A pista de dança por vezes não é habitada só por ritmos acelerados e beats histriónicos. Há espaço a cumplicidade e uma partilha mais pessoal. Killian mostra-se pela primeira vez com o EP “Flawed Ego”. O caminho que fez até foi moroso e muito trabalhado. Ao longo dos últimos dois anos foi lançando singles dispersos, que agora finalmente se conjugam neste EP de estreia. A Troublemaker Records tem o seu selo neste trabalho e tem promovido músicos e produtores que se têm destacado no circuito underground e queer. Odete ou NESS são exemplos da qualidade desta editora com um estilo próprio e uma identidade vincada. Killian é mais uma abordagem, mas muito rica e com uma combinação de diferentes géneros.

Todo este EP centra-se à volta da voz de Killian. É uma voz doce e suave, mas ao mesmo tempo com mágoa e sentimento. Nas seis canções apresentadas tudo gira à volta da personagem do cantor. Percebemos que é uma pessoa que é reservada e não se abre ao mundo de forma natural. O próprio explica isso num dos textos de promoção deste EP. “Sempre gostei muito de psicologia, estudar sobre o ser humano, as suas razões de ser e aproveitei esse interesse para o aplicar na minha música. Este projeto é um exame de consciência a mim próprio; nele exploro o que me motiva (“Let Me In”), o que me leva a tomar certas atitudes (“CARE”), o que desejo (“Ride”), o que me aborrece (“Uninspired”).”

O artista com raízes africanas explora diferentes géneros nas suas músicas. O R&B e a Dance Music dois mundos que cruzam e nos mostram vivências diferentes na pista de dança. É aqui Killian se consegue destacar, não só faz com rimos dançáveis, mas dá-nos um lado mais intimista e confessional. Os territórios aqui desbravados vão ao encontro de artistas como Frank Ocean, Sampha ou Kamaal Williams. A voz do artista é segura, mas mostra uma fragilidade no universo que canta. Abrindo assim espaço para o seu íntimo.

O que ouvimos ao longo deste EP são batidas simples e canções pessoais. Mas a produção cuidada, leva-nos a pensar que este trabalho é como se Killian quisesse partilhar connosco as suas angústias e a sua vida. Por vezes não há nada mais importante do que ser um bom ouvinte, estar atento ao que o outro diz e criar uma relação empática. A música de Killian cria essa relação. Uma relação de bem-estar. Que nos leva para o seu mundo.

Rodrigo Toledo

Nota: 8.5/10