A forma camaleónica como Filipe Sambado se apresenta volta a surpreender. A sua ainda curta carreira mostra um artista capaz de se transformar e mostrar novos caminhos para a sua música. “Revezo” é o terceiro álbum e chega num momento de afirmação para o músico e também numa altura em que se vai apresentar no Festival da Canção com uma das canções deste álbum, “Gerbera Amarela do Sul”. O discurso provocativo e um visual que não obedece às convenções impostas mantêm-se neste novo trabalho, mas as influências que usa são outras e respeitam o legado de artistas consagrados na história da música portuguesa.

Filipe Sambado é um músico que se encaixa em vários géneros e não é fácil definir qual a sua matriz musical. Se formos ouvir os seus primeiros trabalhos havia um lado lo-fi, intencional, que podia abrir portas para outros universos. No seu segundo álbum, “Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo”, começa entrar para um território indie-pop, que mostra a capacidade de criar músicas orelhudas, bem construídas e com muito sumo.

Nesta nova fase procura as influências do passado e da música de intervenção. Artistas como Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco ou Vitorino são referências que se encaixam nestes novos temas. Toda a música de intervenção paira sobre este álbum, não como algo que foi copiado, mas como uma influência que evolui para os tempos de hoje com outras roupagens. Esta forma de abordar a música tem ganho outro peso com artistas como Conan Osíris (fado) ou Rosalía (flamenco) em Espanha. Mas Sambado além do mais tem uma linguagem e uma voz muito próprias, que dão personalidade às músicas apresentadas.

O álbum abre com três temas, “Tusa Mole”, “Jóia Rotina” e “É Tão Bom”, onde são abordados as vivências do dia-a-dia e como isso nos pode desafiar e inquietar. É de certa maneira abordada uma intimidade, um lado pessoal de um casal, mas de forma lúdica e sem complexos.

Sambado é um artista que olha para o mundo atual sem preconceitos e deseja quebrar os estigmas da sociedade. Seja quando se veste de mulher no video clip de “Jóia Rotina” ou quando aborda o seu lugar privilegiado em “Imagina”. O artista mete sempre o dedo na ferida. Aborda as questões com uma seriedade e frontalidade fazendo questionar quem ouve os seus versos.

O músico de Lisboa não se deixa levar por modas e trejeitos dos tempos, quem segue Sambado sabe que este tem feito um percurso coerente. As transformações pelas quais passa a sua música são estéticas, mas também pensadas para que a sua música possa evoluir, ganhe mais corpo e seja mais relevante. “Revezo” mostra maturidade para encarar novos palcos e encarar um mundo que ainda o vai questionar. Sambado dá respostas e não tem medo de se afirmar.

Nota (8.5/10)

Rodrigo Toledo