Dez apóstolos rosnam à aguardente mais barata, enquanto discutem os pecados divinais com o Diabo, tão humilde e categórico. Faz-se da Conferência Inferno a última ceia, mas mais punk, mais agressiva, pintada a tons escuros, e colorida a um violeta turvo e gracioso.

É assim que o sinto; dia 21 de dezembro, 3:30 da manhã. Escuto o novo EP Conferência Inferno, à medida que leio mais um texto d’ “Palavras e Sangue”, do maravilhoso Giovanni Papini. Bazar Esotérico; uma obra produzida e misturada por Ricardo Cabral, passando a masterização nas mãos de Tiago Ralha. A noite está gelada, tenebrosa e o vento abraça-nos a indecência; e só faz sentido ser-se indecente, quando bate o primeiro toque de “Cetim“; quando “não há nada para ver aqui…”.

Compreendem-se as ondulações darkwave que definem Francisco Lima e Raul Mendiratta como um promissor duo, endiabrado, agradavelmente refrescante e impressivo, como bem se pôde ver na sua apresentação ao vivo, no Uncle Joe’s (Esmoriz). Não só se transpira uma vibrante calinada espiritual e existencialista, como também se recebe uma agressividade dinâmica, transparente estética dançável, eletrizante, mas reservada, saltitante pulsação de uma classe absorvida nos tons acinzentados da lírica expressiva de “Estática” e companhia. É incrível definir-se “Apocalipse” como palavra de ordem, nos municípios ausentes, pelos quais batemos pé e arranhamos bandeiras. Bazar Esotérico é meio caminho para um trabalho apátrida, mas português (de gema), pela atitude e pela intenção, como um laico compromisso entre os subúrbios espirituais, o underground divino e um “teu deus ateu“, entupido com morfina e antidepressivos. Entretanto, certa poesia ventosa corrompe-nos os sentidos, a tramitação processual é outra, “nada é como era antes“, galopante tombo, desestruturado nas miudezas divinas e nos sintetizadores hipnotizantes, nas arcadas sombrias desse lirismo tão caótico e nas assombrosas batidas eletrónicas e revigorantes. Caem-nos as guelras. Afundámo-nos em espasmos orgásmicos e mundanais. Tornei-me atípico ao som de “Antes” e revitalizei-me na procura desta crítica, expositiva e conquistadora.

Se bem me parece, é despedida certa. O último sopro analógico e um sincero “adeus” que nos aprova a curiosidade: Bazar Esotérico tem mais oferta moral, do que toda e qualquer religião.

Lécio Dias