A pandemia transformou panorama musical e Samuel Úria também sentiu isso na pele. Mas isso não mudou a sua vontade de querer lançar o seu novo álbum, “Canções do Pós-Guerra”. Que teve direito a concertos de apresentação em Lisboa e no Porto. Este novo trabalho surge quatro anos depois do álbum “Carga de Ombro” e traz novas formas à música do artista original de Tondela. A Punch Magazine falou com Úria sobre o este lançamento e os tempos atuais.

Qual foi o maior desafio deste álbum?

O desafio maior foi começar com uma premeditação que não é natural quando estou a escrever discos, normalmente há um calendário que me leva a escrever os discos, que é uma coisa muito pouco romântica de se dizer. Eu entrei com uma necessidade muito grande de contrariar algumas coisas que tinham acontecido no último álbum, não porque não me reveja nelas, mas simplesmente por ter tocado o “Carga de Ombro” durante quatro anos. Não foi por uma questão de insistência, o disco continua a vender concertos, havia públicos novos a descobrir. Então eu parto com essa necessidade de um disco que contrariasse o anterior, que pela sua longevidade eu temia que pudesse cristalizar algumas das minhas qualidades nos ouvidos das pessoas.

A Lisboa surge como pano de fundo para os videoclipes deste álbum. O que é que te inspira mais em Lisboa?

Eu tenha felicidade estar a viver com uma vista desafogada sobre o Tejo, quase que vejo as duas pontes. Eu não sou capaz de não me deixar influenciar pela água, é quase um antídoto para a minha preguiça quando tenho uma vista tão desafogada e uma paisagem tão característica de Lisboa. Logo aí Lisboa entra como uma influência.Eu não ando a fingir que não estou cá, apesar de às vezes tentar. Os próprios tempos e ritmos acabam por transbordar para dentro das canções. Se calhar há ali algum tipo de angústia, algum cansaço que se manifestam de uma forma das canções que eu escrevia quando estava em Tondela, a minha cidade natal e onde eu comecei a escrever canções. Embora por vezes tente simular que estou de volta a esses tempos.

Sendo eu Lisboeta há tantos anos, não finjo que não sou, certas coisas acabam por passar para as músicas, consciente ou inconscientemente. Eu por vezes quando estou aqui em casa e não consigo estar a dar conta de letras, vou para a rua, vou caminhar, vou feito louco a balbuciar palavras, vou à procura da palavra certa.

Lisboa é uma cidade melancólica?

Eu acho que sim. Se me perguntasses qualquer sentimento, eu conseguiria descobri-lo em Lisboa, por ser uma cidade global, como são todas as capitais neste momento. É global não só em termos de cultura, mas em termos de sentimentos. A melancolia é própria de Lisboa por questões eternizadas pelo fado, Lisboa foi suportada por pessoas iletradas, que quando é para falar de melancolia, quando é para falar de saudade e sentimentos tristes sabem ficar poetas. Isso é extraordinário. Os grandes poetas portugueses do último século estão celebrados nas bocas das pessoas mais humildes. Em Lisboa mantém-se essa cultura muito primária e quando estou a dizer primária não é depreciativo, mas sim no sentido de ser muito básica, o fado quase se tornou uma linguagem de subsistência para alguns núcleos de gente humilde. Isso é bonito porque o tecido da própria cidade roda um pouco em torno disso.

Exploramos o facto de sermos coitadinhos?

Isso pode ser uma patologia. O coitadismo é um dos defeitos mais lamentáveis, mas quando estás aplicar isso às artes pode ser aproveitado porque o coitadismo pode privilegiar a criatividade, pode ser um empurrão precioso.

Tens alguma rua em Lisboa que gostes mais?

Eu gosto muito de Lisboa, acho que é uma cidade mesmo muito bonita, mas tenho uma afeição particular pelo bairro da Graça, onde eu já não moro, mas onde eu já vivi algum tempo. Há uma vida de bairro e é o meu sítio afetivo.

Neste álbum há temas mais profundos e místicos, a influência da música coral e religiosa teve influência na construção destas canções?

Isso está sempre presente nos meus discos, até porque a música sacra principalmente dos países anglo-saxónicas está presente na raiz de quase toda música popular. A génese dos blues e do rock está muito ligada à música religiosa. Eu sendo uma pessoa que tem esse background protestante conheço muita música desses primórdios, há ali soluções melódicas que são quase standard para aquilo que eu faço, acaba sempre por estar presente. O lado coral, não só pelo lado de harmonia, há também o lado comunitário que nunca me abandona, eu sinto-me muitas vezes autista no processo de escrito de canções, estou muito fechado dentro das minhas capacidades.

Eu gosto muito que a malta que toca comigo na banda cantem também, eles têm todos de fazer segundas e terceiras vozes para aquilo que estava muito fechado em mim se democratize ao máximo na gravação e em palco. O lado comunitário não só é uma necessidade como é um dos grandes prazeres da maneira como eu entendo a música e escrevo canções.

Acreditas que os concertos vão estar de volta na sua forma habitual no verão do próximo ano?

Eu estou ainda a viver nessa incerteza. Por força de tudo tivemos de arriscar um bocadinho, eu não sei até que ponto ainda vamos estar em risco no verão do próximo ano. Eu não consigo antever. Essa incerteza pode ser um bocado desesperante. Os concertos que eu sei que tenho próximo estou a aguardá-los como nunca.

O sector da música e da cultura está a sofrer muito neste momento, se fosses Ministro da Cultura qual seria a medida mais importante para implementar agora?

Por muito que se critique a Ministra da Cultural, que é muito criticável e deu muitos tiros no pé. Este contexto pandémico revelou que as falhas estruturais na cultura deveriam ter sido resolvidas há muito tempo, notou-se agora a fragilidade. Os próximos passos são muito difíceis de dar porque não há estruturas de apoio à cultura e as estruturas que há são insuficientes, são pouco abrangentes. A cultura é culturalmente desprezada, não é levada a sério, é tida como dispensável. Eu admito que seja dispensável quando comparada com outros sectores primários. Mas uma sociedade irá sempre funcionar melhor a todos os níveis se for culturalmente desenvolvida. Se eu fosse Ministro da Cultura estaria condenado ao fracasso, tendo em conta que o fracasso vem de trás.

Qual é maior luta que a geração atual tem de enfrentar?

Eu acho que a geração atual tem uma luta muito grande relacionada com a democracia. Eu não acho que a nossa democracia está em causa. Mas por outro lado, nós a seguir ao 25 de abril vivemos numa espécie de dormência de achar que velhos trejeitos nunca iriam ressurgir, embora eu ache que esses velhos trejeitos não se irão constituir como poder, basta terem uma fração significativa da sociedade para tornarem-se perigosos. A geração atual está a ser chamada para esta luta mais cedo do que eu previa.

Na tua vida qual foi a tua principal luta?

A minha maior luta está a ser travada agora. Nós somos todos sobreviventes do 11 de setembro e eu ainda não sei muito bem que lutas vou estar a travar depois disto, não sei quanto tempo isto vai durar. Estou a passar pelo período mais significativo de mudança da minha vida. Eu já me casei, tive empregos, vivo da música, há momentos muito marcantes na vida pessoal, mas enquanto pessoa arregimentada para causas e arregimentada para entender uma nova realidade, eu não consigo que a esfera pessoal se sobreponha ao que se estar a passar agora. Agora estão a levantar-se as grandes batalhas que eu irei travar.

Rodrigo Toledo