Calha-nos sempre a sorte de deslumbrar espíritos atípicos, enquanto viajantes encarregados de manipular o nosso sonho mais profundo, como se fossemos plasticina mole, derretida e agressivamente moldada. É aqui que encabeçamos a maior decisão que podemos tomar num domingo à tarde e, por preguiça, deixa-mo-nos esconder na compreensão miraculosa e dócil dos Ditch Days.

Guilherme Correia, José Crespo e Luís Medeiros são os três cabecilhas do gang mais perigoso de Lisboa. Perigoso? Sim; pois são salteadores de sonhos e concentração, aumentando em nós a ausência de espaço para outro qualquer desejo que não seja derreter nas vibrantes e douradas ondas sonoras das suas músicas. Há algo nessa mesma perigosidade que se assemelha a um dream pop feito de algodão-doce cor-de-rosa, coberto de sprinkles e de Bubbaloos Tutti-Fruti; açúcar o suficiente para quem não aguenta nem mais um pouco de amargura nos seus dias custosos. Quando nos confrontamos com a vivência musical e atómica da simbiose entre guitarra, os drums e os sintetizadores viajantes e cortantes, sabemos ao certo qual a justiça que nos espera. Ditch Days fazem da claridade algo bom e do fuzz um “must” essencial para um dia mais pleno e alegre.


A compreensão libertária de ideias de pura simplicidade mundanal, pela qual se assemelha um dia nubloso, púrpura, com um sol infinito e sempre presente. Aqui encontramos raízes que nos costuram os pontos de uma juventude bucólica e preciosa; como se sempre tivéssemos sido “putos” do campo, sem nunca termos saído da cidade grande. É aqui que entra Liquid Springs, de 2016, produzido por Miguel Vilhena, como o arquétipo dessa perfeição concentrada que nos unta em glucose comportamental, fazendo de nós seres ainda mais doces. Esta atitude irreverente e amolecedora sente-se desde o primeiro deslize sonoro, até ao fuzz conquistador e impressivo que consome o nosso ecossistema anti-stress, fazendo-nos adormecer de olhos abertos. Um indie-rock aluado conquista-nos através do passo vibrante de um baixo relaxado e descomprometido, como se todo o balanço musical se prendesse com as guitarras e os sintetizadores. O passo rítmico da bateria é, apenas e só. uma linha paralela à viagem ausente de toda a nossa compreensão. E aqui, sente-se um meloso transtorno incompleto, aguardando-se a capacidade de explosão que tanto define temas como “Melbourne” e “Zowee”. Há sempre espaço para algo que mais que aventura; arrisquem ainda que vos custe tudo; sejam empreendedores do vosso próprio empreendedorismo: Ditch Days seguem-nos os sonhos, reforçando-nos o caráter, a atitude e a desconcertante prontidão para errar mais e mais até que se acerte com o erro!

Deixam-nos três temas e a espera por mais. Sabemos que é um compromisso (esse de lançar singles), mas aguardamos um pleno, extenso e delicioso trabalho. Para tal, deixaram-nos com “Downtown (com Calcutá)”, “Seth Rogen” e “Even If You Know (com Terry vs. Tori)”, alarmando-nos o sentido e o foco para que surja um próximo trabalho capaz de nos saciar a fome (e que fome) que tanto alimenta o bichinho… E o bicho curioso cresce.

Lécio Dias