A noite era de Festival da Canção, o concurso que desde 1964 escolhe o representante nacional para participar no Festival da Eurovisão. Basta olhar para o rol dos vencedores para encontrar alguns dos clássicos do nacional-cançonetismo. “Ele e Ela” da Madalena Iglésias, “Playback” de Carlos Paião, “A cidade (até ser dia)” da Anabela, só para nomear alguns. São canções que fazem parte do nosso imaginário colectivo como país, representam Portugal. Este foi o mote para o concerto de Capitão Fausto com a Orquestra das Beiras no Campo Pequeno. De certa maneira, o que aconteceu foi um festival da canção da banda nacional mais importante de uma geração. A minha geração e um romance sem fim por esta banda.

Foi um concerto para amigos, de amizade e cumplicidade, afinal a banda andou a fazer circular estas mesmas canções pelo país quase todo nos meses anteriores, e para Lisboa, a cidade natal da banda, prepararam um momento especial com a presença da Orquestra das Beiras, uma orquestra filarmónica composta por quase cinco dezenas de músicos e dirigida por Martim Sousa Tavares, mais um amigo da banda.

O concerto, disse a banda, era pensado para fãs e foi o mais ambicioso de sempre. O início de concerto em modo aquecimento, como no momento em que a orquestra começa a afinar os instrumentos e se prepara para tocar, a banda iniciou “Lentamente” fazendo-nos as vontades, mas já com muito “Corazón”. Foi nessa altura que se percebeu logo que o som da sala não ia ajudar ao romance entre nós, a banda e a orquestra. Talvez seja por feitio próprio do espaço, afinal é uma casa pensada para receber espectáculos tauromáquicos em que os materiais não foram pensados para a acústica. No entanto estamos todos entre amigos e fãs e ninguém se importou muito com isso, havia aquele nervosismo próprio dos momentos e ocasiões especiais e o entusiasmo era evidente na cara dos presentes. Cerveja, dois bons dedos de conversa, alguns empurrões e boas canções. “Sempre Bem” porque não se tratam os amigos com “Maneiras Más”.

À medida que o concerto continuava, começou a perceber-se que nem sempre a orquestra tocava com os Capitão Fausto. O espectáculo tinha sido pensado para aumentar e amplificar os temas da banda, mais do que a orquestra se fazer muito presente a nível sonoro, mais à frente deu-nos um ar da sua graça. Mas já lá vamos. De “Certeza”. Aliás, o concerto começou a ganhar contornos muito felizes, “Amor, a Nossa Vida” e “Outro Lado”, são canções assim que nos fazem viver, amar e chorar quando pensamos em todas as relações amorosas que nem sempre correm como gostaríamos e chegam ao fim. Há espaço para solos de bateria e para confissões do vocalista e para dar atenção àquela doçura das três vozes femininas que por vezes acompanham os concertos da banda. “Amanhã Tou Melhor”, apesar de por vezes se morrer na praia, mas tenho amigos com “Boa Memória”, que não me deixam nunca esquecer. Assim acabou a primeira parte do concerto. Até ali óptimo ainda assim, muito terno e alegre.

A banda sai, a orquestra fica. Logo se percebeu que o concerto ia continuar. “Tem de Ser”. Então vamos lá em frente, celebrem-se batalhas épicas e a “Teresa”. É “Verdade”. São momentos para a Orquestra das Beiras finalmente brilhar, aquela entrada para “Alvalade Chama por Mim” vai ficar mesmo guardada na minha memória, eterna memória. Um instrumental digno dos filmes do James Bond, aquela cena clássica com a rapariga apaixonada, emoção e romance, um par que dança, se abraça e se beija. Foi especial. Nós todos, os amigos, os amantes, os fãs e eles, a banda e a sua orquestra. Nesse momento também o vocalista, o seu nome é Tomás, agradeceu a todos os que foram importantes para aquela noite única acontecer, mas não só, um agradecimento também a toda a estrutura que permite que esta banda exista e aconteça em Portugal nos tempos actuais, desde o manager ao agente, desde o técnico de som ao fã e ao amigo. Estamos todos incluídos naquele papiro e todos cedemos a nossa imagem naquela noite, o concerto estava a ser filmado como se fosse mesmo um festival da canção. Foi mesmo.

Chega assim ao “Final” esta noite ao som do sol que volta sempre a aparecer, todos nós abraçados e emocionados. Um romance assim é demasiado fiel para desaparecer. Mas tudo o que é bom tem de chegar ao fim. Obrigado, amigos, Tomás, Domingos, Manuel, Salvador e Francisco. Vocês são, neste momento, representantes maiores da canção nacional. Um abraço deste vosso amigo e fã que vos adora. Venham de lá esses ossos. Bravo!

Emanuel de Andrade