Há prioridades mais relevantes que outras e, acima disso, há vontades menos elásticas que as relevâncias constantes que descuidamos. Os Paradoxo veem na sua originalidade a prioridade elástica de se ser mais um produto virtuoso, desclassificado, necessário e imperativamente inovador.

É aqui que o libertino rouco, assustador, impreciso e ingrato se aprisiona na calha sonora de um passo maravilhosamente galopante e fogoso. É na bateria cardíaca e pulsante do Afonso Matos que sentimos o primeiro passo aluado de uma sonoridade gravosa e fiel; é também na paciente progressividade majestosa do baixo do Nuno d’Eça, da assombração rouca da voz do Eduardo Silva (a par da sua guitarra), da guitarra do poeta boémio, Hugo Gonçalves e da caleidoscópica ambiência dos sintetizadores compostos pelo mesmo. Atualmente, desde a gravação do álbum, a formação sofreu alterações, passando a responsabilidade do baixo para a mão do Guilherme Proença e ficando as teclas ao encargo do João Barata.”

A sua primeira abordagem bebe da misticidade de Sintra e, se não nos é possível acreditar, basta apalavrar um acordo pelo qual nos comprometamos a ouvir o seu primeiro trabalho (até à presente data). É de 2018, cheira a molhado e é nebuloso; roda-nos a sombra benigna de uma névoa profunda, malabarista que nos ensurdece o espírito bêbedo através da maestria gloriosa com a qual concretizam a sua musicalidade. Lado do Lago é um passo excêntrico, carregado de simbolismo Kantiano, filosofado, amadurecido e português (como bem se quer), para uma prática franca e modesta. A palavra de ordem é a “subversão” e roubam-se as gralhas maquinais com que nos arejam o espírito. Não é preciso muito para se compreender que as “Raízes do Ódio” são mais psicadélicas que a maquinaria pesada que ergue este núcleo amplamente galanteador. É este o pórtico solene que nos conduz a um palácio lacrimal, onde se choram as “62” batidas incessantes que agravam o nosso irracional estado de ser. Se há algo de sombrio e de macabro na abordagem astrosa do trabalho dos Paradoxo, há também uma gama de margens preciosas onde nos arrojamos para as águas mágicas que nos submergem na melancolia quase eterna. “Lado do Lago” é uma maravilhosa expressão dinamizada por um riff inacabável.

Quando se percebe este trabalho, sobra-nos a consciência de que estamos perante uma “Ode” à originalidade da nova vertente musical portuguesa, onde novos artistas assumem a necessidade de uma reinvenção emoldurada. Estas odes “cheias de razão” são a causa de uma esperança no artístico lado português. Se o cansaço vos agarra no meio do álbum, a balada “Nada é Nem” acolhe-nos num ombro seu e adormece-nos a arrogância, através do seu passo deambulante e dos seus sintetizadores expressivos e gritantes. Na condução divinal e espiritual só se agravam as condições para chegarmos até às belas gémeas falsas que nos aguardam no fundo do lago; “Gémeas I” e “Gémeas II” colhem-nos a tesa bebedeira rítmica, como um cordel infinito que nos conduz até casa. Só lá no fim descobriremos que moramos no fundo do lago, ao lado das rochas, da areia, da gélida pressão da água e das maravilhosas “Dálias do Lago“, pelas quais nutriremos um amor intenso pelo seu odor a um quase nada abstrato, simplista e desgovernado. Acontece que o reverb nos acorrentou e as nossas prioridades mudaram; no fim, já não queremos fugir do fundo, só queremos adormecer na sua escuridão e gargalhar ininterruptamente.

Desconhece-se o retornar dos Paradoxo, sabendo apenas que se têm apresentado em alguns pequenos palcos; sempre na ânsia de saltar para uma casa maior. Talvez venham a morar connosco no fundo do lago onde nos deixaram a sonambular virtudes, a negar princípios e a casar com dálias de ninguém.

Lécio Dias