Depois de algum tempo sem estar envolvido no mundo da música Pedro de Tróia regressa com o seu primeiro trabalho a solo. O jovem músico deu-se a conhecer através d’Os Capitães da Areia e com estes lançou dois álbuns pela editora Amor Fúria. No dia 6 de março edita o álbum “Depois Logo Se Vê” e no dia 13 apresenta-se no Musicbox em Lisboa. Mais do que um regresso, para Tróia este vai ser um momento libertar fantasmas e expressar todas as suas ânsias. A Punch Magazine falou com o cantor sobre este disco e outros dilemas envoltos na produção deste novo trabalho.

Porque é decidiste fazer este álbum a solo?

Precisava de encontrar uma terapia. Podia ser escrever um livro, iniciar um tratamento… A dada altura, o Pedro Valente da Azáfama, com quem eu andava a conversar com regularidade, disse-me “Não te queixes mais, pega numa viola, faz canções e manda isso cá para fora. Eu ajudo-te e as coisas acontecem”. Foi assim. Quase de urgência. Os motivos foram emocionais, basicamente. Tinha de me descodificar. Sentia-me muito distante de mim e era vital ter existência artística. Quando de repente comecei à procura do que queria registar, isso gerou um confronto. Quem é que eu sou? Foi duro perceber que havia coisas essenciais sobre mim que eu ainda não sabia. E passas isso para um papel. Cospes para uma folha. E assim surge a canção. Tens um baque. Foi terapêutico. Este disco existe porque eu precisava de me compreender.

E como é que esta fase se distingue do que fizeste com os Capitães da Areia?

De muitas maneiras. O álbum “A Viagem dos Capitães da Areia a Bordo Apolo 70” foi gravado entre 2012 e 2014. Este disco (“Depois Logo Se vê”) foi gravado em 2019. Não fiz por me tornar noutra pessoa, mas já não sou quem era há cinco anos. Nos Capitães da Areia o que fazia era para a banda. Aqui é o meu disco. O Tiago Brito (membro d’Os Capitães da Areia) esteve envolvido nas canções, concebeu os arranjos e produziu este disco. Por isso é claro que há pontos de contacto. As referências não são as mesmas, mas o motor d’Os Capitães da Areia (Pedro e Tiago) está aqui. Arrisco dizer que quem ouvir este disco vai distanciá-lo pelo cariz pessoal. Eu a falar de mim, do princípio até ao fim. Uma urgência não intencional. N’Os Capitães da Areia a questão era outra. Havia conceitos e muitos gozos nossos. Tínhamos ideias, desafios… queríamos fazer coisas. Tínhamos intenções. Definíamos metas e caminhávamos até lá. Aqui foi um processo mais natural.

De onde vêm as tuas inspirações literárias para escrever as tuas letras?

Não sei. Escrevia as coisas no momento e deixava ficar assim. À medida que comecei a selecionar as músicas que iam constar no disco, sempre tive presente que não me podia esquecer de rever as letras. Tinha de lhes dar um jeitinho, para ficarem bonitas. Depois começámos a trabalhar os instrumentais e fui deixando essa revisão para o fim. Lembro-me perfeitamente da manhã em que tinha ido imprimir as letras para o primeiro dia de gravação das vozes e telefonei ao Bernardo Barata aflito “Desculpa o atraso, estou a tentar reescrever as letras!”, ao que responde prontamente “Caga nisso! Não toques nas letras. Não mexas nisso!” Esse momento foi decisivo. Arrepender-me-ia se tivesse rescrito as letras. Ficaram por trabalhar mas são fiéis. Quando oiço qualquer música do disco, sei exatamente onde estava, como estava e o que sentia no momento em que a escrevi. Isso é valioso.

Sentes que fazer este álbum foi uma montanha-russa de emoções?

Sim. Sobretudo porque não sabia o que fazer à minha vida. Hoje sei que quero isto. Fazer música… mas tenho de arrumar a vida. Vivi demasiado tempo num caldeirão de desnorte. Se não te entendes, como é que podes saber aquilo a que queres soar? Nos primeiros tempos dos Capitães (da Areia) vestia máscaras para conseguir existir musicalmente… para estar em cima de um palco. Mas já não vejo em mim um personagem ou construção. Vejo sim uma continuação. Um prolongamento. Umas vezes extensão, outras vezes redução. Mas há sempre o cordão umbilical. Depois de algumas experiências que podiam ter dado bons frutos mas que estavam a andar a um ritmo muito lento… sobretudo tendo em conta a ansiedade que eu estava a viver naquela fase… foi o Tiago Brito que me telefonou um dia e disse “Confia em mim. Vou ajudar-te a definir a direção de cada uma das músicas.” A verdade é que eu andava impaciente e não conseguia esperar mais tempo. Cada dia que passava sem ver avanços era um tormento. Queria fazer as coisas bem feitas mas tinha um conflito interior a atormentar-me. Já não dava para me adiar mais. E o Tiago (Brito) conhece-me muito bem. Conhece o meu alcance. Os pontos fortes e os fracos. Num curto espaço de tempo, conseguiu ter uma leitura excecional de cada música e dar-lhe o gosto que a minha emoção pedia. Sem que eu soubesse.

A relação com a cidade de Lisboa também influenciou este trabalho…

Sim. Os últimos 12 anos da minha vida foram em Lisboa. Quase metade. Foi em Lisboa que se passou tudo de muito bom e tudo de muito mau. As coisas más parece que te marcam mais do que as coisas boas. Não sei se é o sítio onde quero passar o resto da vida. Dificilmente. Lisboa oferece as oportunidades que procuro enquanto artista, mas também oferece muita coisa que prefiro ignorar.

A música continua a ser aquilo que te dá mais prazer fazer?

Há poucas coisas que me dão verdadeiro prazer na vida. Uma delas é a música. Sou inteiro em cima do palco. Os únicos dois sítios onde sou transparente é em casa e em cima de um palco. Ali tens a sensação de poder desfrutar de uma liberdade plena.

O que é que uma boa música pop precisa de ter para resultar?

As músicas de que mais gosto têm uma base simples. Vou-te dar um exemplo de uma música que considero super eficaz aos meus ouvidos e que é de um artista que não anda para aí a fazer música a metro. O Samuel Úria. A música chama-se “Carga de Ombro”. Quando ouvi pela primeira vez estava no Teatro São Luiz e fiquei com os olhos totalmente embaciados. Quem me dera ter feito aquela canção.

É mais fácil falar dos teus problemas através da música?

Não. Não tenho facilidade alguma em falar sobre mim.

Então porque é que a melancolia e a solidão são temas que te interessam explorar?

Não me interessam explorar. A solidão é coisa que dispenso e a melancolia dispensava sentir. Por vezes queres avançar mas a melancolia acompanha-te, como se fosse uma bola de ferro acorrentada ao tornozelo. Estou sempre num mundo muito meu e isso tem-me atrasado. Reencontro-me estando sozinho, mas a solidão não faz bem a ninguém.

O que é mais difícil para ti no processo de fazer música?

É ter alguma coisa para dizer. Quando faço músicas para outras pessoas, posso inventar uma história. Tranquilo com isso. Mas quando decidi que ia fazer este disco, a primeira decisão foi o título (“Depois Logo Se Vê”), mas outra coisa que ficou assente foi que o que constasse no disco tinha de ser real. E tu podes escrever e cantar à tua maneira, mas não tens verdades para contar a torto e a direito. Não tens sempre alguma coisa para dizer sobre ti. Não faço música para as pessoas gostarem. Claro que se gostarem é incrível e fico muito feliz. Claro que sim. Isso pode-me dar notoriedade e concertos. Mas eu faço música por mim. Para mim. Faço música para me fazer bem.

Como é que vês o panorama atual da música portuguesa?

Saudável. A oferta é superior à procura. Quase toda a gente que conheço faz música. Até o filho da senhora do quiosque já faz música. Há dois anos era um mini puto. Hoje em dia é mais intuitivo para alguns jovens fazer música com um computador do que com uma guitarra. Eu não passo do Audacity. Acho impecável que façam música com tudo e que façam toda a que quiserem fazer. Mas é difícil que reparem em ti… e parece-me mais difícil teres datas (para concertos). Os músicos multiplicam-se mas os auditórios não.

A nível criativo gostarias fazer outras coisas para além da música?

Sim… Hei de escrever um livro em breve. Sonho um dia apresentar um talk show em horário nobre num canal generalista. Gostava de escrever um argumento para cinema. Tenciono criar um festival… Escrever scripts para videoclipes. Ter ideias simples que resolvam problemas às pessoas. Quero muito desenhar uma casa… a minha casa… e que um dia a música me permita construí-la e viver lá. (sorriso)

Os Capitães da Areia ainda podem voltar?

Podem. Ou não. Não sei. Não é que seja preciso muito… É preciso que faça sentido. E o sentido pode ou não surgir. Não é coisa que nos tire o sono. Se vier a fazer sentido, óptimo. Cá estarei.

 

Rodrigo Toledo