Os portugueses mais Modernos são de Alvalade! A genialidade dos Capitão Fausto é tanta, mas tanta, que extravasa para outros maravilhosos projetos. Isto acontece com o isolamento experimental para o enorme Pesar o Sol. A razão criativa justifica outros trabalhos (por necessidade) e por vontade concreta em surpreender com o melhor do cunho independente.

Se chegam do trabalho e a garganta vos dói, enquanto a chuva molha as almas sombrias que vagueiam pelas ruas noturnas, carregadas de tensão espiritual; sentis vós essa necessidade de fugir do politicamente correto e rasgar padrões sociais com rockabilly português? Deveis ouvir (imperativamente) o rock cru, virgem e tão pouco ou mais feliz que vocês, dos Modernos.

Se há um corpo certo, metafórico e justo que valorize a sua musicalidade é, certamente, o mesmo corpo que experiencia uma sandes de panado!

Em 2014 surge a primeira vaga moderna, através do caminho proporcionado por quatro temas desnudos, captados em primeira mão, sem pós e/ou brilhantes estéticos capazes de embelezar a distorção rude, crítica e sintática. #1 é uma chapada de luva branca, lo-fi, criado subjetivamente para ser um abraço carnívoro e impressivo do trabalho rock mais fiel de três peças essenciais. A bateria cheia de atitude do Salvador Seabra mistura-se com o virtuosismo grave do baixo pausado do Manuel Palha e, claro, respiram a vivacidade excêntrica da lírica, da vocalização e das guitarradas gratificantes do Tomás Wallenstein.

 #1 acolhe-nos com uma carga espiritual, mas desconcertante; começando pelo dinâmico respirar d’ “24“. É este o portal para um momento em voga e, senhoras e senhores, preparem-se para uma maratona aerodinâmica. Só pararemos na “Sexta-Feira para agarrar uma batida relaxante, assoberbada por uma aceleração estonteante numa quebra qualquer. Sobra-nos compreender o que mais tememos; fingir uma alma cheia, tendo o coração a estalar; provavelmente com a adrenalina! Mas isto é normal; quantas vezes não fazemos coisas sem pensar?, é assim que compreendemos que #1 é trabalho para não pensar muito, limitando-nos apenas a seguir um horizonte vertical, sem destino, sem enfeites. Acho que é o que nos parece melhor; mas, é claro, preocupam-se os Modernos em obter o nosso consentimento para mais uma injeção aventureira; mais uma corrida noturna. “Vamos correr mais um pouco? Queres?” “Só Se te Parecer Bem”, claro! Com tanta corrida a fome aperta e, certamente, nada melhor que uma bela sandes de panado, improvisada, e saborosa! Qual o panado? O “Panado Cister“, em honra à Confeitaria Cister, onde se devoram das mais valiosas. Ficamos com água na boca, mas os Modernos têm mais para degustarmos!

Em 2015, #2 vem presentear-nos com mais delícias panadas. Beber do nosso próprio sangue e rosnar atitude convicta, é um pedido implícito em “Só Se te Parecer Bem II“. Segue-se aquilo que todos nós sabemos; aliás, até “Eu Já Sei” que a movimentação dançável dos Modernos é algo contagiante e pouco tranquilizante, mas é por isso que amanhã se espera um “Dia de Sol“, cheio de incertezas, mas que nos anima mais um pouco e nos preenche com calor tristemente alegre. A partir daqui, o calor já é tanto, mas tanto, que compreendemos que algo queima… Talvez o nosso ego ferido, as nossas dúvidas constantes, a nossa alma febril, os instrumentos dos Modernos (que já tanto correram, rápidos e voláteis); algo está a arder e, note-se, não só os nossos ouvidos em chama mundanal, talvez se perceba que temos a “Casa a Arder“; e isto é fácil de compreender, pois todo o trabalho que vem da mão destes senhores, se não queima, é porque já nos incendiou o corpo dançante há muito tempo!

Não se sabe quando mais surgirá, vindo dos Modernos; mas só se espera que venha… Enquanto isso, sofreremos a chuva na ausência desta distorção tão animada quanto depressiva.

Lécio Dias