É engraçado e caliente; este crunch moderado e acolhedor, assombrosamente gracioso, quando preciso, e amavelmente confortável. Um delírio dos ’90s, mas em modo contemporâneo.  Uma presença ruidosa, marcada por um majestoso toque grunge, onde se veem calças rasgadas, joelhos esfolados, e skates partidos. Cair e bater com a cabeça no chão, sem capacete ou joelheiras, mas rindo-nos do sucedido, como se fosse uma vantagem; ser-se aéreo! É assim que nos sentimos quando escutamos o trabalho dos Too Many Suns.

Nascem em Lisboa, no início de 2018 e, hoje, são três majestosos criativos: Hugo Pereira (senhor que dá voz e guitarra), João Cardoso (mestre rítmico) e Vasco Rato (dominador dos graves), sendo esta a formação com a qual apresentam o seu EP Garden, produzido pelo Gonçalo Formiga.  É aqui que conhecemos uma quimera artística, invulgar mas vigorosa, e cheia de cor criativa. Garden é, em bom português, um caleidoscópio sonoro. Através de poucos elementos, Too Many Suns conseguem exportar as suas ideias numa viagem estilística e apreensiva! Saltam de um folk reservado, para um noise explosivo e enérgico, provocante e insinuador. Sente-se uma esperança melancólica em cada tema e uma carga emotiva, mesmo que se negue. Emoções expressivas num grunge lisboeta que justifica que as faltas às aulas passam também por filosofar sentimentos! Todo o punk é emotivo; é esta a grande lição dos Too Many Suns.

Num encontro solene com “Garden“, encontramos risadas atípicas de um pop cativante e simbólico. O nome aplica-nos uma construção impressiva de um jardim carregado de tudo aquilo que um acorde alternativo consegue fazer florescer! A sul da nossa viagem, “South” entoa-nos imprecisos loops calmantes e gravitacionais, como invasores minúsculos que nos massajam o espírito, no ego mais saudável. Cair no chão, como dantes, mas nessa relva sagrada que nos contorna o corpo e amacia a desavença moderna; aqui, “Holy Grass” é um painkiller miraculoso, que nos aguça a preciosidade relativa de tudo o que é demasiado para um tão íntimo nosso; mas restam-nos os mil sóis (que de tão imensos) nos incentivam a agarrar na maior onda urbana, surfando por entre os espíritos citadinos e rolando pela rua abaixo e, aqui, “Mr. Fibbles” é a maior injeção de adrenalina jovial que poderíamos pedir! Graceja-se o calor e as tostas queimadas, deixamos o pequeno-almoço para o lanche e roemos as últimas gomas do quiosque da esquina; tornamo-nos mais rebeldes, até que “Trainwreck” nos aprisione essa clandestinidade com a qual fugimos para rua, como se as nossas obrigações naturais não fossem nada mais que deveres dos outros. “Trainwreck” liberta-nos de obrigações. Só nos resta sentir um pouco mais dessa dor do joelho esfolado e sujar um pouco mais as calças, quer seja com alcatrão, quer seja com a relva fresca. Há demasiado sóis a brilhar no mesmo céu. É-nos impossível adormecer. Talvez não haja amanhã e, assim sendo, vamos viver tudo hoje.

… Mas, se houver um amanhã, será esse abrilhantado pelo próximo trabalho de Too Many Suns, Meaning of Light e, assim sendo, o que nos resta pedir mais? Além de mais mil quedas rafeiras, mil sorrisos mal empregues e mais vinte faltas para darmos na escola?

Lécio Dias