É segunda-feira e, na companhia de um casaco sujo, fico-me pela companhia assídua de uma ampla constelação melódica. Abraço-me ao som de Mal Passado, enquanto batem as celebrações carnavalescas no âmbito citadino. Fico-me por casa, na companhia do Gil Amado, do José Penacho, do Diogo Vargas e do Diogo Marques; talvez notoriamente conhecidos como Marvel Lima (para os olhos conceptuais dos presados leitores!).

Aquando de um mancar de dormência espiritual, estas quatro boas almas decidiram unir-se à principesca causa de negar a crítica, plastificando-a nas gananciosas maravilhas da sociedade consumista, entorpecida e amavelmente possessiva. Daí se responder à miraculosa contextualização; à aprazível macacada sinfónica, sorrateira e sorridente (a graciosa simpatia) e a milenar sonoridade que nos tranquiliza as quezílias.

Isto aconteceu-me na primeira reação; naquela smooth af (nos termos populares) guitarra que me maravilhou o whisky. Já não sabia o que esperar, quando me atacam os violinos, o silêncio místico e o rufar daquele baixo mirabolante e convencido. Entram os vocais e “Tanto Me Fez” querer escutar mais, que larguei o telemóvel no canto! A simbiose entre a luz fraca e “Amistad” tirou-me a vontade de sair, a dormência ainda me mata o juízo, mas não largo a atenção. Não se descola a migalha de crença entre a utópica modernidade sonora e a doçura do mais emblemático jazzista das ruas de New Orleans; e que orgulho sentiria o mesmo, ao ouvir a suavidade com que os Marvel Lima agarram os seus chops (habilidades), destilando-os na qualidade do groove intemporal com que nos amam. Sente-se sempre um pouco de amor (ao longo do álbum) e, se bem me parece, é em “Viagens” que acertamos a consciência e reconhecemos o essencial; qual amor maior que o amor próprio? A sensibilidade dos Marvel Lima decifra-nos o enigma; afinal o Paraíso não está no Inferno dos outros, mas sim no nosso próprio Inferno! Talvez seja esta a crítica mais realista ao longo da obra, até porque se encontra a notória intenção entre a crítica à plasticidade social, ao stress e ao preconceito, e a sobriedade do nosso próprio reconhecimento e tranquilidade.  Essa busca pela “Perfection” que nos atormenta as certezas, define-se pela necessidade de sentir (mais emoção), por prevenção, e alimenta-se a ruindade e o ódio. O que nos pertence? Além do baixo sonante, da ondulação categórica dos sintetizadores e da magia da nossa simplicidade lírica? Ficamos (endiabrados) a responder sem nexo a uma vontade inimaginável de pertencer à liquidificação estranha deste álbum; mas “Tass Bem”.

A “Prata” da casa grita-nos que os Marvel Lima ainda o são (na sua mais tradicional vertente) uma banda cheia de frescura e de cintilância e, “Mal Passado” tirou-me do sério. O melhor do seu rock (adormecido) pela força de um ataque impiedoso de sintetizadores. Acordei. O telemóvel ainda está no canto da mesa, o álbum está a acabar e não sei. Talvez repetir-me e compreender-me na sombra mais caótica de mim mesmo, na diagonal emotiva entre o fim e o início. “A realidade é demais para mim…” e desinstalo as redes sociais, desligo o telemóvel. Volto a encher o copo. “Fazer Por Querer” é algo sempre tão prazeroso. Fiz por que quis… e deixei-me ser feito (sem saber) pela obra cicatrizante dos Marvel Lima.

6,8/10

Lécio Dias