Há um Portugal que continua a precisar de ser descoberto, divulgado e cantado. David Bruno é o nosso guia por uma realidade que ele muito bem conhece. Numa primeira instância com “O Último Tango em Mafamude” introduziu-nos à sua terra natal, Gaia. Uma cidade tão característica que é estranho não tenha surgido há mais tempo um artista a contar suas histórias. E há muitas histórias. Foi isso que aconteceu com o segundo momento da exploração da portugalidade por parte do músico gaiense. “Miramar Confidencial” fala-nos de um caso de polícia, de um burlão e de como certos negócios funcionam em Portugal. Seja a vender um pombo ou grande banco. Agora surge “Raiashopping” e entramos pelo país profundo. No interior de Portugal podemos ver o desdobramento de Gaia, é isso que David Bruno nos quer mostrar e que documenta tão bem.

Este álbum começa com um momento mais erudito, uma declamação de uma poema de Miguel Torga. Mais do que um beatmaker, um sociólogo ou um músico, David Bruno também é um homem de cultura, dos pequenos pormenores e isso vê-se nestes detalhes. Nos interlúdios que costumam estar presentes nos seus álbuns são amostras do conhecimento profundo que tem sobre um universo particular. E esses pormenores das personagens que retrata vai desde ao que comem até ao que vestem. Também a micro fenómenos culturais ou simplesmente frases, tiques e trejeitos de uma comunidade. “Praliné” ou “Flan Chino Mandarim” são canções que falam disso mesmo e nos dão conta desses detalhes bem saborosos. Essa é a riqueza da sua música, que nos leva a descobrir o verdadeiro Portugal.

Mergulhando nesta realidade vamos entrar naquilo que foi a infância e adolescência de David Bruno na zona raiana, de onde os seus avós são naturais, mais propriamente na Freixeda do Torrão. As férias de verão eram passadas aqui, onde também acaba por encontrar uma comunidade emigrante, que tem um perfil marcado, distinto, mas com valor. Aliás David Bruno nunca fala das suas personagens com um tom jocoso, mas sim com respeito e admiração. Os anos 90 aqui ganham mais peso através do tema “Festa da Espuma”, um acontecimento típico da época. Mais do que uma simples festa, há toda uma geração passou por certos rituais e essa é a história que aqui é contada. Onde também as idas a Salamanca são retratadas em “Salamanca by Naite”.

A música propriamente dita, neste novo álbum parece ser mais introspectiva, a própria guitarra que surge em vários momentos dão peso diferente aos beats de Bruno. Se tivesse apontar algo neste trabalho é o facto de por vezes a construção das músicas de David Bruno serem um pouco repetitiva e parecida com o que foi feito anterioemnte. O conteúdo é sempre forte, mas por vezes a própria dinâmica das canções precisa de algo mais. Também se sente a falta de outros interlocutores ou participações, que poderiam ser enriquecedores.

Contudo “Raiashopping” continua ser pertinente e interessante. David Bruno tenta trazer algo diferente, nem que seja na maneira criativa como pensa na versão física dos seus álbuns, que neste caso é um álbum de fotografias Kodak dos anos 90. A primeira edição teve 180 exemplares e esgotou logo. Há um culto à volta de David, não só por falar de realidades específicas, mas por ser sempre verdadeiro. Por vezes é difícil de retratar o nosso país. Mas com uma linguagem muito própria David Bruno, leva-nos a apreciar aquilo que é nosso e as suas histórias. Continuamos a querer ouvir mais histórias e a conhecer a portugalidade.

Nota: 7.5/10

Rodrigo Toledo