O regresso de B Fachada após seis anos de interregno, se descontarmos a excelente reinterpretação de “Viola Braguesa”, dá-se com o disco “Rapazes e Raposas”, um disco salvífico, provavelmente o mais completo dele, não por ser o mais longo mas também. Lançado em exclusivo e sem pré-aviso no bandcamp do artista, atente-se em primeiro lugar na fotografia da capa antes de o escutar: cenário bucólico de uma represa, flores à sua beira, nuvens ao longe e três rapazes em tronco nu em fraternidades. Catorze canções e um instrumental de contemplação sociológica e natural? Sim, mas não só. Estamos perante uma possível visão de Fachada perante a Arcádia, província da antiga Grécia, convertida em imaginário de poetas sobretudo do Renascimento e Romantismo.

Esse local romântico onde a felicidade imperava não é no entanto compatível com a visão profética do artista B Fachada, mais habituado a uma observação acutilante e precisa da sociedade e do modo como as pessoas se relacionam umas com as outras. A sua obra até aqui é reflexo disso mesmo, prolífica obra, feita de muitos e variados álbuns, constituídos por muitas canções e que são considerados revolucionários à sua maneira para o novo cancioneiro popular do início deste século, o primeiro de um novo milénio. “Rapazes e Raposas” será então uma consolidação da matéria dada anteriormente, mas aperfeiçoada com a passagem do tempo. Estamos a falar de seis anos de maturação e tal como o vinho que envelhece na pipa, também estas canções se tornaram vintage, como os vinhos reserva.

Existe então uma condensação do modo de fazer canções por parte de Fachada, escute-se “Mudar de Método”, canção encerramento de um disco maior, “eu não sou daqui/venho a passar/para a matiné/não vou ficar”, viola braguesa em punho e aquelas batidas e teclados sintetizados, agora com a ajuda preciosa do modular ADDAC, que suaviza reforçando todas as melodias ricas que nos arrepiam. Ou a “Anti-Fado”, canção epitáfio de Fachada, um olhar acerca dele próprio e da sua obra, onde se escutam pífaros modulares sobre um ritmo marcadamente popular, “eloquência para quê/o pessimismo nunca foi tão démodé”. E ainda no início do disco a “Canção de Rejeição”, mais uma vez a braguesa em destaque, voz mais aguda, uma canção de exaltação, para nos fazer pensar no que estamos aqui a fazer, “não acabaste nada/não conseguiste nada/não aprendeste nada/e nem fingiste nada” e malhas de teclados a planar.

Por outro lado temos canções mais ritmadas, também uma marca autoral de B Fachada. “Trad-Mosh” é chula contemporânea acerca da paternidade, “quero toda a gente a rir/é nisto é que o papá é boss”. Já a “Padeirinha” é um ornamento ao folclore moderno, canção de aviso e de vigia, referência a Cervantes, ortografia propositadamente errada (pãos) e “o Abade aonde canta, janta”. Mas aquela que é mais decalcada de um tempo que já parece tão longínquo, “Aritmética”, uma interpretação à Fachada do rock popular (róque) de Diabo na Cruz, a banda onde Fachada esteve de forma fugaz mas intensa, “que o Inferno está tão cheio/até o Diabo se mudou”. Seja de forma referencial ou metafísica Fachada não dá ponto sem nó.

Finalmente surgem também canções mais pastorais, dedilhados etéreos, descrições da natureza e dos seus animais. “Natureza Radical”, canção de nomeação de seres vivos dos quais Fachada é arauto: “Quero agradecer a todos os herbívoros/que arriscam diariamente a sua vida” em tom mais afastado e cavernoso. Cantigas mais calmas, como “Mínima Atenção”, amizade, amor e corpos enrodilhados no chão e Fachada a ditar a anatomia do corpo humano e nós a imaginar. Ou o que dizer do fado, de quem se proclama como anti-fado, de “A Mula e a Raposa”, é pensar nos grandes do passado, Marceneiro ou Farinha, a cantar sobre o imaginário fachadês campestre, “Vai dar ao mesmo tanto faz o animal/Depois do mundo o universo fica igual”.

A penúltima canção do disco, “Prognósticos”, é trovoada seca e a imagem da desolação, do fim da humanidade, “E a cada mais 1000 anos que durarmos/hão-de ser 1000 anos de destruição”, um riff de guitarra à braguesa vindo do alternativo americano, a canção em crescendo, o som a aumentar, a tempestade a aproximar-se sem aviso e no fim a repetição das mesmas palavras iniciais. Como quem estivesse a contar os segundos entre o raio e o trovão para saber se a tempestade se aproxima ou se afasta. B Fachada é Doutor honoris causa, oiçam-no.

“Rapazes e Raposas” é B Fachada a chegar à idade da reserva, mas com o sabor do medronho acabado de fazer, é chuva a cair no alpendre enquanto se ouve tocar uma braguesa. É herança de Bocage, Camilo e Antero, com os sons tradicionais do Fausto e do Zeca modernizados. É ensino obrigatório, todos nós, redondilhas musicadas, anti-fado para nos inspirar que ainda há muitos mares por navegar. Ou o ensaio que faltava para o repovoamento do interior do nosso país, das aldeias e florestas que ardem Verão após Verão. Campos que estão por lavrar, florestas que estão por desmatar, obra-prima de catorze canções e um instrumental do ano da graça de 2020. Resta-nos a nós, comuns mortais, admirar o génio e construir essa Arcádia.

Nota: 9.5/10

Emanuel de Andrade