Nos bosques do sentido (favoravelmente) bucólico, dançam os sátiros (sóbrios) ao som da chama da inércia e da colheita solar, ansiosa, moderada e gravitacionalmente leviana; em prol da descendência de um solstício romano (pré-calendarizado), sem tempo definido ou precisas manchas de sangue ancestral. As lutas intemporais terminam, os Deuses olimpícos abraçam-se e os Titãs adormecem no miraculoso cantar de Jasmim, efémero, refrescado pela sopro subtil da flauta transversal (não a de pã, mas a de Violeta Azevedo), e confirma-se que todos somos deuses do amor, se formos amados pela mesma voz, pela mesma crença que nos separa e pela mesma trémula dimensão que nos consome, astronomicamente, na separação dicotómica entre o ser e o ser-se. É a identidade de quem ama a natureza, como música celeste, agreste; ventania milenar que nos leva a todos (esvoaçantes) para a mesma carga do destino: a paz dos intemporais.

Quando Martim Braz Teixeira se assumiu como teclista dos Mighty Sands (aquele projecto que nasce no concentrado genialidade da Spring Toast), acordou na sua vontade cinematográfica a vontade de adormecer conjugalmente na promessa vantajosa da sua musicalidade. A bordo de um delírio assumido nas teclas presentes nos Mighty Sands, após alargar o esforço com que se dedicou a uma pandeireta. Criou-se espaço e magia numa criatividade suprema, óbvia e cheia de plenitude espiritual. Após uma viagem incessante no compromisso com o seu coletivo, revigorou-se a procura e, cansado da espera, quis mais e encontrar-se onde não se encontrava ninguém. Talvez criar um espaço seu, digamos; por ser necessário um sítio seguro para que todos nós pudéssemos divagar na normalidade ambiental, tal como santos moderados que somos. A prontidão é completa e começou na companhia de Chaby Mendonça, numa sensibilização que viria a ser chamada de “Primavera“. “Primavera” esta que seria imagem de marca da sua conhecida juventude quando, em 2016, se lança à mão deste single viajante, enquanto Jasmim. A sobriedade espiritual e o chakra melódico preso no transe harmonioso onde nos unimos à floresta, é uma imagem de marca que decide adotar, por força do seu acid folk; mood constante.

 Em 2017, na calha da transformação, o dream rock presente no EP Oitava Mar, alimenta-nos o “Paraíso” solarengo, onde os dedilhados são tenebrosos, românticos; os ideais, por certo, mas assustadores em todo o sossego que nos transmitem, com tudo “…o que é preciso…” e até mais. A sombria e etérea vocalização de Jasmim é a cereja cristalizada no topo de uma suavidade recetiva. Em “Caio” e “Sem Pressa” sentimos a dinâmica de um movimento marcado, português e expressivo, sem perder a tonalizada azul-celeste que define toda a sua vivacidade. Em “João” encontramos o atraso que nos mata, stressados, culminando na transparência opaca de “Loucura”; aquela que nos identifica como mortais.

 ”Aqui, Agora” é a marca para a maior concretização artística de Jasmim, sendo em 2018 anunciado o passo para o lançamento mais pleno, o seu longa-duração, Culto da Brisa, de 2019. Uma revolução preciosa quanto à sonoplastia, quanto à atitude, quanto à intervenção material. Um engraçado microssistema complexo, carregado de entoação minimalista e de calmaria comum na bossa nova dos senhores enormes da lírica brasileira. Na “Erosão” da maravilhosa vida, encontramos uma das melhores intros de sempre da música portuguesa (na minha humilde opinião, leitores), pela sedução impingida pela flauta aveludada que nos agarra, beija e abraça como se o sexo dos deuses fosse algo tão mundanal que qualquer um pode praticá-lo. E porque não? Jasmim diz: “… sei que és capaz…” e, decididamente, és! Assim, em “Vai Nascer” divagamos por entre o universo de azúis que nos compreende e adormecemos na sarjeta do mundo, recuperando dos mergulhos profundos no oceano da nossa consciência finita, por ninguém ser “Dono da Razão”, nem de mais nada que não seja de todos. A partilha singela de um sorriso e de um caloroso mimo é importante para compreender as maravilhas singulares presentes em cada toque curioso das folhas, dos amigos, dos próximos, dos mais animalescos e dos mais humanos… A chama da vida; “…esta chama nunca há-de se apagar…” e sabemos disso pelas palavras de Jasmim. Nem no “Inverno” encontraremos a frieza a que estamos acostumados, mas encontraremos (sim) a frescura de um beijo daqueles que só pode vir de alguém que nos quer sentir bem. O álbum é um ano completo com 365 dias e quatro estações em, aproximadamente, 40 minutos de bem sentir, prescindindo dos dias da semana, dos meses e até do calendário. Em “Agosto” é precioso o calor das cordas corridas, em “Meu Irmão” somos todos filhos do mesmo ser precioso (que não é religioso, não é moralista), que apenas é natural e que “Mora” cá dentro, no pensamento que nos define seres cheios de razão, mas sem razão aparente. O álbum abrilhanta-se (também) com os pormenores sintetizados que vão preenchendo os espaços vazios, com um maior vazio pormenorizado… Entregam-nos o espaço para delirar nas reflexões mais importantes. “Ouro, Prata e Jasmim” é o último lugar, onde nos acolhe o bucolismo e a simplicidade… A lírica de Martim matou-nos a arrogância. Somos seres mais humildes e a maravilha do mundo é o nudismo psicológico que nos despe de preconceitos e de egos malabaristas, plásticos e frágeis.

Jasmim não pensa a música como um compositor. Pensa-a por imagens, por figuras plenas, estáticas e presas a um movimento perpétuo; a um plano definido e limitado. É na companhia de Violeta Azevedo (flauta transversal e teclas), de Bia Dinis (baixo) e de Humbero (bateria), que este é capaz de provar que a música descritiva é a imagem de uma presença real, mas inexistente… É esta mesma compreensão de Jasmim que defende a visão dos religiosos e dos ateus, mas em realidades diferentes (presas na mesma presença planetária; a de um mundo maior). Não há como parar, “…enquanto houver algo para dar…”.

Lécio Dias