Quando alguém está disposto a iniciar uma conversa também está aberto a ouvir e a ter uma outra visão. Teresa de Sousa conhecida no meio musical como Da Chick quis estabelecer uma nova conversa com mundos que desconhecia e com outras sonoridades. O seu segundo álbum chama-se “conversations with the beat” e inicia um novo diálogo.

Este novo trabalho levou-a a desafiar-se a si própria não só em termos musicais, mas também na vertente da produção das suas músicas. Esta procura levou-a para um outro patamar e isso reflete-se no resultado final do disco. Sentimos realmente que Da Chick está a conversar connosco. Isso é a prova que a artista tem algo para dizer e nos seus próprios termos.

Esta conversa nunca poderia ter começado sozinha. A editora da Da Chick, a Discotexas teve um papel desafiador neste processo. Uma das figuras da editora o artista Moullinex soube dar as ferramentas certas para Teresa abrir caminho para esta nova fase. E esta é prova que muitas mulheres têm a capacidade de produzir boa música sem estarem dependentes de um mundo, que ainda é muito dominado por homens. Contudo já vemos que têm sido dados os passos certos para algumas artistas se sentirem mais independentes e mostrarem o que valem.

Este novo álbum é claramente um passo em frente, um processo de exploração que Teresa sentiu que tinha de acontecer. Mas a sua identidade ainda está muito presente neste “conversations with the beat”. Há dois traços que se mantêm e que vêm de trás.

Primeiro a influência da cultura norte-americana, da música negra e das grandes metrópoles. Todo esse imaginário continua vivo e faz parte da música que Da Chick. Sobretudo porque é mundo onde há muito para explorar e há boas referências. Desde do hip-hop até à soul, passando pelo funk sentimos sempre um tempero destes géneros nas suas canções.

A segunda característica está relacionada com a forma como Da Chick escreve as suas canções, usando sempre chavões e versos com power. Se isso já se notava em trabalhos anteriores nesta nova fase mantém-se. Nas músicas “do your thang” e “sente” é através de pequenos versos que as canções têm uma certa cadência e vão ganhando uma identidade própria. Esta é uma forma de afirmação e marcar uma posição. Aliás numa das peças de merchandising que acompanha este álbum há uma t-shirt com a seguinte inscrição, “you gotta do your thang”.

Se há algo que ganha preponderância para artista de Lisboa é o beat e isso transforma este trabalho em algo verdadeiramente original. Podemos afirmar que é uma espécie de beat tape híbrida, pois há uma parte vocal que também tem o seu peso. Há uma influência dos ritmos do hip-hop dos anos 90, onde a génese deste género vivia muito das mixtapes/beat tapes, que existiam num circuito underground. Essa sonoridade misturada com a electrónica dá o rasgo que Da Chick procura. “377” e “watch me go” são canções que mostram isso mesmo. Mas há também uma conjugação em certas canções com um jazz mais rítmico e mostra como soube procurar a sonoridade ideal.

Há momentos que percebemos ouvindo um saxofone, um beat mais clean e pela própria postura da artista, que é revelado um lado mais sexy e mais maduro. Este álbum também é uma maneira de dizer que há um crescimento que foi atingido não só a nível artístico, mas também a nível pessoal. Se pensarmos que entre o álbum de estreia e este segundo momento passaram cinco anos, então há definitivamente um amadurecimento global.

A evolução de um artista também se faz em saber desafiar-se. Da Chick talvez não soubesse que resultado poderia vir desta sua procura por uma independência artística e de uma afirmação do seu estilo. Mas o facto é que teve coragem e cresceu com isso. “conversations with the beat” não são só canções soltas e experiências. É um trabalho com foco e que mostra uma artista com vontade de dar algo mais à sua música.

Nota: 8.0/10

Rodrigo Toledo