas que ali estavam a passar o seu tempo. Enquanto estou a tocar, a minha mãe ligou-me, e os amigos que me acompanhavam aperceberam-se, e começaram a telefonar-me. Então coloquei o microfone junto ao telemóvel e comecei a fazer loops com aquilo que eles iam dizendo. E, de repente, percebi que estava a improvisar e as pessoas a participar enquanto estavam a relaxar no jardim. Fiz algo semelhante com uma amiga, com quem tive um projecto que nunca passou da fase embrionária, os Naked Zoo, a quem liguei durante um concerto para ela cantar, e um outro amigo acabou por me ligar de volta também e declamar poesia ao telefone durante essa performance. Senti-me nesses momentos conectado a essas outras vertentes artísticas.

5b9g.JPG

foto: Porta 253

PUNCH - E como foi o passo desde as performances, que foste dando regularmente nos últimos tempos, até à gravação do EP?

Mr. Bubble - Comecei a sentir que tinha que mover a máquina que criei em volta do Mr. Bubble, desde logo até para haver um sentimento de existência e realização. Dado que, por norma, a indústria interessa-se por produtos musicais mais fechados, comecei a sentir alguma dificuldade em apresentar o meu projecto, especialmente com o pendor orgânico que possui, apesar das bases mais firmes donde sempre parto. Vai daí, e com a sólida ajuda da malta do Scratch Built Studio (que conheci durante a fase de Naked Zoo), consegui ter a minha primeira experiência de estúdio, na qual me deram a oportunidade de escutar o meu material com boa qualidade de som, dado o cariz lo-fi dos instrumentos com que toco normalmente. Além disso ofereceram-me a oportunidade de utilizar o estúdio durante horas até sentir que tinha ali umas faixas que poderia gravar para montar o EP.

PUNCH - O facto de teres estado em estúdio em regime de jam foi quase como estares numa das tuas performances…

Mr. Bubble - Sem dúvida. Desde logo, tudo o que preparei em casa acabei por não utilizar. Cheguei ao estúdio e só me apetecia ir por caminhos diferentes. (risos)

PUNCH - Fizeste muitas viagens nas quais foste tocando por onde passavas. Nem vou perguntar se te influenciaram, mas sim de que forma o fizeram relativamente às faixas que colocaste no EP “Seeds”.

Mr. Bubble – Conheci um músico neo-zelandês na minha estadia em Barcelona, o Joseph Moon, que fazia coisas incríveis com poucos instrumentos, executando com uma enorme simplicidade e humildade, e influenciou-me imenso. Além de me permitir tocar com ele na rua, ensinou-me a aceitar que a música pode ser simples, ainda que profunda. Aprendi realmente a gozar a música durante esses sete meses em que transitei pela Europa, e é esse flow que me guia e o qual pretendo fazer chegar igualmente a quem escuta.

 

Álvaro Graça

foto de capa: Elena Aldana