A Cassete escondeu-se e o Pirata (já viajado e experiente) guia-nos à montra do melhor que se faz na música portuguesa. A bordo do navio da musicalidade moderna, surge-nos, na costa de 2019, um dos álbuns mais badalados e promissores do ano. 

Rosna confiança e atitude; este trabalho que se aventura pela consciência da figura mais própria da nossa pessoa, o “eu”. Cheira a maresia e a amanhecer repentino, afirmando-se como a frescura dos primeiros mergulhos espirituais no mar da vida. Aquele mar que nos abraçou na “verão da nossa jovialidade”. É a “Ferro E Brasa” que os Cassete Pirata constroem A sua Montra exclusiva de deslumbrantes temas solarengos e aconchegantes para os espíritos mais selvagens. Afirma-nos João Firmino (Pir), logo em exclusivo, que se gostaram da abertura, não se contentem. Saibam que “o melhor ainda está para vir”. É essa promessa entreaberta que nos aquece a competência auditiva do meio-viciante estado em que ficamos a cada palavra cantada.

É incerta a consciência que nos prende: se por um lado a narrativa quotidiana do processo criativo de um artista nos segura na mediocridade do complexo estético-artístico de “criar”, por outro apenas e só se compreende uma vontade intensa em fechar os olhos e vibrar com as linhas do baixo, espectacularmente vibrantes, de António Quintino, a par do brilhantismo minimal do trabalho rítmico de João Pinheiro. A química é existencial (em toda a obra), pois é esta a solução que João Firmino procura dar à sua lírica. Não faria sentido outra forma que não esta: a busca processual na descoberta do “eu”. Afirme-se que Jean Paul-Sartre ficaria orgulhoso, João!

Na “Paz” envolvem-nos os acordes de guitarra “ao género mais moderno”; cantem à sombra no calor assombroso do amor que recebem a cada promessa que surge de que haverá “Guerra” e, “Sem Ar”, ponderemos “Outro Final Qualquer”! É na camada tempestiva dos sintetizadores e vocais-suporte de Joana Espadinha e de Margarida Campelo que compreendemos a envolvência do espírito de justiça, pelo qual se atinge uma vitória conjunta, agradavelmente aconchegante.

Quando a virtude da compreensão do nosso ente artístico nos conduz à volatilidade criativa, Pir aconselha-nos a pensar na nossa “Próxima Viagem” ao “Alentejo”, onde o calor abrasador nos fará sentir a vontade de ir à confiança, “Sem Saber Ao Quê”… é tão boa esta manipulação filosófica e endiabrada (proporcionada pelas letras apelativas e os instrumentais acutilantemente sedutores), que a emoção vê-nos a afirmar que até “Chora Mãe” de nós todos, se os anjos deixarem o céu seduzir-se pela ideia de que “Agora Já Não És Capaz” de ouvir uma outra coisa sem que queiras dançar ao som dos Cassete Pirata.

Luís Nunes (Benjamim) é o réu-testemunha de um resultado tão saboroso. A produção ficou a seu encargo e, sendo este uma das figuras mais amadas do público, não deixa para trás o seu brilhantismo no resultado artístico dos outros.

Aceita-se (facilmente) a crença de que é esta uma obra belíssima, sustentada pela ideia de ser-se mais “eu” se estivermos na presença de outros, que dão ao “eu” o melhor de “nós”. Confuso? Pensa-se ser assim mesmo… não se sabe porque somos mais juntos; apenas nos resta uma certeza; venham mais obras destas!

Nota: 7.8/10

Lécio Dias