No seu primeiro disco a solo, o vocalista d’Os Capitães da Areia apresenta-se despido e cru, com canções onde privilegia melodias que ficam no ouvido. Um conjunto de canções que confirma definitivamente o cantor-autor como um dos maiores talentos em bruto do nosso país. É preciso contextualizar esta afirmação. Este rapaz franzino e aparentemente tímido fronteou a banda Os Capitães da Areia, um sonho pop imaginado, com dois discos inteiros que fazem parte da melhor colheita dos anos 10 deste século. Esta alternativa pop cantada em português derivou através da sua imaginação numa editora, numa produtora, nalgumas bandas que apoiou e outras tantas canções onde colaborou nos últimos anos. Não é, por isso, uma estreia virgem ou sem experiência, aquela que Pedro de Tróia empreende neste “Depois Logo Se Vê”.

Neste álbum de dez canções o artista, agora sozinho, apresenta-nos aquelas bolas de sabão (POP) tão apreciadas por quem gosta de trautear e dançar, o chamado single. E há aqui muitos e bons: “Nunca Falo Demais” e o seu arpejo, “Salvadora” e o seu baixo gingão, “Óculos de Sol” e os seus riffs açucarados, estes três logo no início do disco, ou “Dente de Leão” e a sua subida de tom, já lá para o meio. Há várias pistas para entender esta alma sonhadora que se apresenta aqui, como quando se ouve “imagina que morremos depois deste take”, tão capaz de criar aquela canção orelhuda, melódica, de refrão fácil e revelar também uma certa tendência para a auto-análise e auto-confissão exageradas.

A produção do disco, a cargo de Tiago Brito, o guitarrista da banda de Pedro de Tróia, agora votada a uma hibernação por tempo indefinido, é sólida e equilibrada com aquela mistura de ritmos de bateria, guitarra baixo, guitarra ritmo, sintetizadores, coros e voz solo, excepto na “Rés do Chão”, cantada apenas com recurso à guitarra acústica, o momento mais introspectivo do disco. Talvez essa possa ser a maior crítica às canções, uma tendência vertiginosa para o som nostálgico e aquelas melodias típicas da pop dos anos oitenta do século passado, que marcou o apogeu de uma certa forma de fazer canções cantadas em português. Mas essa também é a sua força, a capacidade de o fazer agora, quando estamos praticamente na terceira década deste século.

Não deixa de ser bom ouvir a maior parte destas canções hoje, aqui e agora. Quanto ao uso do vernáculo na “Passos Lentos”, é a demonstração da frustração do autor quando canta em relação a uma certa falta de reconhecimento, de ter feito já tanto e ainda não ter o retorno desejado.

O disco termina em tom confessional com “Dias Claros”, uma canção com recurso à palavra falada para descrever a sua vinda para a cidade, as suas dificuldades e os seus anseios, pedindo encarecidamente dias mais solarengos e felizes. É bastante provável que esses dias possam estar mesmo aí ao virar da esquina e este disco é a prova de quem acredita em si próprio e consegue escrever, cantar e produzir canções assim. E Pedro de Tróia terá por fim a sua recompensa. Para ser um álbum pop perfeito só lhe faltará alguma coesão e unidade como um todo. Essas, certamente, chegarão num futuro muito breve.

 

Nota: 7.4/10

Emanuel de Andrade