Um dos maiores melómanos digitais do nosso país está prestes a lançar um novo EP. Almirante Ramos, um dos fundadores da Amor Fúria, depois de muitas desventuras vai editar em nome próprio, o meio disco “Cinco Canções”. Nos últimos tempos Almirante tem partilhado inúmeras publicações, inspirações e revelado aos poucos algumas das suas ideias. Recentemente publicou uma pequena autobiografia nas suas redes sociais onde divulga que no próximo mês de outubro irá ser editado o tão aguardado EP na plataforma Bandcamp.

Publicação de Almirante Ramos no Facebook

Autobiografia

A minha paixão pela música, pelo som e as ondas sonoras, terá nascido através dos discos dos meus pais, como a maior parte de nós nascidos entre a revolução de Abril e a entrada na CEE, mais em concreto do meu pai, com os discos de Simon & Garfunkel, Louis Armstrong, The Beatles, Pink Floyd ou Ella Fitzgerald, entre tantos outros, e as obras de Vivaldi ou Mozart, as sinfonias de Beethoven. Durante a minha adolescência, vivida nos anos ’90, ouvi sobretudo as bandas da minha geração como os Guns N’ Roses, Nirvana, The Smashing Pumpkins ou The Prodigy, mas foi através de um amigo mais velho que conheci os Faith No More e Enigma. Através dos meus primos, também mais velhos, ouvia as bandas e artistas portugueses dessa altura como os Resistência do “Mano a Mano”, o Rui Veloso do “Mingos & Os Samurais”, os Xutos e Pontapés do “Ao Vivo na Antena 3″ ou a Mafalda Veiga do “Pássaros do Sul”, este último escutado no auto-rádio nos tempos livres, com uma amiga, em repetição contínua.

A grande mudança na minha relação com a música popular dá-se após o meu primeiro desgosto de amor mais intenso e descobri nas canções, principalmente no indie rock do início dos anos 2000, o refúgio emocional e a urgência da juventude, e comecei a seguir atentamente tudo o que se passava durante esse movimento revivalista do rock do final dos anos 70 e início dos anos 80, de bandas como The Strokes, The Libertines, Arctic Monkeys, The White Stripes, Interpol, Franz Ferdinand ou LCD Soundsystem. Nessa altura comecei a ir a muitos concertos e festivais, tive a felicidade de assistir a alguns dos concertos míticos dessa década, como o da Björk no Meco, Arcade Fire em Paredes de Coura, Ali Farka Touré em Monsanto, LCD Soundsystem no Lux, Massive Attack no Coliseu dos Recreios, The Strokes em Santos, Daft Punk na Zambujeira do Mar, Animal Collective no Ginjal ou The White Stripes em Algés.

Em 2007 já era um frequentador assíduo de concertos, sócio da Zé dos Bois, coleccionador de discos compactos, blogger e aficionado pela música pop em geral, – do Rock ao Hip-Hop, da Electrónica ao Folk, do Experimental ao Popular – conheci pessoalmente o Manuel, quando ainda não era Fúria nem eu Almirante, e a sua banda Os 400 Golpes, e inspirado nas suas ideias ajudei-o a fundar a editora Amor Fúria – Companhia de Discos do Campo Grande. Fui o cicerone e o mecenas, apresentava as bandas nos concertos e depois metia discos para a malta dançar. Editámos discos, organizámos concertos, filmámos telediscos, imaginámos uma nova pátria. Com a FlorCaveira, liderámos entre o final da primeira e o início da segunda década do século XXI uma nova vaga da música popular portuguesa. Foi também com a Amor Fúria que surgiram as minhas primeiras canções com a banda que tive com a minha ex-mulher, O Verão Azul, e com o meu projecto estival a solo: A Praia Grande.

Chegado a 2019, e após mais uma desilusão amorosa, comecei a criar novas canções e aproveitei outras que tinham ficado perdidas num tempo nebuloso. Assumo então o meu epíteto Almirante e o meu apelido como nomeação para o meu intento artístico. São canções de reconciliação, comigo próprio e com o meu país, bem como de entrega às pessoas mais próximas: os meus filhos, os meus pais e irmãs, a minha família e os meus amigos. São inspiradas noutras canções de artistas mais antigos, como o José Afonso ou o Scott Walker, ou mesmo noutras de artistas mais recentes como o Panda Bear ou o Luís Severo. Criadas entre Marvila, em Lisboa e as Patameiras, em Odivelas, reflectem o nosso tempo, as cidades em que vivemos, os movimentos pendulares quotidianos, a mudança de habitação própria e permanente, a vida a acontecer.

[Para memória futura]

P.S.: Amigas e amigos jornalistas que possam estar a ler esta publicação. Este é o meu comunicado de imprensa e serve para apresentar o “Cinco Canções”, um MD [Meio Disco] que vou editar em meados de Outubro do corrente ano em exclusivo no Bandcamp. Lá terão mais informações acerca dos créditos assim que for disponibilizado.

Redação Punch