É das redondezas da poesia urbana, nas margens sulistas da ponte sobre Tejo, que nos surge uma vivência dinâmica e consciente. Krayy é um criativo (sem cara), justiceiro constante na procura da inventividade suprema do “além fronteiras” atípico e espiritual. É, acima de tudo, um ambicioso, resultante das suas diversas facetas enquanto rapper, produtor e jornalista.

Há um balanceamento adormecido em cada batida (ar)ritmicamente saudável e audaz; os samples são as vozes de uma experiência ainda incerta, mas grata. Um cavalgar de emoções prende-se com viagens e experiências completas e envolventes. A calha fogosa e assertiva desse cavalgar manso e aconchegante, como se uma voz mascarada e galopante nos invadisse a pulsação cardíaca e a ânsia milenar de uma produção sincera e humilde.

EP – “Gerêzz”

Há uma tentação bucólica, harmonizadora e (se me for possível dizê-lo), romantizada! “Gerêzz” é a prova viva disso… Viva (digamos, de passagem) por ser uma experiência. É um facto constante (coerente) e restrito. Como se Krayy nos convidasse a sentar na manta verdejante da lua humana; sinceridade impressiva de um grito no infinito ressonante do eco dinâmico do vazio a Norte da nossa existência. Não nos é possível exigir mais da simplicidade invulgar de Krayy e, francamente, o que há de mal nisso?

Nas passagens da natureza solitária e carnívora, devoramos a alma infantil de quem se perde na viagem pela experiência fria e valente de explorar um novo vazio. O melhor de tudo é saber que o frio queima tanto; e que gosto gélido, mas apetecível, nos deixa a instrumentalização de Krayy. Venham mais experiências incríveis, Krayy.

Lécio Dias