Os Drunkyard cheiram a bebedeira, azáfama, juventude insultuosa e maquilhagem borrada. E quê?  São meio caminho andado para um clímax noturno, no balcão de um bar, ou atrás de uma jukebox avariada, enquanto seguramos a garrafa mais vazia do bar, sem perdermos de vista a saída para a próxima grande festa da noite. Não param; desde o primeiro acorde, até à última batida, não há travo azedo que não nos estimule a mais um gole desta sonoridade explosiva e entusiasmante. Sente-se atitude desde a pele até à medula do estribo. Arrepiante batida animada e marcante, sem se sentir arrogância ou maus ditados. São apenas e só mais um grupo de entusiasmados que se entusiasmam com o entusiasmo dos outros; e não é pouco! Chegam-nos de Madrid, na sua cool vibe lo-fiana e crocante, assumindo-se em posturas pré-caóticas e bem-humoradas. São (em si) o início, o meio e o fim da noite; pela sua musicalidade, ou pela sua vontade, resumem-se a duas almas cheias: a de Nobita e a de Dani.

Em 2019 entregam-nos uma presença confiante e individual; Nice To Meet You, We’re Huge Fans é um abuso de autoridade musical, sem leis ou hierarquias, além do misterioso estímulo de nos criar a vontade de dançar e de deixar crescer o cabelo, sem razão aparente. Com uma vincada proeza incessante, rompem-nos a estática e levam-nos ao movimento constante. Sabemos bem o quão acordados estamos; a noite ainda é pequena e as garrafas ainda não gelaram o suficiente, mas há algo que nos puxa para essa incerteza de não querer acabar na cama (pelo menos na nossa), sem aprimorar o nosso melhor passo de dança. “Awake” arrebita os espíritos dos nossos antepassados e, sem sabermos, somos melhores dançarinos que um Michael Jackson em pleno auge da sua carreira. Mas não se faça silêncio sem uivar em grupo, saltando até que as solas se desgastem, e as vossas botas/pantufas/saltos altos e/ou chinelos favoritos estejam peganhentos e suados. “Getting by” é esse uivo coral e melodioso que nos engrossa a ganância de furtar só mais um shot ao amigo do lado!

No meio de tanta loucura e surpresa, é bem provável que percam as chaves de casa, mas não encontrem problema na razão de ficarem à porta de casa, enquanto a vossa mãe berra à chegada, às 8 da manhã do dia seguinte, pois podem ficar sempre mais um pouco com os Drunkyard; “Lockout“, mas bem acompanhados e quentes o suficiente (viva ao calor humano!). Nada melhor que esta moderna compreensão de vontades, desejos e pretensões e, por falar em calor humano, agarrem-se a uma balada floral e reconfortante; pesando-vos a cabeça e a ausência de ar puro (num espaço mais ou menos vosso), só resta divagar nas palavras românticas e na depressão alcoólica pela qual agarramos “Feelin’ Fine“, julgando melhor enviarmos mensagem àquele(a) ex que nos deve mais uma noite de amor. E, sem sabermos bem porquê, só se conclui que a noite não acaba, foge a depressão e agarramos mais uma vontade (porque a vida é feita disso mesmo, vontades) e num à vontade muito próprio, encontramos em “Race Horses” o último copo de Jack Daniel’s que nos faltava para fecharmos a noite da melhor forma!

Temos por hábito informar-vos (imperativamente) com aquilo que as bandas nos ensinam, mas não nos resta gritar muito mais. A voz está rouca, o bagaço acabou e os Drunkyard mandaram-nos fechar o bar. Limparemos a piscina, a casa, o bar, a discoteca, o quarto, o jardim, amanhã. Hoje só nos resta descansar numa repetição etérea e aguardar a próxima sexta-feira à noite.

Lécio Dias