A sua cor agora é o vermelho, como a pele corada da cara quando estamos apaixonados. Chinaskee e o seu novo disco, ‘Bochechas’, faz-nos sorrir, ruborizar e pedir que os concertos voltem rápido. Um disco de rock, punk, e outras variáveis, que nos remetem para a liberdade do género. Quem conhece Chinaskee, o nome escolhido por Miguel Gomes para o seu alter ego musical, sabe que este não é um nome estranho. Pudemos acompanhá-lo em Chinaskee e os Camponeses no disco ‘Malmequeres’, um disco mais calmo e contemplativo feito em banda, ou nos EPs ‘Trocadinhos ao Pôr-do-Mi’ e ‘Janeiras’, em que demonstrou a apetência para compor e criar canções. Trabalhos que podem e devem escutar antes ou depois de ouvirem um dos discos rock do ano. Principalmente para entenderem a evolução e apreciarem as “velhas” canções de Chinaskee com outros arranjos.

‘Bochechas’ é um disco curto, mas extremamente eficaz. A sua temática é a adolescência e a forma como esta nos molda para sempre. É um período de enormes mudanças, em que o acontece exteriormente, com o aparecimento das borbulhas na cara e o desenvolvimento físico, segue de mão dada com as transformações interiores: as primeiras desilusões amorosas, os traumas próprios de quem está a desenvolver a sua personalidade, as dúvidas sobre aquilo que se sente verdadeiramente, um rebuliço emocional nem sempre fácil de gerir. Tentamos entender o que queremos ser no futuro e o discernimento é inversamente proporcional à vontade de afirmação. Miguel Gomes aposta tudo nessa fase de vida nestas canções, em que de forma descomplexada assume as suas vulnerabilidades, mas também os seus sonhos. Miguel sonhava em ter bandas, ser uma estrela do rock e ser o melhor. Podemos assegurar que esse sonho de adolescência (ou infância) está perto de ser cumprido com este álbum.

É em “Dragões”, a canção que fecha o disco, com a participação do também produtor Filipe Sambado, que se sente mais esse desejo interior. E que canção, um hino adolescente de riffs pujantes e palavras entoadas, que se mantêm na memória: “Fantasiava sobre ser maior / Ter companhia / E ser o melhor / Tocar bateria, cantar sobre mim / Enfim / Saber letras de cor”. Se existisse uma fórmula para a canção rock perfeita bem poderia ser esta. Belo resumo de disco também. O tal sonho de ser o melhor, cantar as letras que escrevemos, para outros cantarem também, de cor de preferência, em coro e em uníssono num concerto numa cave qualquer ou num festival de Verão. Isto para ser “Popular”, a primeira canção do disco, com a participação de Rodrigo Vaiapraia. Outro hino, que inicia o desenrolar de canções espessas que se colam ao ouvido. A bateria a marcar muito bem o ritmo, guitarras em distorção, e vozes a uma só voz a cantar as dores da passagem da infância para a idade adulta.

Ser popular é aqui um sinónimo para ser aceite, ser entendido, ser compreendido. Em “Mobília”, uma canção recuperada do EP ‘Janeiras’, já com a ajuda da Primeira Dama, agora com arranjos mais agressivos e poderosos, Chinaskee canta sobre passar tempo com alguém na sua casa: “Em casa somos família / Em casa somos mobília”; remete para o comportamento de um jovem ainda em casa dos pais, a viver os primeiros amores. Tal como em “Edredom”, com a ajuda de Bia Maria, aquela combinação infalível de guitarras no máximo e vozes a rasgar, verso, refrão, verso, verso e refrão até ao fim tudo desembocar num descontrolo de bateria, baixo e guitarra. Tudo certo, tudo muito bonito e comovente. Dá vontade de dizer muitos “Ahs”. Nestes momentos vem ao de cima a faceta mais poética de Chinaskee, em que as palavras são apoiadas pelas harmonias, porque estas são letras que sobrevivem sozinhas e sem pedir qualquer permissão às melodias.

Mas há mais, e despachadas que estão as canções com convidados – que servem sobretudo para amplificar e apoiar o talento de Miguel Gomes – , há mais canções para cantarolar e fazer mosh: “Quero-te Ver”, com mais riffs do além, camadas e camadas de guitarras; “Gaja”, versão para uma canção de Filipe Sambado, que fica muito bem no alinhamento, ou “Desanimado”, uma canção mais directa ao assunto, sem formalidades ou pedidos de licença a ninguém. “Mais Atenção”, uma canção punk, curta e a abrir como se quer. E ainda “Bochechas”, que serve de acalmia para um disco que é sempre a rasgar, uma canção calma e inocente, que nos faz recordar tempos idos do rock nacional, em que as bandas faziam versões acústicas dos seus temas. Mais uma vez a poesia adolescente, declarações de amor pueris, bochechas vermelhas, coradas, de felicidade, entre beijos e outras carícias.

Chinaskee não sabe ser outra pessoa, soube rodear-se do produtor – Filipe Sambado, que ajudou a dar ao disco um som cru e directo – e músicos certos, e oferece-nos um conjunto de canções intemporais. Um disco de rock poético, palavras a discorrerem sobre as tais harmonias feitas de guitarras distorcidas e ritmos de bateria galopantes. Há aqui muita escola, algum saber, intuição e muito talento. Estas malhas descendem (se calhar sem saberem) também de um período áureo do rock português, do início de carreira de bandas como os Xutos e Pontapés, os GNR ou os UHF. Mas com a marca do que veio a seguir do estrangeiro, como o som dos Nirvana e dos My Bloody Valentine. Chinaskee foi beber essa água, e com outros deste tempo pandémico, como Vaiapraia e o seu ’100% Carisma’ e Primeira Dama e o seu ‘Superstar Desilusão’ – que nem por acaso participam com as suas vozes neste disco – , dá-nos este ‘Bochechas’. Um dos maiores discos rock cantado em português, quem sabe o melhor, do tempo da pandemia, que praticamente só tem um defeito: chegar ao fim.

Nota: 8.8/10

Emanuel de Andrade