Já se conhece a infeliz história de Henri de Lagardère; e não é por acaso que nos identificamos com essas desavenças desconcertantes e malandras. Desde “Camila Casali”, à “Amiguinha” ou a “Malandro”, LaGardère só consumiu mais e mais de si, para que fosse um miserável espírito, sonâmbulo, deambulante ser num cavalgar espiritual, desnudo e ensopado em incompreensão. Uma quase bonita história de amor, uma segunda paixão mal amada e uma amizade incentivadora, aliadas aos infortúnios de um boémio, fazem a receita necessária para que nasça um grande artista com pouco texto, mas muito conteúdo.

Lagardère viveu poucas oportunidades para apresentar o seu trabalho e, no Sheraton (em Lisboa), decide reconhecer o seu último aplauso; às mãos Yann Vaz da Silva, João Sampayo e do Carlos Noronha. Aqui nasce uma promessa de três missionários, senhores vingadores e compromissivos, que assumem a sua distância com o passado, sem nunca perder de vista a presença agreste de LaGardère em todo o mal-amado, mundano e perdido ser. Decidem-se a vingá-lo perante o público, viciando-nos nos temas de LaGardère, batendo-nos com uma pancada de consciência, onde a Santa Trindade é o Pai, o Filho e o Espírito do Canto (aquele que ignoramos incessantemente, mesmo quando o seu valor nos agrava o bem-estar).

A vingança começa em 2018; e não mais para e, se nos é permitido, que boa vingança esta; a de chamar-nos à razão ignorante, através de um doce balançar harmónico, próprio, mas confortavelmente sedutor. Seduzem-nos a tramóia e a classe com os seus teclados maquiavélicos; assumidos nas linhas elétricas de um baixo movido a ódio esperançoso e a reconhecimento contemporâneo. As guitarras donas de um blues miraculoso, funky e luminosas, vêm complementar o melhor dos drums pulsantes, como sábios congos dançarinos no ouvido da maior dissonante figura deste mundo. É aqui que se percebe que todos temos algo a dizer, No Lugar do Fim do Mundo, pois a última palavra pertence sempre a quem conquista a razão (por força dos outros; por força de algo, se possível). Esta estreia que nos constrói as peripécias, que mesmo não sendo nossas, se dignificam a pertencer-nos. Com uma maturidade incrível, este é um álbum que acolhe as experiências sinceras, genuínas e modestas de um crente (descrente) que se torna ateu, por força de um politeísmo musical, onde as divindades são fracassos maiores que o nosso travo agridoce de não sermos capazes de reconhecer artista onde há arte. E LaGardère tem arte de artista (artístico) que trava o barroco convexo, tradutor de uma insurreição que tanto o define.

Mas a história de LaGardère é extensa e, em 2019, entregam-nos Uma Vida Anunciada com toda uma intenção maior que quase tudo. Atravessam-nos a fibra com cantares melódicos, viciantes e trapalhões (por sinal), carregados de uma entoação experimental, diversa, variada e refrescante; como se nos oferecessem sempre a opção da “fruta da época”, mas com todas as épocas concentradas na mesma presença do espaço-tempo. Soltam-nos as amarras líricas com as suas mãos calorosas e amistosas, ameaçando-nos a frieza, com os seus sintetizadores pacificadores, amantes incertos das guitarras animadas e do baixo marcante; prepotente decisão agreste, a de arritmar a nossa genuína miséria com o passo vincado de uma bateria explosiva. Um completo trabalho de mistério assombrador e adocicado, sem promessas a mais ou a menos; chegando-se à frente na experiência e na criatividade inventiva de um grupo completo e precioso.

Se LaGardère vivesse (em corpo), saberia reconhecer o esboço perfeito da sua alma biográfica, derretendo-se na clandestinidade vocal com a qual cantarolamos toda a sua musicalidade salva com mão de ferro e toque de anjo, pelas certezas dos três missionários prometidos.

Lécio Dias