Se o teu sonho de miúdo do secundário era pertencer a uma banda de quatro amigos, fazer música carregada de psicadelismo viajante, álacre e cheio de jovialidade, bem que não te afastas da vontade do João (vocais e guitarra), do Miguel (bateria), do Ribeiro (baixo) e do António (teclas e guitarra). O início dos Grand Sun assemelha-se ao de muitos de nós.

Calha-nos um respeito clássico e virtuoso a cada balada calorosa, propositadamente sonhadora, através das guitarras charmosas, dos sintetizadores reconfortantes, saídos de um trance suave, hipnotizante e dinamicamente assertivo; acompanham-se por um baixo alegre e sorridente, que se sustenta na bateria marchante e conquistadora, tradutora de uma batida pop-cool e de um momentum constante e divinalmente delineado. Se há forma de caracterizar a ambiência de Grand Sun?, bem, é difícil… mas imaginem os vossos avós como surfistas, jovens, sem o ressonar e sem a bengala, à conquista de ondas californianas, lendo Kerouac e fumando tabaco de enrolar. É suave? É doce? É inacreditável?… Sim, é essa a maresia de Grand Sun.

Em 2016, através da Xita Records, dão-nos o primeiro passo viajante, com o seu tema “Apolo“, inserido no trabalho Um EP Xita Records, mas é com o apoio d’Black Sheep Studios, que em 2018 nos ordenam algo difícil (perante a sua companhia, finalmente individualizada); “Go Home”, dizem-nos, enquanto nos atiram com mais um emoção fresca e cada vez mais tradicional, na modernidade da música independente portuguesa. “I just wanna go home”, enquanto nos agarram com uma vontade vibrante de um sintetizador malabarista, e nos abanam a cabeça (forçosamente). “Deixem-nos ir convosco, queremos ouvir mais!”.

 Não nos levam para casa, mas dão-nos algo de si, algo íntimo, algo desenhado e precioso. Lançam o EP de estreia, The Plastic People of the Universe, para combater a nossa ânsia de receber mais e melhor. O nosso pequeno lado ansioso desfruta de temas como “Little Mouse”, “Flowers”, “The Clown” (o meu favorito) e “Round and Round”.

Se “Go Home“ nos assombrava com a sua vantajosa imaginação aventureira, “Little Mouse“ atiça-nos uma infantilidade quase mundana, onde nos debruçamos sobre a amizade improvável entre a razão e a cegueira humana, romantizada vontade de compreender a promessa e as divagações constantes que assombram o pensamento, no fim de tudo, não deixa de o ser “For a night it was a great day”. Mas se nos falta a esperança para um amor difícil e vago, é com “Flowers” e a sua transversalidade num horizonte de sedução, subjetivo, e calmo. O amor grotesco tem um nome e, consideravelmente destinado, desabrochará, até no quarto mais escuro, se puder usufruir da momentaneidade de uma onda sonora tão amável e apaixonante como esta que os Grand Sun nos oferecem. Apesar de tudo, é na chegada a “The Clown” que se compreende a importância de um amadurecimento artístico e espiritual. É neste preciso momento que compreendemos que a genialidade tem maturação, tem trabalho e esforço; na balada mais palhaça do álbum, onde o piano nos desmonta o mais complexo pensamento e nos apreende a sobriedade de um ego que nos agrava o “eu”… É este o passo que nos permite compreender o mais sensato, é The Plastic People of the Universe mais que um trabalho crítico e vulgar; é bem mais uma concretização de um espírito adolescente, crescido, maturo, que se define adulto pela sensatez de reconhecer uma conexão entre toda a divergência subjetiva que nos une. É o nosso esforço do “bom agrado” que plastifica as nossas emoções, em expressões faciais vendáveis; atitudes comuns, num mundo irreverente. “Round and Round” é a confirmação que define esta conclusão certa. É o último tema (e o mais justo), pois dedica-nos a importância de o sabermos: “I can see it all so clearly now”; e aqui tudo passa a fazer sentido.

Apesar da despedida, Grand Sun não nos deixaram sós; como posso afirmá-lo? É com o cansaço acumulado que nos aguçam a vontade de dançar e, no presente ano, nos patrocinam com “Feeling Tired“, mas vos prometemos, Grand Sun, não estamos com um outro alguém… Estamos só à espera do vosso próximo álbum, solenemente, solitários, na esperança do retorno a uma sinergia que só vocês nos podem estimular.

Lécio Dias