Phoebe Bridgers – Punisher

Ao segundo disco a cantora-autora Phoebe Bridgers lançou um clássico instantâneo de canções folk-emocionais, tão bem esculpidas como escritas. Um compêndio de temas que a tornará o segredo mais difícil de esconder para a comunidade mundial indie, que já a tinha colocado num pedestal desde o primeiro disco, da colaboração com Conor Oberst em Better Oblivion Community Center e do meio disco com Julien Baker e Lucy Dacus com boygenius.

Waxahatchee – Saint Cloud

Antes de gravar o seu quarto longa duração, Katie Crutchfield aka Waxahatchee, decidiu viver um período mais sóbrio. Os resultados estão à vista, “Saint Cloud” é coeso e sobressai porque vai beber ao cânone das grandes canções americanas e à escola indie rock, às quais Katie acrescenta a sua escrita vívida e super descritiva. Um disco feito de cinzas após o fogo apagar ou de lilases acabados de nascer na Primavera.

Bad Bunny – YHLQMDLG

Bad Bunny = 2020. Não há como escapar a uma das figuras do ano e Benito Ocasio é essa figura. Paulatinamente a conquistar o mundo da música urbana com o trap latino/reggaeton que não serve apenas para colocar as pistas de baile a dançar mas também para passar a sua mensagem. “YHLQMDLG” é o primeiro de dois discos lançados no primeiro semestre do ano e é óptimo, agarra-nos pela anca, pelos pés e parte o nosso coração.

Tame Impala – The Slow Rush

Sim, Kevin Parker conseguiu outra vez. O conceito de acalmar para acelerar, algo impossível neste tempo, um paradoxo, tal como as suas canções feitas de doces melodias, baixos cada vez mais marcados e batidas cada vez mais dançantes. Um disco que nunca será muito bem compreendido por quem esperava um regresso ao psicadelismo do início de carreira. E no entanto o disco escorrega tão bem como uma Piña colada nos trópicos.

Yves Tumor – Heaven to a Tortured Mind

O primeiro single do novo disco de Yves Tumor chama-se “Gospel for a New Century” e nele o próprio apresenta-se mais pop e mais directo que nunca. Apesar disto ser também indie rock à TV on the Radio. Quem está à procura de talento pode estacionar neste disco, ouvi-lo bem, para depois começar a andar para trás e descobrir tudo o que veio antes. Será que é agora que finalmente Yves Tumor atinge o estrelato merecido? Esperemos que sim.

Dua Lipa – Future Nostalgia

Nostalgia futura é uma ideia muito própria dos tempos que vivemos e quem mais senão Dua Lipa para a assumir, uma estrela pop deste tempo mas com toda a história dentro dela. Se o primeiro disco gerou nove singles, este segundo poderia ter onze, todas as faixas do disco. São hits atrás de hits, anos oitenta, pista de dança, bola de espelhos, tudo isto agora quando não há nem uma discoteca aberta.

Charli XCX – how i’m feeling now

“how i’m feeling now” é pop caseira feita em casa mas com muitos recursos. Charli XCX decidiu fazer um processo colaborativo de seis semanas com os seus fãs durante a quarentena e o resultado é um disco de pop experimental voltado para o futuro. Canções pop noise com baixo e batida bem marcados e a voz encharcada de autotune. Tal como um amor adolescente é um disco viciante e apaixonado e ficará para sempre colado a este tempo.

Arca – Kick i

Arca é definitivamente uma das personagens mais importantes da música popular neste momento. “Kick i” é essa prova. É o disco mais “fácil” da autora e nem por isso é mais imediato. Não é um disco que conquista logo tão facilmente como outros mais pop. Aos poucos as canções vão ficando connosco, é quase sempre assim quando se cria algo tão novo. Oiçam “Mequetrefe”, por exemplo, uma espécie de reggaeton que podia ser de Aphex Twin.

Soccer Mommy – color theory

Soccer Mommy é Sophie Allison e faz canções indie rock de primeira classe. Ao segundo disco o rock torna-se mais calmo e há uma aproximação clara a uma pop sonhadora, apesar da escrita continuar soturna. É essa mistura que torna as suas canções tão especiais, por serem assim tão agridoces e ao mesmo tempo cheias de cores. Não é ao acaso o nome do álbum. É bom que ainda haja alguns segredos mais ou menos guardados no indie.

The Strokes – The New Abnormal

Há algo impossível de negar: o título do novo disco dos americanos é o mais acertado do ano. As canções seguem o mesmo caminho. As mais acertadas que temos memória em longos anos. Produzido pelo guru Rick Rubin, tem aquele som bem despido e separado com cada um dos elementos bem definido, com destaque para os teclados e para o tratamento de voz de Julian Casablancas. Melodias e letras que ficam connosco num tempo completamente atípico.

Emanuel de Andrade