Midnight Ambassador (aka André Graça) acaba de lançar o single “All My Love” que vai integrar o EP “Fragile Igloo”. A Punch Magazine esteve a conversar com o artista de Beja, mas que já andou pelo Reino Unido e por outros caminhos à procura de inspiração, de colaborações e formação. Sempre à procura de ser criativo e surpreender, este é Midnight Ambassador.

É claro que se sente algo de “aconchegante e tardio” nas tuas músicas. Confesso-te, são 22:53 quando te escrevo e, honestamente, sinto-me confortavelmente noturno (enquanto escuto o teu primeiro single no Spotify, “Serial Killer”. Assim sendo, diz-me, porquê “Midnight Ambassador”?

Midnight Ambassador: Nada melhor do que começar a ouvir as nossas músicas o mais perto da meia noite para uma experiência mais real. Eu respondo esta pergunta desta maneira, quando nós nascemos é-nos dado um nome e fica connosco para o resto da vida, quando eu ouvi este nome pela primeira vez senti uma conexão tão forte que decidi começar a escrever este estilo de música, foi quase que um sexto sentido.

Consta que estudaste percussão, saxofone, piano e, claro, composição no Conservatório Regional de Música do Baixo Alentejo (suponho eu, visto que és de Beja; corrige-me se estiver errado!). Defines essa fase da tua formação como sendo decisiva no resultado que és enquanto artista?, no teu produto artístico?

MA: O conservatório de Beja foi quase que uma segunda casa, as vezes até uma primeira casa se estiver a ser completamente honesto. Eu pedi aulas extras ao professor Roberto Pérez que me aceitou de braços abertos só para poder passar mais horas lá. Eu diria que esses tempos moldaram a forma inicial do que o Midnight Ambassador iria ser, mas o que solidificou esse molde foi o ano que passei na Hungria, e não pelas melhores razões.

Sendo oriundo de Beja, sentiste algum tipo de choque quando foste estudar para o Reino Unido, na  Universidade de Hertfordshire? Se sim; esse choque estimulou-te a criatividade?

MA: Eu desde criança que adorava falar Inglês, sempre foi das minhas disciplinas favoritas na escola e quando era adolescente tudo o que fazia, via e lia girava a volta de Inglês, não sei porque sempre me foi natural, por isso quando me mudei para Inglaterra o choque cultural não foi assim tão grande. Claro que tinha saudades de casa, mas acho o facto de os meus tempos de liceu não terem sido fáceis numa questão de saúde mental ajudou esta transição. Eu senti-me livre e fazer o que amo. Escrever música.

A distância, as saudades, a ausência… Claramente que a “All My Love” nos deixa um pouco dessa ideia; mas é o único tema a abordar a temática do teu Portugal distante.

MA: Eu escrevo musicas como se fossem episódios de televisão, há uma progressão e desenvolvimento de histórias que leva a um final. De certa maneira o All My Love é um momento de introspecção de todas as minhas decisões desde o momento em que acabei a universidade, o ficar longe da minha família, ficar longe de casa, não ter tempo quase nenhum para vida social. Uma constate batalha com a minha cabeça ansiosa que questiona todas as minha decisões. Uma sequela ao Pleasure que fala do abuso verbal que passei em ambientes de trabalho na minha transição para Londres. All My Love põe em causa o meu amor pela música e responde a essa questão. Por mais dificuldades que passe este amor por que o faço é incondicional.

Entretanto, já ouvi o teu trabalho todo! São 23:13 e a minha namorada quer a minha atenção, mas já só faltam mais três perguntas para fechar o meu trabalho! Sente-se algo de romântico e sensualmente minimal nas tuas melodias… De que maneira “o amor” influencia o teu trabalho? – escuto, neste momento, “Burned Down Cigarettes”.

Cada vez mais perto da meia noite! Espero que tenhas tido uma boa noite, por aqui ainda custa a amanhecer. Burned Down Cigarettes deu origem a este EP, tal como o Serial Killer deu origem ao Midnight Ambassador, ambas falam do final de uma relação. É engraçado como me perguntas isso. O meu avô foi alguém que me ensinou uma lição de vida acerca de amor sem nunca a ter que explicar. O meu avô, segundo consta, diz que no momento em que viu a minha avó que se apaixono e a verdade que durante os 50 e muitos anos que estiveram juntos ele sempre fez dela e da família a sua prioridade, ele durante a sua vida inteira viveu uma vida simples mas cheia de amor. Seja amor, seja trabalho, seja música, seja o que for, o meu avô ensinou-me a viver uma vida rodeada de amor, e assim vivo, e assim escrevo.

Tens um currículo impressionante, parabéns! Humildemente, diz-me, qual o ponto mais alto da tua carreira?, ou, melhor, qual o momento decisivo?

MA: Obrigado! Sinto que não tenho parado um segundo este últimos anos e já me fazem falta umas belas férias de papo para o ar no Algarve, mas virá. Vêm-me tantos momentos favoritos até agora, desde poder trabalhar com uma equipa que genuinamente acredita no Midnight Ambassador, ter a oportunidade tocar ao vivo com os meus melhores amigos, poder viajar para outros continentes e até viajar para a minha terra natal para tocar música que escrevi no meu humilde quarto que eu desconfio outrora ter sido um armário. Cada dia é um momento alto. Mas vou responder a esta pergunta com um momento recente, quando lancei o All My Love recebi uma mensagem de voz de uma rapariga da República Checa, uma pessoa que eu nunca tinha conhecido, que disse “olha eu normalmente costumo fartar-me facilmente de música, mas desde que descobri as vossas faixas que me encontro-me a ouvi-las todos os dias, eu encontrei um significado único dentro delas e posso contar as minhas próprias histórias dentro destas músicas. Por favor nunca pares.” Acho que nunca nada na minha vida me fez sentir assim, ter um impacto nem que seja na vida de uma pessoa pela minha música, é algo mágico e provavelmente o momento mais alto até tive até agora.

Obrigado por teres-me acompanhado até agora. Chegou a hora da “pergunta cliché”! Quais as tuas maiores referências musicais? Quais os projetos (em Portugal) que tens acompanhado (prazerosamente) na ânsia de os veres a atingir o sucesso?

MA: Obrigado eu por esta entrevista, adoro, com toda a minha sinceridade, estas perguntas. Todas as semanas eu tenho uma influência nova! Pergunta difícil, das melhores partes de viver nesta cidade é a quantidade de concertos que posso assistir de bandas complemente desconhecidas, mas pronto, a minha maior influência são provavelmente Glass Animals, Childish Gambino e Alt-J. Tenho acompanhado muitas bandas que têm vindo a crescer imenso desde Boy Pablo e Miller Blue que adoro! Em termos de música portuguesa tenho acompanhado uma banda que também tem vindo a crescer imenso que são os D’Alva, gosto muito da sonoridade deles e acho que têm algo mesmo muito único, adoraria trabalhar com eles e vê-los a chegar ao sucesso. Uma coisa que me deixa feliz é saber que a música alternativa têm vindo a crescer em Portugal, e o crescimento de festivais em Portugal têm vindo a provar isso. O meu paraíso na terra continua a ser e sempre será o Paredes de Coura, espero um dia poder pisar aquele palco.

Lécio Dias