“Todo o grande rei confessa que o seu reino nada seria sem o reinado dos outros.”

António Alves é a encarnação reinante do espírito de King John. Natural da Ilha de São Miguel, prova ser senhor e mestre de todos os ouvintes que lhe façam primeira vénia.

É em 2020 que estreia o seu primeiro longa duração, All the Good Men that Did Ever Exist; uma obra fantasmagórica, pelo seu espiritualismo envolvente e pela crença graciosa no bem maior de todo o ser humano. O mesmo álbum retrata a graciosidade de todos os que alguma vez existiram e que, felizmente, por humildade maior que o seu ego, demonstraram ser capazes de contribuir para o bem dos outros, sem lhes impor certezas e razões. Uma sóbria aspiração de desejos altruístas. Se bem nos parece, esta obra humanista é nação artística de um grande rei.

Interlude for Humanity” acolhe-nos à chegada deste reino maravilhoso, onde reina o Blues e o Hard Rock da velha escola. Uma entrada misterioso, carregada de simplicidade e amplitude. Um crescendo emotivo que rebenta numa suspense tenebroso entre teclados, guitarra e o smooth toque da bateria; um piano aguarda-nos na sala das visitas. Inicia-se a jornada. “Go to France”, dinâmica e animada, ordena-nos o bater do pé e a cantarolar. A franqueza com a qual somos confrontados conduz-nos a uma coerente vontade de viver e de ser vivido/a. Em “Walk It Off” abraçamos o blues de um escravo contemporâneo, que larga os seus problemas com uma atitude marcada pela linha de baixo movida a confiança. Se amor próprio é importante, “Don’t Love Me, Love Yourself” será o hino à auto-estima; uma bonita balada, capaz de defender que será necessário que nos amemos, para que os outros sejam capazes de amar-nos. Quanto mais se adensa a descoberta deste palácio onírico, mais nos entregamos à simpatia e compreensão de King John; desde a apreensiva e rotineira figura citadina presente em “Island Naive”, passando a maravilhosa modesta assombração existencialista de “Whimsical”, até à incerteza sonhadora de “Am I Cool Enough?”; ponto no qual nos rivaliza a ideia entre a desconfiança inerente à nossa vontade e a certeza de que o nosso trono nos aguarda, prontamente.

O mundo é um lugar repleto de ansiedade, descrença e mentira; apesar disso, é também o tabuleiro de um jogo maravilhoso entre o equilíbrio dos existentes e dos que já não o são (além das memórias), tal como em “All the Good Men That Did Ever Exist”, o mundo é envenenado pelos egos, mas subsiste pela simplicidade dos que procuram o extermínio … da avareza e da miséria humana. O importante é encontrar o caminho certo e, no fim de contas, se nada for nosso por dever, que nos sobre um lar por direito e uma dança de sorrisos e bondade, diz-nos “Short Dance, a True Story”.

A dança da vida anima-nos a simplicidade de existir e, na verdade, o único rei/rainha deste nosso pequeno ser, somos nós próprios.

Nota: 7.2/10

Lécio Dias