Mais um mês de Novembro, mais uma voltinha na avenida mais batida de Portugal. Ela é santos populares, é manifestações, é desfiles e paradas e não fosse ela liberdade, neste mês é um festival. Festival esse onde os amantes da música, uma vez por ano, fazem procissão para ver algumas das suas bandas preferidas. O Super Bock em Stock voltou em força este ano e com um cartaz bem recheado de surpresas. Aqui estamos nós outra vez escrever sobre este acontecimento e fazer-vos um “walk-trough” pelos concertos que vimos em dois dias desta edição do “…em Stock”.

Como já sabem, nós trabalhamos por gosto, somos uma equipa pequena, logo há sempre aquela dificuldade em dividir tarefas no que toca a este festival pois QUEREMOS VER TUDO mas não é possível… Foram noites curtas e cheias de sobreposições, que nos fizeram perder algumas bandas. Pedimos desculpa desde já a quem nos está a ler mas, na verdade, não estamos preocupados, pois no fundo estamos aqui para vos mostrar algumas coisas que vocês gostam e outras que nós queríamos muito mostrar-vos. Então a que concertos assistimos este ano?

Decidimos então, seguindo os horários do festival começar com um jovem que nos é bem conhecido, Niki Moss, o alter-ego de Miguel Vilhena, fundador da Pontiac e ex-Savanna. A sala 2 do Cinema São Jorge estava composta e expectante, acho que o Miguel também. Entram sem rodeios, apresentam-se e fazem um apelo: “aproximem-se mais para sentirem a cena” e surgem as primeiras notas que encheram a sala com efeitos psicadélicos, teclas encantadas, uma secção rítmica (baixo e bateria) bem “tight” e riffs de guitarra que nos transportaram para um mundo paralelo, bem próprio deste rapaz e de sua banda. Este rock alternativo de Niki Moss é seguro e faz mexer a multidão, e ao fim de três músicas a festa está montada. Saímos em discussão interna por estarmos a gostar do que víamos, mas termos de nos apressar para o Tivoli. Estava assim lançado o feitiço de Niki Moss sobre os peregrinos da avenida.

Mas, se de um lado da avenida ficámos enfeitiçados, do outro, no Tivoli esperava-nos talvez o concerto que mais nos marcou. Luís Severo trouxe a esta sala esgotada, ansiosa por vê-lo, arranjos dignos de nos tocar no coração. E foi isso que fez, tocou-nos coração… Primeiro a solo, depois acompanhado por um contrabaixo, harpa e violoncelo, Luís fala ao micro envergonhado mas, assim que surgem os primeiros acordes naquela guitarra, a vergonha desaparece e, numa performance no mínimo incrível, deixou o Tivoli colado a marinar nas suas canções. O artista apresentou de maneira intimista e profissional o seu mais recente trabalho, contando também com algumas peças antigas. Ainda estamos para descobrir que truque de magia usou Luís para tornar, apenas com a ajuda da sua guitarra, um Tivoli cheio no seu quarto. Que é um dos mais talentosos músicos da sua geração há muito que ninguém na redação duvida, mas as versões de músicas como “Planície”, despidas de banda, contendo apenas guitarra e voz, vão ficar certamente na memória de quem assistiu a este concerto. Ficam as imagens captadas pela nossa equipa. Palavras para quê, da próxima estejam lá!


Seguimos então para a zona da avenida mais movimentada deste festival, o Coliseu, para ver os Sinkane e a sua panóplia de jingas provenientes de vários estilos musicais. Um misto de batidas com raízes africanas, pop, rock’n'roll, reggae, R&B, neopsicadelismo, blues, funk (não aquele do Brasil), enfim, notou-se a influência que a gentrificação de Nova Iorque teve nesta banda. Não são a primeira nem a última, no entanto, nunca é demais referir, deve ser complicado viver numa cidade onde todos os estilos de música convivem e se influenciam, e conseguir prestar atenção a todos. Complicado ou não, basta ter uma boa orientação musical, tempo para compor, vontade e uma banda de músicos exímios. Pareceu-nos ser este o caso. Ao longo deste concerto vimos um Coliseu a meio gás, um pouco tímido de início, mas que depois entrou neste comboio-fusão proveniente de Brooklyn cheio de malhas dançáveis e guitarras cheias de distorção… A banda apresentava-se confortável em palco, focada, energética e sempre que havia hipótese lá saía uma ou duas palavras em português, mostrando que estão cá para nós.

Já nós, tivemos que arrancar para outra e lá perdemos o final de Sinkane para chegar a tempo ao Maxime, para ver Marinho. Depois de meia “Liberdade” percorrida, entrámos nesta sala e as palmas enchiam o espaço que rebentava pelas costuras, começava “I give up, and it’s ok”. Para nós foi a malha perfeita para começar este concerto, embora ele já tivesse começado. O público sentiu o ritmo da música, soltou-se um pouco, abanou a cabeça e, no palco, cada membro da banda movia-se ao seu ritmo e tempo com o furor de umas verdadeiras estrelas de rock. Temos acompanhado o percurso de Marinho, não vos vamos mentir. Ter visto este momento da sua carreira fez-nos acreditar que isto ainda vai manso para aquilo que haverá de surgir, parece-nos… Seguia-se a canção “Ghost notes”, mais uma canção forte que mostra não só a sensibilidade na escrita desta autora, mas também a composição e estrutura musical por detrás deste projecto. Mas o tempo apertava e se, queríamos apanhar o momento mais aguardado pela maioria dos visitantes deste festival, tínhamos que avançar, e lá arrancámos em direcção ao Coliseu outra vez.

Apresentações para quê, segue-se Michael Kiwanuka. Não há palavras… Entramos num Coliseu com sala “ao barrote”, apenas encontrando lugar no último anel por cima dos camarotes. “Black man in a white world” entoava em todos os corredores, que transpiravam de gente à procura de um bom lugar para assistir ao concerto. No palco, a banda parecia já sentir-se em casa, e ainda bem, pois o público estava efervescendo cantando o tema mais conhecido de Kiwanuka. No entanto, não foi apenas este a receber atenção. A sua banda, mais especificamente, os seus magníficos coros, receberam talvez a ovação da noite quando a meio do concerto o público decide gritar, assobiar e bater palmas, a seguir ao magnífico e deslumbrante solo de voz de uma das suas raparigas do coro. É bom ver o público e delirar não só com a cara da banda mas também com quem está por detrás dela. Mais uma vez, não nos podemos alongar muito, pois estávamos prestes a ir para o nosso último concerto do dia e o mais esperado entre a equipa da Punch presente no festival.

Tanto hype tanto hype e afinal estamos a falar de quem mesmo? Nilufer Yanya, uma das novas caras da música britânica! Quem? Pois, quem a conhecia chegou cedo e encheu a Sala Manoel de Oliveira ao longo de quinze minutos. Quem não foi, resta imaginar… Arriscamos dizer que este concerto foi tão marcante como o do Severo. Marcou nos não só pela sua voz única que define Nilufer, como pelo som cru de guitarra e efeitos escolhidos por ela para criar este seu mundo musical muito próprio. Para rematar esta faz-se acompanhar de uma banda que completa a cem por cento este projeto. Esta junção fez com que o concerto deixasse toda a gente hipnotizada, naquelas almas que se observavam em palco. Entram finalmente em palco e começam a tocar “The Florist” e toda a sala se arrepiou mal Nilufer abre a boca para cantar… A sala fica vidrada na artista mas, rapidamente os ritmos da bateria entram e trazem-nos de volta a realidade. São poucas as palavras entre músicas, no entanto, o público pouco se preocupava e expressava a sua felicidade e inquietude ao reconhecer os acordes das músicas que surgiam. Nilufer Yanya leva-nos assim pela mão por um concerto mega intimista e caloroso que deixou toda a sala a salivar por mais. Daí a nossa comparação com o concerto do Luís Severo. Sentimos que toda a gente estava ali porque realmente conhecia a artista ou a queria conhecer e não porque é “aquela banda que tem aquela música”. Sim este foi um dos vários critérios ao escolher os concertos a que assistimos este ano. Se há coisa que este festival nos habituou, ao longo dos anos, foi a ir à descoberta daquelas bandas únicas. E nós tentámos manter a nossa tradição.

Segundo dia do “…em Stock” e que maneira melhor de o começar senão com Ditch Days no Palácio da Independência. Tudo parecia calmo até que no, último minuto, de repente, casa cheia! Estes meninos já não são novidade nenhuma para muitos de nós, então seria de esperar esta corrida ao seu concerto. Os membros da banda tentam chegar ao palco atravessando o público e mal o pisam, compasso de espera, começa o concerto. Eles estavam com pica, o público estava com pica, a banda narrava, os corpos abanavam-se, alguns de olhos fechados, outros ao ritmo das guitarras. Foi como se ligassem o carro e siga viagem. Viagem essa de vinte minutos, de quarenta, que nos deu motivação para a noite que se avizinhava. Infeliz e injustamente é tempo de seguir caminho até ao próximo venue.

Seguimos pelas ruas movimentadas dos restauradores para encontrar a Garagem EPAL repleta de gente de todas as idades no concerto dos inconfundíveis Zarco. Entre a multidão que já se rendeu ao som da banda lisboeta, é difícil chegar a uma zona da sala que não esteja ocupada. Encontrámos alguns sítios onde foi possível aproveitar o concerto e rapidamente percebemos que, cada vez mais, os Zarco têm um grupo de fãs que cresce com a banda. Eles não são acanhados, uma banda sem papas na língua faz amizades em qualquer parte! O concerto seguia a um ritmo contagiante, que se fazia notar no público heterogéneo, composto de malta que se abana freneticamente, malta que se abana, perímetro de segurança composto por casais e grupos maiores que se abanam menos e malta que está a curtir tudo. Uma salada russa temperada com sal “Zarco del mar”! Mais uma vez, receita ideal para esta noite e o roteiro escolhido, parabéns aos Zarco pelo espetáculo onde participámos.

Aqui começa o turbilhão da noite do “…em Stock”, Tainá e Baleia Baleia Baleia a começar ao mesmo tempo em lugares distintos, a pressa para não esperar muito para entrar em Curtis Harding, enquanto um segue para não perder o Bruno de Seda. Enfim, fomos a todos estes concertos, cada um por si, separados como as bolas de cristal, embora só três. Fomos evocados pelo chamamento dos Gator The Aligator. Mas já lá chegamos… Chegamos a Tainá e, como seria de esperar, o público que conhece a cantora não podia falhar a este momento e encheu a Casa do Alentejo. A cantora já está mais que habituada aos ares de Lisboa e lança-se ao concerto com uma dedicação nata que prende quem a segue. Temos a certeza que, independentemente de alguém no público estar a ouvir a jovem brasileira pela primeira vez, ou já a conhecer, ninguém escapou às melodias de Tainá e da sua magnífica banda e convidados. Do outro lado, na Estação Ferroviária, os Baleia Baleia Baleia disparavam balas para o ar e faziam tremer o metal da estação e quem os via. Música atrás de música pudemos assistir a um bom momento de rock’n'roll mergulhado em punk. Sempre a animar o público, esta é uma daquelas bandas que nos faz relembrar que o rock está bem vivo e em boas mãos.

 No Coliseu a sala rendia-se ao charme de Curtis Harding, como não? Groovey, energético, às vezes mais suave, podemos afirmar que é um músico bastante completo e que merece a atenção dos que desejam conhecer mais música. É triste a sina desta noite e o que nos fez fazer, mas o tema de Curtis, “Need your Love” puxou por nós de maneira otimista e despedimo-nos de Curtis sentindo no fundo um pequeno sentimento de pena. Bruno de Seda dizem eles… Que espectáculo único a que assistimos outra vez no Palácio da Independência. Ficámos rendidos e os poucos, mas bons, que assistiam, tímidos, assistiam com dedicação o espectáculo. A sala enchia-se de pianos, sintetizadores e coros cintilantes que hipnotizavam o público, enquanto a guitarra saltava entre passos suaves e pulos a rasgar ar, que encaixam na perfeição no bolo musical de Bruno de Seda. Um concerto que não vamos esquecer! Chegamos então ao final desta jornada e estamos de volta à estação do rock para assistir aos Gator, The Alligator, e que concerto nos esperava. Riffs catchy, ritmos blues com uma pitada de stoner, voz poderosa, um baixo cavalgante que nos cola à música incisivamente e uma energia em palco que nos deixou com um sorriso de orelha a orelha. No público, os corpos vibravam e os cabelos voam, bem, no palco os cabelos também voavam. Mais um concerto que os amantes do rock não perderam, uns mais atrasados que outros, mas todos a tempo para ver este reboliço, no bom sentido da palavra, que coexistia entre viagens de comboio e ondas sonoras que partem pedra.

Voltamos a separarmo-nos e, no autocarro, os Sweaty Palms não tiveram muita sorte, ou nós não tivemos muita sorte e, infelizmente, o som foi abaixo três vezes durante o percurso. Bem, mas era este o plano e esta era a nossa janela para assistir ao peculiar evento que é o famoso autocarro do Super Bock em Stock. Vai ficar para uma próxima. Exatamente ao mesmo tempo, os Vum Vum, banda angolana com mais de duas décadas, encontram-se no Maxime a dar um concerto que nos aqueceu como se o calor de Angola ali estivesse. Assim que a música que nos encantava parava, os Vum Vum aproveitavam para falar e explicam um pouco a sua realidade. Falou-se de receitas culinárias, de poesia, de música, enfim, mais uma música, mas não, mais uma piada e depois sim tocam. Voltam a tocar e de repente todo o mundo dança. Ficámos sem palavras. Este é outro que, sem dúvida, não nos vai sair da cabeça durante muito tempo.

O concerto de Slow J no Coliseu era uma vitória anunciada desde o momento da confirmação do mesmo. Esperava-se casa cheia e reportório completo e nem Slow, nem o público faltaram ao prometido. Um Coliseu cheio aguardava ansiosamente pelo início e, quando a voz de Sara Tavares se fez ouvir (em forma de sample), o Coliseu explodiu. O fenómeno Slow J tem as suas provas dadas há tempo e o Coliseu a cantar em pulmões os refrões de João servem apenas para rematar uma das carreiras mais ecleticamente distintas da nova geração. Após um par de músicas, chega Papillon para FAM e o Coliseu dança efusivamente. Quando este sai e se ouvem as primeiras notas de Water, há um suspense palpável no ar, o público aguarda ansiosamente para perceber se teremos Richie Campbell em palco, mas apenas a voz dele chega. Não há alma na plateia que se deixe ir abaixo por isso se não há Richie, há Coliseu! “Vocês vão-me deixar mal habituado, Coliseu”, diz Slow-J sorridente ao ouvir as suas palavras a ecoar na boca de milhares.  Num concerto que foi de consagração, houve tempo para homenagear o falecido avô de quem Slow tanto falara em “The art of slowing down”, para mandar um beijo à avó que estava nos camarotes, e para fazer uma versão de “Lágrimas” acompanhado do seu primeiro professor de música, Nuno Cacho. Para o encore foram deixadas “Comida”, a mais antiga “Cristalina” e, como João vinha com a tática bem estudada, terminamos com o hino “Vida Boa” um concerto seguro mas que esperávamos com mais sal.

Espera-nos então o final da noite. De um lado, música electrónica para dançar e, do outro, punk rock puro e duro de fazer doer o pescoço. Fomos a ambos outra vez… STCKMAN enche o Bar do Coliseu de groove e a pista vai enchendo. Para muitos, este já é o final do festival então, entre copos, se vai ficando e dançando, enquanto as caras vão ficando cada vez mais alegres. STCKMAN divide o seu set entre clássicos da música dance e eletrónica com história, enquanto nos vai mostrando o que de mais recente se passa nesses mundos. Para além disto, o Nuno ainda tem tempo para compor as suas próprias músicas, que como é óbvio fizeram parte deste reportório necessário à ocasião. Está fresco mas tem andamento, estamos ansiosos por conhecer o percurso. Do outro lado da avenida, Viagra Boys enchiam os ouvidos dos fãs com o que todos queriam, as mais antigas e as novas, foram a todo o lado. Eles são uma banda de culto e o comportamento em palco mostra o porquê. Não é uma banda para os ouvidos de todos, mas bem, encheram a estação. Gente em tudo o que se avistava e o reboliço deixado pelos Gator foi o aperitivo perfeito para este prato principal e sobremesa. Só temos pena ter acontecido num espaço complicado para a acústica. Não apontamos dedos a ninguém, apenas que é difícil trabalhar em espaços como aquele e isso fez com que o som tivesse que ser bastante controlado.

Chegamos então ao fim de mais uma edição do Super Bock em Stock. No geral, ficámos contentes com o que encontramos e temos muita pena de não ter visto todas as outras bandas óptimas que passaram pelo festival. Despedimos-nos da Avenida pintada de som, mais uma vez, para dar lugar ao seu ritmo normal e esperar pela próxima edição, que sem dúvida não nos vai desapontar. 

Texto: Tiago Coelho e Diogo Silva
Fotografia: Baja