Ghosteen nasceu – de forma explícita e necessária – do sofrimento e da perda íntima de Nick Cave, enquanto uma banda sonora transparente para o processo do luto. Antecede Skeleton Tree, um álbum que também emocionalmente carregado, lançado após a morte do seu filho, embora maioritariamente composto e gravado antes deste período de perda.

A diferença entre ambos, até na qualidade, está no facto de toda a construção deste disco se ter feito centrar na tragédia pessoal de Cave. Torna-se por isso completamente impossível interromper esta ligação. Foi trabalhado através da invocação da vulnerabilidade retratada numa obra mística, enorme e emocionalmente penetrante.

Dito isto, o tom emocional do álbum é inevitavelmente fúnebre com uma sequência de optimismo torto, surgido após algum tempo que permite a Nick Cave dizer “peace will come”. Nick Cave entrega-nos uma performance vocal pungente e conseguimos ouvir os momentos em que a garganta do vocalista se torse e arranha, sendo que mesmo assim a voz sai controlada o suficiente para emitir agudos firmes. Devemos sublinhá-lo, não só porque podemos adivinhar não terem sido músicas fáceis de gravar, mas também porque são detalhes como estes que acrescentam genuidade ao sentimento geral do álbum.

As letras não são óbvias, de tal forma que se não soubessemos o que motivou o disco nunca o colocariamos como hipótese, mesmo que as ouvissemos com toda a nossa atenção. É a narrativa particular a Nick Cave and The Bad Seeds com a escolha de múltiplos cenários de tragédia, o tópico da morte e da vontade de morrer, a paternidade colocada em abstrato com temas religiosos recorrentes complementados por coros em dilatação.

O eco gera uma sensação de espaço amplo e fechado e dá a “Ghosteen” uma dimensão quase sagrada – sendo que a sacralidade e a morte raramente se separam. O piano limpo e os violinos afiados estão aqui para decalcar de forma clássica a intenção melancólica das músicas. Vêm dizer-nos em que momentos é que tudo se deve desfazer. Ligam-se a sintetizadores fantasmagóricos densos e ao que soa a murmúrios cósmicos de um teremim.

O disco faz-se orientar pelo detalhe. A música “Galleon Ship” abre com o sussurrar de uma frase revertida, atestando ao experimentalismo da banda. Serve enquanto primeiro espaço aberto para a expectativa de melhoria, uma quebra com a agonia que se mantém até “Leviathan”, recuperada em força com “Ghosteen”. “Leviathan” distende-se novamente através do pormenor e a tensão organiza-se com uma percussão tribalesca de toques leves em pele. O detalhe vem puxar cordelinhos de emoção e só o percebemos depois de já nos ter afetado.

A sensação de degradação desliga-se quase totalmente com “Ghosteen”, que defende uma possibilidade de recobro num momento orquestral brilhante, em que ouvimos Cave dizer “the world is beautiful”. Cai depois novamente na obscuridade e Cave diz-nos “there is nothing wrong with loving things that cannot even stand”.  Aqui estão implacavelmente descritas as inconsistências do sentimento de perda.

O terminal é em “Hollywood”, a entrar com um baixo escuro e turvo que segura o groove e ritmo durante a música, ao lado de alguns pianos minimalistas e alguns efeitos sonoros aéreos ácidos. À semelhança de “Ghosteen”, vai acumulando uma pressão que acompanha a dinâmica emotiva da voz, uma música na qual se fala na impotencia de uma mãe que procura salvar o filho doente.

O álbum é desconfortável ao ponto de ser emocionalmente debilitante, não deixando de funcionar enquanto purga universalmente aplicável, ao não se fixar rígidamente na experiência pessoal detalhada do próprio artista, embora assim o pudesse ter sido. Nick Cave acabou por nos abrir um espaço onde sofrer. “Ghosteen” é a dor a ser eloquentemente expressada.

Nota: 8.0/10

Beatriz Fontes