A Maternidade é um conjunto de músicos que partilham afinidades musicais, políticas e culturais. Ao longo dos últimos anos, neste grupo de amigos construíram-se colaborações que foram essenciais para moldar um som com uma identidade muita própria e à volta de certos ideais. Entre os nomes destacam-se Luís Severo, Filipe Sambado, Vaiapraia, Sreya, Bejaflor e mais uma mão cheia de grandes artistas alternativos.

Depois do primeiro confinamento de 2020, alguns deles juntaram-se para criar um novo projecto, que dá pelo nome Outras Maneiras, que acaba de lançar o seu álbum homónimo. Nele participam: Vaiapraia, Luís Severo,  Teresa Serra Nunes, Rodrigo Castaño, Lucía Vives,  chica, Filipe Sambado, Jasmim, Ana Farinha, April Marmara, Maria Inês Paredes, Bernardo Álvares, Catarina Olaio Marques, Duarte Coimbra e Margarida Alfeirão. Ao todo são sete canções (um combinado de versões e originais), que procuram passar uma mensagem social e política muito concreta. Goste-se ou não, essa intenção é concretizada de forma eficaz.

A união entre artistas surge especialmente em tempos de dificuldade como os que estamos a atravessar. E surgirem trabalhos fruto de uma certa espontaneidade criativa não é de todo fora do vulgar. O primeiro álbum colaborativo deste género surgiu através do Conjunto Cuca Monga ainda em 2020, que tem um lado mais festivo. Agora a Maternidade dá-nos algo com outro intuito, com uma crítica mais mordaz, mas sempre pertinente. A reflexão aqui centra-se nas desigualdades, que são mais evidentes quando as crises se acentuam. Especialmente na área da cultura, onde existe uma grande precariedade.

Um dos homens que lutou por várias causas foi José Mário Branco e está aqui muito presente. O músico que nos deixou em 2019 continua a ser relembrado pelas gerações mais novas. Um dos covers apresentados pertence ao Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta, do qual José Mário Branco fez parte. A “Cantiga Sem Maneiras” é ponto de partida para se falar da luta de classes, entre géneros e no fundo relembrar a fase P.R.E.C., onde todas as lutas estiveram mais presentes. Agora mais do que nunca essas lutas voltam ao nosso dia-a-dia, com outros intervenientes e novas bandeiras.

Há termos que ganham força em certos momentos. A palavra beto entrou no nosso léxico há uns anos de forma mais regular, agora já não surge apenas para designar um grupo de pessoas, mas sim como forma de crítica. Sente-se atacado quem quiser ser atacado. E nada disto está relacionado com pessoas que usam sapatos de vela, mas sim com uma parte da sociedade que vive alheada de certos problemas e parece não ter uma certa empatia pelo próximo. Isto vem a propósito da canção “Betinho” de Vaiapraia, que faz uma crítica mordaz a este grupo social. Não há uma intenção de fazer um ataque feroz, mas sim fazer uma chamada de atenção. A percepção para certas desigualdades também começa por gestos como este.

Há uma outra vertente que a pandemia trouxe com o confinamento, que não está relacionada com uma reflexão mais abrangente e plural do que se passa na nossa sociedade, mas sim com um lado mais intimo das vivências diárias. Claro que é através dessas vivências que percebemos certas desigualdades e por isso é quer apareceram muitos pessoas a alertar para esse facto. Surgem assim algumas reflexões sobre essa intimidade nas canções “Golpe por Golpe” e “Na Mesma”, onde relatam esse contacto mais próximo. Tanto se fala de amor, como se aponta o dedo, nem que seja a pequenos pormenores como é o caso do verso “Cantas Ariel Pink, sabes que é ponto fraco”. O artista norte-americano caiu em desgraça há pouco tempi e talvez certas relações também sigam o mesmo caminho por causa dele. O mundo é visto agora de outra maneira, seja de uma forma mais macro ou micro. Tudo mudou.

Neste trabalho também se homenageiam músicas de outras origens como é o caso do cover “Garota” do Duo Ouro Negro, que procura promover uma certa diversidade dos países da lusofonia. No fundo, este também pode ser considerado uma álbum experimental, nem que seja pelo facto de alguns destes músicos sentirem apenas a vontade de partilhar música que tinham na gaveta. Este é um trabalho que dá voz a certas inquietações, que todos nós sentimos durante um ano de pandemia. Certos sentimentos talvez sejam passageiros, mas vale pena registá-los em diversos formatos, neste caso surgiu em forma de álbum. Um álbum que poderia ser uma página de um diário, um manifesto literário ou um mural político. De qualquer das formas foram criadas canções, que agora ficaram registadas na memória colectiva.

Rodrigo Toledo

Nota: 8/10