Começamos pelo princípio, e o início começa sempre pela imagem da capa, pelo título escolhido e pela mensagem transmitida por essa escolha. “Cãezinha Gatinha” e duas imagens da artista a imitar um diabo e um anjo, que supostamente representam o nosso lado mau e o lado bom. Sreya quer transmitir-nos que tem dois lados, duas faces ou uma dualidade em termos de personalidade. O disco é o seu segundo trabalho, segue-se a “Emocional”, um disco-óvni, que passou supostamente despercebido a toda a gente, quando na verdade sabemos que não terá sido bem assim. Apesar de não ter tido a exposição do disco fenómeno do seu produtor, Conan Osiris do “Adoro Bolos”, o nome de Sreya apareceu como um corpo estranho na cena musical, e para isso terão contribuído não só a imagem, bem como o teledisco, as letras e as melodias, com frases como “E não importa a métrica, o que interessa é a liberdade poética” a servir de bandeira para uma estética onde liberdade rima com criatividade.

“Cãezinha Gatinha” marca um crescimento natural a nível artístico por parte de Sreya. A primeira decisão da própria foi ter começado a trabalhar com outros produtores, primeiro a Primeira Dama e depois o Bejaflor. São duas novas e jovens caras na música portuguesa, o primeiro com um dom natural para a harmonia vocal e o segundo com uma profusão de criação de beats e melodias que parece não ter fim. As canções, criadas entre Hradec Králové, República Checa, e Lisboa, a Lisa, Portugal, reflectem a dualidade sugerida pela capa e pelo título, mas o disco revela-se bem mais coeso, pois a soma dessas duas partes formam um corpo uno e consistente. As canções têm também no título mais uma explicação que marca essa dualidade, as primeiras quatro são do frio [Hradec Králové], as últimas quatro são do calor [Lisboa]. A canção charneira do disco será então a “Iceberg”, nem fria nem quente, apenas reticente.

Falemos então da “Iceberg”, a tal canção que divide as duas partes, uma canção de deriva e desencontro, de lamento e superação, afinal a tábua não dá para os dois. Imaginamos logo a imagem do Titanic, antes de afundar, um amor que se perde nas águas agitadas e frias do mar, mas adivinhem lá quem é que sobreviveu? A sereia que sabia nadar e encontrou uma baleia para lhe dar boleia. Podia ser assim, desta forma mais ingénua que imaginamos a personagem desta canção, mas de facto é assim mesmo: a história que parece um conto fantástico serve para ultrapassar uma outra história, amorosa certamente, que não correu tão bem assim. “Qual de nós é o personagem principal?”, em jeito de qual é o que tem maior ego e acha que deve ser mais que o outro numa relação a dois. A produção é óptima, uma melodia de piano meio infantil, estalidos a marcar o ritmo, até a canção dar uma volta e ganhar também assim uma dureza rítmica mais marcada com os baixos e sub-graves a explodir e depois tudo acalma de novo.

Mas além desse tema, há mais. Singles memoráveis: “Calma Coração”, “Hospital do Amor”. Singles escondidos: “Yin Yang”, “OMG!”. Há canto livre em “Vampiros” e “Orlice”. E citações de Dina em “Canção do Desapego”. Podia ser um disco quase só de singles, tal é a força da produção, melodias que dão vontade de repetir, ritmos que se colam aos pés e às ancas, tarraxa e trap, cadências populares e reggae/dub, e também, indie pop rock de batidas electrónicas, a sustentar uma forma de cantar que vem do canto mais tradicional, uma mistura de modernidade e tradição, que o trio (Sreya, Primeira Dama e Bejaflor) responsável por este disco parece ter conseguido perto da perfeição. O destaque vai para “Hospital do Amor”, canção infecciosa, que se cola ao ouvido assim que se ouve, teclados em contratempo com o ritmo trap, a fórmula infalível estrofe-ponte-refrão a funcionar em pleno, impossível de não dançar, “Liga-me às máquinas, cessa-me esta dor”, por favor. Cantiga aparentemente sem sentido, mas porventura mais profunda do que parece.

Existe em Sreya algo comparável ao que observamos em ROSALÍA, uma capacidade de ressuscitar o tradicional através de uma linguagem actual, uma produção moderna e do nosso tempo, ritmicamente no ponto certo, com palavras cantadas em melodias que não precisam de ser pensadas quase, porque já fazem parte de nós como povo que canta. “Cãezinha Gatinha” tem doces melodias e ritmos dançantes, gomas pop como diria a artista. Sreya sai vitoriosa no fim da audição do álbum, afinal a sua força criativa ajudou-a a superar todas as crises: a ida para Hradec Králové, uma terra estranha e provavelmente inóspita; o amor incompreendido, a velha história das relações que não dão certo. O regresso à Lisboa solar que a inspira a continuar a criar e a viver. Há conselhos e aprendizagens escondidos ao longo das canções, de alguém que suga e observa a realidade de uma certa cena musical lisboeta, ali entre o Kimbo e as Damas, e a transforma em canções populares para todos ouvirmos, cantarmos e dançarmos.

Nota: 8.3/10

Emanuel de Andrade