Após o lançamento de “futurewillbebetter”, single que, contando com a participação de EVAYA, anuncia a chegada próxima do novo álbum dos David From Scotland, “Hooligan’s Heart”, a tivemos a iniciativa de convidar os mesmos para uma entrevista:

1 – Talvez seja a pergunta mais cliché e, obviamente, mais óbvia, mas (ainda assim) qual o fundamento que sustenta a escolha do vosso vincado nome, “David From Scotland”? Quem é o David? É tal figura verdadeiramente “from Scotland”?
O “David” é o David Félix e não, não é “from Scotland”, que eu saiba é 100% português! Este nome aparece numa altura em que passávamos demasiado tempo na zona da Adega, aqui no Porto, e por várias vezes o David foi abordado por pessoas que lhe perguntavam se ele era escocês… E se formos a ver, até tem pinta! A certa altura ele começou a assumir essa espécie de alter-ego para falar com as pessoas que o abordavam… Principalmente com as mulheres, vá (risos)! Além disso, o David chegou a estar emigrado na Escócia umas semanas!

2 – Quando falamos de “David From Scotland” falamos de David Félix e de Diogo Barbosa. Como se conheceram? (sabemos que frequentavam os mesmos círculos, mesmos concertos, mesmas festas, etcs… mas gostaríamos de saber o contexto, o momento e, acima disso, o que saltou logo à vista perante o primeiro contacto)
O David tinha outra banda, o Abominável, também com o Vitor e o João que hoje em dia são nossos parceiros em Malibu Gas Station, eu era só o gajo que ia aos concertos e que curtia o que eles faziam e precisamente por sempre termos frequentado os mesmo círculos, acabamos por nos conhecer de forma natural. Embora já fizesse música, eu na altura não tocava com ninguém, não tinha bandas nem nada e acho que nessa altura nem o David pensava em ter uma cena a solo… Isto deve ter sido em meados de 2010. De resto acho que a partir daí foi uma relação de amizade que se foi construindo ao longo dos anos… Muitos copos, muitos concertos, muitas festas… (risos)! Na verdade, acho que sempre tivemos bastante em comum no que toca à música que ouvíamos, filmes que gostávamos, etc. além disso, estando eu de fora conseguia perceber, até por tudo que eles conseguiram com Abominável, que o David era uma pessoa que levava a música tão a sério quanto eu e isso também acabou por ser um fator decisivo para mim. Os anos passaram-se e em 2016 o David começou este projeto… Entretanto, um pouco mais tarde (em 2017 penso eu), convidou-me para fazer parte e pronto… Como se costuma dizer, o resto é história!

3 – O que vos aproxima enquanto sujeitos musicais? E, mais importante do que isso, o que vos distancia?
Como diz o Rui Veloso, “muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa” (risos). Pá, honestamente não te sei responder a isso… Mesmo que pare para pensar um bocado, não me consigo lembrar de nada que me distancie do David… E aqui não falo somente do facto de termos uma banda e de por vezes existirem “discussões” sobre determinadas coisas, acho que isso nunca aconteceu sequer, sempre tivemos os mesmos objetivos e sempre soubemos concretamente aquilo que queríamos em termos de estética, sonoridade, etc. Não sei… Acho que as nossas personalidades encaixam bastante bem uma na outra e como deves imaginar, o facto de sermos só dois também facilita muito a comunicação.

4 – Enquanto desfruto de um bolinho de bacalhau (iguaria que, na verdade, não se destaca pela qualidade, visto ser um produto pré-congelado), deparo-me com a genialidade sonora e visual do vosso single, “Neon Nymph”, cuja participação vocal de Vítor Pinto vos aproxima do vosso outro projeto, “Malibu Gas Station”.

Porquê a escolha do Vítor para assumir os vocais? Como nasceu essa ideia de seguir um novo rumo pela força desse vosso poderoso duo?
A ideia de procurar colaborações para a voz surge inteiramente pelo facto de nenhum de nós saber cantar, é tão simples quanto isso (risos). Mas fora de brincadeiras, acho que esta nossa “falha” acaba por nos trazer mais do que o que nos tira porque nos permite trabalhar com pessoas e com artistas de quem gostamos e por vezes é interessante ver como essas pessoas se adaptam à nossa realidade.

Relativamente ao Vítor, eu conheci-o exatamente no mesmo contexto que conheci o David e posso certamente falar pelos dois quando digo que o Vítor é uma enorme pessoa, um grande amigo de ambos e ao mesmo tempo, é uma das pessoas mais talentosas, mais inteligentes e com mais bom gosto que conheço… Por tudo isto, torna-se uma escolha fácil, tão fácil que vai fazer um “comeback” no nosso álbum!

5 – Ouvindo “Baywatch Drive”, EP de 2018, surge-me a ideia de que há uma identidade muito específica na produção do vosso produto artístico. Há uma uniformidade relevante na expressão que lançam ao ouvinte e no subjetivismo do mesmo que consome a vosso sonoridade. Isto porque a sensação do ouvinte parece-me diferir. Eu, por exemplo, sinto-me numa qualquer rua de Hong Kong, à chuva, abraçado pelas luzes néon, mas à conversa com um amigo, a quem apresentei o vosso trabalho, a sensação dele é completamente diferente, prendendo-se com um clube underground e uma pista de dança silenciosa.

A vossa identidade surge (maioritariamente) das vossas influências, ou podemos confirmá-la como sendo pensada e idealizada para ser tal como é?
Honestamente, eu sempre vi o “Baywatch Drive” como o nosso trabalho mais experimental e não como algo identitário da nossa sonoridade, sonoridade essa que, a meu ver, surge quase a 100% das nossas influências. A questão aqui é que as nossas influências são bastante vastas pois somos duas pessoas que gostamos de ouvir música pela música sem olhar ao género e essas coisas… Acho que isso já não existe, sequer (risos). Mas sim, acho que a partir de uma determinada altura começamos a pensar e a tentar idealizar de que forma é que vamos pegar em todas essas influências e torna-las em algo nosso… Isto porque, e para te dar um exemplo, embora um gajo goste muito de hip-hop, acho que não ia fazer muito sentido pôr um gajo a “rappar” por cima de uma música nossa… Ou talvez possa fazer, não sei!

6 – Normalmente, o que define o vosso processo criativo? Quem costuma ter a iniciativa? Como se desenvolve o mesmo?
Eu ou o David temos uma ideia, juntamo-nos e trabalhamos nela os dois… Basicamente é isso! Raramente surgem ideias em ensaios, é sempre mais trabalho de casa. Agora durante o período da quarentena obviamente que este processo se alterou, sendo feito mais à base de enviar essas mesmas ideias um ao outro por WeTransfer, trabalhadas e depois reenviadas… Quando foi possível, começámos a juntar-nos à noite num parque perto das nossas casas para ouvir as malhas a partir das colunas de um carro (risos). Mas pá, acho que as nossas ideias acabam por se complementar até ao produto final, às vezes estou bloqueado e vem o David com uma ideia que faz a música andar para a frente e vice-versa… Às vezes também me acontece estar super-bloqueado numa música e ando semanas a ouvir cenas tipo The Cars para tentar ir buscar aquele inspiração que me falta e normalmente resulta!

7 – Olhando para aquela que é a realidade do mercado nacional, qual a vossa opinião quanto à nova geração musical que tem surgido no mesmo? O que define este mesmo mercado e, quando olham para a transformação da música portuguesa, o que mais vos impressiona e o que mais vos assusta?
Eu acho que, cada vez mais, estão a aparecer projetos incríveis em Portugal, dos mais diversos géneros e que em nada ficam atrás do que se faz lá fora… Aliás, eu nunca achei que o que se faz em Portugal fica atrás do que quer que seja que se faz lá fora, mas a verdade é que o português sempre teve uma espécie de complexo de inferioridade em relação ao resto do mundo e então a malta sempre teve aquela cena do “lá fora é que é bom” e se calhar há uns anos, em Portugal, não se ouvia tanta música portuguesa… Por acaso sempre achei isso engraçado, o português adora falar mal do seu país, mas se alguém de fora o faz… (risos). Mas pronto, acho que isso se está a perder muito por culpa da malta da nossa geração… E ainda bem! Agora é preciso é que mais pessoas para além de nós, que neste contexto somos só consumidores, comecem a perceber a qualidade e o potencial dos artistas deste sector.

Este novo paradigma de comunicação, a internet e tudo isso, acho que ajuda bastante no que toca à promoção, por exemplo… Até um certo ponto, claro. Hoje em dia é fácil fazeres com que a tua música chegue às pessoas nem que seja aos teus amigos através da página de Facebook da tua banda, isso provoca uma espécie de congestionamento de informação… É tanta coisa nova a aparecer, tão rápido, todos os dias, que fica difícil processar tudo isso… É algo que consegue ser impressionante e assustador ao mesmo tempo.

8 – Novo single com EVAYA e novo álbum a caminho (2021). Como descrevem a experiência de colaborar com uma figura emergente da nova sonoridade portuguesa? O que podemos esperar de “Hooligan’s Heart”? Alguma data de apresentação para o vosso disco de estreia?
Foi muito fácil, principalmente. A Beatriz percebeu logo aquilo que queríamos com o álbum, mas mais importante, com esta música em específico. Desde os primeiros rascunhos de voz que nos enviou, sentimos logo que tinhamos feito a escolha certa. É uma artista de quem gostamos muito e uma pessoa incrível que, na minha opinião, tem uma carreira muito promissora pela frente. Do Hooligan’s Heart podem esperar mais colaborações e um álbum que vai dar continuidade às sonoridades e à estética que tentamos explorar neste primeiro single… Não há muito mais que possa avançar neste momento. Para já, sem datas de rigorosamente nada… Tendo em conta os tempos que correm, acho que mais vale esperar para ver!

Lécio Dias