É com um harpejar de um teclado que começa a primeira canção chamada “A Guerra Peninsular”, a voz só entra ao fim de dois minutos, “vou à guerra, quinta-feira p’ra gastar, sete vidas por semana” entoa-se e estamos a navegar em “Vias de Extinção”. O primeiro tema anuncia quase sempre aquilo que aí vem, Benjamim deixou de lado as guitarras e agarrou os sintetizadores e a sua caixa de ritmos para compor e gravar estas novas canções, de um disco que é também uma incursão muito particular pelo mundo da noite, pelo lado mais boémio do seu autor. Benjamim, também conhecido por Luís Nunes, um dos maiores produtores da sua geração. Está a gravar discos desde a década dos anos ’00s para outros artistas e em nome próprio, outrora como Walter Benjamin, o seu projecto em inglês, antes do seu regresso de Londres onde estudou engenharia do som. Como Benjamim já nos ofereceu dois álbuns, “Auto Rádio” (2015) e “1986″ (2017), este último gravado com o seu amigo Barnaby Keen, onde canções como “Os Teus Passos” e “Terra Firme” o colocaram no centro das atenções de um público cada vez menos alternativo.

“Vias de Extinção” é um título apocalíptico, escolhido antes da era covid, e o single de apresentação com o mesmo nome é mesmo uma profecia para o que nos aconteceu colectivamente, teclados a distorcer como o próprio presente, batidas e baixo a seguir o mesmo rumo, uma canção com várias canções dentro dela, que a seguir ao primeiro refrão não volta logo à estrofe e tem uma variação com a linha marcante que dá título à canção. Só depois volta à estrofe e refrão novamente. Depois essa mesma variação torna-se final encerrando a maior canção portuguesa do ano da graça de 2020. É mesmo uma grande canção literalmente e o seu autor é um romântico como poucos e não esquece que o apego é melhor que a solidão. O tema é o quinto do álbum e divide, de certa maneira, um início menos sombrio e um fim de álbum mais negro e taciturno. Apesar de estarmos sempre em terrenos feitos de sombras e luzes, tudo muito synth-pop.

Antes temos outras canções, como “Urgência Central” ou “Segunda-Feira”. A primeira é construída à volta daquele ritmo programado e teclados, sempre eles, a entrelaçarem melodias e o refrão romântico “eu de manhã vou dançar p’ra arrancar corações” e no fim a canção morre, o ritmo lentifica-se e há ainda sons ali a acontecer até a canção chegar ao fim. A segunda tem mais um harpejo para começar e novamente ritmos dançantes e uma malha de outro teclado a introduzir uma nova melodia; é bom, é muito bom e de repente estamos prontos para mais uma semana, o tempo está sempre a passar e por que não arriscar um falsete, já que o desejo de falhar é grande, para depois tudo terminar com congas e teclados novamente em distorção. “Ângulo Morto” é a fórmula certa de Benjamim, rimas certeiras e timbre aveludado, produção melódica impecável, ritmo à Roxy Music e mais uma canção para o seu cancioneiro, escrita com o seu braço vencedor, claro.

A segunda parte do álbum é ainda mais nocturna, destacando-se “Incógnito”, canção ode ao bar-cave-disco lisboeta, que faz a ponte entre o indie rock à Arcade Fire com o ritmo de pista de dança de uns LCD Soundsystem, porque “Ahh, eu não pedi para te encontrar / Eu nem escolhi nascer”. Esta será a música obrigatória para passar em qualquer set durante o primeiro mês de reabertura de qualquer noite de Incógnito, isto se ficarmos cá para sempre. Será certamente uma experiência metafísica e transcendente. Precede-a outro single, “Domingo”, canção feita de ginga, tarola e palma, e coros femininos em conclusão, mais uma canção existencial acerca de um outro romance de fim de semana. Para o fim, Benjamim entrega-nos uma balada construída ao piano, canção ressaca de um disco – de um modo de estar, no fundo – inspirado numa vida sem pensar no amanhã, é o “Serviço de Despertar” da qual se releva a seguinte frase: “Domingo no parque de estacionamento / eu estive pronto a arriscar” canta o autor que suspira e baptiza furacões melhor do que atormenta.

“Vias de Extinção” é mais um dos grandes discos nacionais do ano da pandemia, é Benjamim a assumir-se como grande escritor de canções que já era e exímio produtor das mesmas e um maestro a reunir os melhores músicos. É claramente um disco nocturno e boémio, fruto de uma ressaca de muitas noites seguidas passadas entre o eixo São Bento-Santa Apolónia. Se há algo positivo a retirar desta paragem forçada para todos os amantes de uma boa saída à noite, então que esta seja a sua banda sonora, de uma vida provavelmente mais salubre e diurna, feita de passeios de bicicleta, comida saudável e almoços em família. Temos muitas saudades de uma grande noite, de ver todos os amigos e conhecidos naqueles espaços míticos onde cada um se expressa livremente através dos passos de dança ao ritmo frenético das canções e malhas que as colunas debitam a altos decibéis. Até lá podemos sempre contentar-nos com estas canções de Benjamim, um romântico em vias de extinção.

Nota: 9.0/10

Emanuel de Andrade