Quando paramos para pensar na figura de Afonso Cabral, temos a tendência certa para associá-lo a um dos maiores projetos da música portuguesa, You Can’t Win, Charlie Brown. Isto porque Afonso é a maravilhosa voz que alarma a sua enorme lírica inglesa, a par da assombrosa instrumentalidade de um coletivo completo em todos os sentidos… Um daqueles que (metaforicamente falando) nos lembra os “Galáticos” do Real Madrid, mas com palhetas, baquetas e teclas (ao invés de chuteiras, caneleiras e luvas). Mas é impreciso e ingrato, apenas e só, associarmos Afonso à sua banda com uma década de existência; porquê? – porque este integra (também) a banda acompanhante de Bruno Pernardas e, além disso, é claramente um dos maiores letristas e compositores da atualidade musical portuguesa.

As provas estavam dadas em inglês, mas há mais na sua rugosidade, na sua íntima escrita, no seu minucioso ser, quando este decide tratar a sua mensagem na língua que Camões glorificou. A primeira prova disso mesmo surge no trabalho que realizou para Cristina Branco, em 2018. “Perto” é um arrepio amável, categórico e mimoso. É também o tema que molda a decisão de Afonso; a de tomar partida pela sua língua, pelo seu estilo próprio e fugitivo, em busca de uma definição que nunca lhe deu a certeza. Uma bússola que só deu orientação ao espírito e à marca do homem (enquanto artista). Além de tudo isso, é também um dos temas presentes na sua interpretação própria (como se compreenderá, seguidamente).

 Ao alimento certo para “o que fazer”, a respota surge (também) na parceria com Francisca Cortesão (Minta), para o contributo brilhante em “Anda Estragar-me Os planos”, composta para o Festival da Canção de 2018, apresentada numa brilhante apresentação de Joana Barra Vaz. O tema destacou-se tanto, que foi alvo de um maravilhoso rearranjo de Salvador Sobral, sendo integrada no seu mais recente álbum e, tardiamente, por Tim Bernardes.

 Mas não chegava apenas o que foi feito. Afonso sentiu necessidade de nos aproximar, de nos receber e de nos tocar o coração com um texto, com a língua, com a gramática, a semântica a polissemia e, para tal, toma a decisão de (em primeiro lugar) cantar-nos em português e de (em segundo) dar-nos a sua “Morada”, convidando-nos a conhecer o seu maior íntimo lugar (ainda que não efectivamente privado). Esse lugar publicamente frequentado por todos nós, ouvintes assíduos e viciados na proximidade matura e crescida, que nos alagam os olhos.

Morada” é um discurso ímplicito. Pretende mostrar-nos a causa e os efeitos, sem comprometer todo o resto que se alinha (vagarosamente) à nossa frente. Produzido em parceria com António Vasconcelos Dias, conta com 17 participações decisivas para assumir uma estrutura complexa, em constante movimentação, mutante simpático e feliz, defendido pela própria crença de Afonso (partilhada com o Público): “Sei lá quantos discos poderei gravar na vida, vou mas é a pés juntos e fazer tudo o que quero no primeiro. Depois, se houver mais, logo se vê.” E não é assim tão bom dizer “Sempre Sim”, mas é reconfortante acolher os desafios e reformulá-los como conquistas modestas e preciosas, capazes de definir os nossos planos mais incertos; nem que seja pela simples razão de os valorizarmos mais um pouco. Não é possível compreendermos o trabalho sem recorrermos aos brilhantes arranjos com cordas e sopros, alimentados pela simplicade indie tão deliciosa. “Inércia” é testemunha de uma simplicidade incrível, capaz de nos levar ao multiplano emotivo de uma introspeção conclusiva, crescente até ao ponto em que colapsa na onda civil de “Fogo Manso”, que conduz à revolução mais prazerosa da diplomacia musical, “Sussurro”, aquele que (a meu ver) é o tema mais ensurdecedoramente feliz de todo o álbum. Carregado de espamos progressivos, é suave e tocante. Fragiliza-nos ao ponto de reduzirmos a palavra mais sensível do mundo a um mero “ai”… Isto porque “Entre as Palavras e os Actos”, sobra-nos a “…mais bondade do que inveja...“. Sabe-se que “…não dizer mal de ninguém…” é meio caminho andado para o sucesso social e para o nosso próprio bem-estar (pertencente a outra pessoa qualquer). Passamos “Perto” e chegamos a “Contramão”, onde se aproxima o fim desta maravilhosa obra, por força da carga hipnótica do baixo, da bateria e dos sintetizadores, acabamos inundados pela maravilhosa balada, “Verso e Refrão”, que nos traz a conclusão perfeita para este discurso sentimental e profundo

 A visão de Afonso Cabral não é limitada, não é mesquinha e não discriminadora. Integra-nos todos na mesma casa, onde respiramos o alívio do cansaço com que nos descalçamos e nos atiramos para o sofá, com o intuito de aproximar o nosso bem mais querido; seja a nossa guitarra, o nosso livro favorito, o comando ou o amor de quem nos compreende. Afonso define-se (pelas suas palavras) como o ser humano mais humano de todos. Ainda bem que nos compreende assim, tão frágeis.

Lécio Dias
Fotografia: Vera Marmelo