O ano é o ano da pandemia do Covid-19 e ali entre os meses de Março e Maio fomos todos obrigados a ficar em casa, em confinamento. O que fazer durante esse tempo passado a desempenhar tarefas caseiras e domésticas? Terão pensado os músicos do Conjunto Cuca Monga, um colectivo de bandas e de amigos, que inclui elementos de Capitão Fausto, Reis da República, Ganso, Zarco e artistas como Luís Severo, Rapaz Ego, El Salvador, entre outros. Vamos gravar um disco. A ideia terá partido do elemento que lidera de alguma maneira este colectivo e tinha como premissa o envio de trilhas sonoras entre os elementos, às quais se acrescentariam as letras. A regra seria passar ao próximo e não ao mesmo, até que o último a receber sentisse que a canção estaria terminada. Resultou assim num conjunto de dez canções, ou celulares, como engenhosamente lhe chamaram os elementos do projecto. Um disco que é reflexo de um tempo único e provavelmente irrepetível, “Cuca Vida” é também original e provavelmente inimitável.

A canção emblema deste disco talvez seja o primeiro single “Tou na Moda”, saudável ironia millennial acerca do que é ser cool, ou não. “Adoro Arte/E um bom churrasco na piscina/Fui a festas no Op Art/Mas também oiço Elis Regina” canta primeiro o amigo Sala, pop funk ritmado para um Verão pós-confinamento de matinés, por oposição às soirées. São então “Proporções Bíblicas (Absolutamente à Porta)”, um rap quase interminável entre amigos, que jorra dialecto próprio sobre um instrumental de batuques, timbalões e pratos, até porque “Em xarope ou comprimido, Cuca Vida é o remédio” e depois de tudo passar ainda haverá que recolher os ganhos na S.P.A. e direitos na G.D.A. A mistura, ou devemos apropriadamente chamar-lhe mixórdia, de estilos musicais entre os temas é também resultado do processo e criatividade de todos os músicos, cheios de ideias, cheios de palavras e melodias para partilhar com o mundo.

É uma “Travessia”, uma balada cantada por três elementos dos mais carismáticos do conjunto, uma melosa melodia que nos amolece o coração, sopros e assobios ali a pairar, de uma forma tão bela e tão singela. Ou a “Casa Andante”, mais uma canção de ritmo lento, pianada de fim de tarde a ver o pôr-do-sol, pensamento de quarentena, ”Estamos sós/Mas há o som e a imagem/A música e a paisagem/A palavra, a guitarra”. É tudo muito sincero e verdadeiro. Tão verdadeiro e tão democrático que há espaço para devaneios como o que se ouve em “Escudo”, oportunidade para dar voz a quem não costuma ser protagonista, ritmo e melodia de jogo de computador, descrição desse mesmo jogo ao longo do tema. Talvez não fosse preciso chegar a este ponto, mas haja liberdade criativa, acima de tudo o resto. A canção “Liberdade” é o ritmo do Caribe, sopros e guitarradas assumidamente pirosas, reco-reco e palavras em espanhol. É tudo tão assumidamente fora que quando chegamos ao fim e ouvimos a “Amigos”, signos e constelações em forma de canção, lá rá lá lá lás e sopros, latidos e miados a entrar, relacionamentos a serem celebrados e mais uma frase que fica na memória: “a chave da amizade está na comunicação”, é impossível não ficar com um sorriso no olhar.

“Cuca Vida”, trocadilho do nome do vírus que nos colocou todos fechados e a pensar na vida, é como já tinha dito um produto muito próprio deste tempo. Mas é sobretudo um exercício de total liberdade criativa e de aproximação entre os seres humanos que o compuseram, Conjunto Cuca Monga de seu nome. Serve também para relembrar que o fundamental nesta passagem por este mundo é não nos levarmos demasiado a sério, deixar fluir as ideias, conjugar novas formas de aproximação. São essas as principais virtudes destas canções que vão do reggae ao rock, do jazz ao rap, sem nunca perder o fio condutor, um exagero assumidamente forçado, consequência da clausura e de muitas horas de comunicação virtual em grupos de mensagens instantâneas, plataformas de videochamadas em grupo, uma comunidade em streaming a partilhar gostos em comum. Jorremos então felicidade pela mera existência deste objecto virtual, feito de ritmo, palavra e melodias.

Nota: 8,1/10

Emanuel de Andrade