Os Dead Combo são músicos à lei da bala. Depois do último Lisboa Mulata, em 2011, e do sucesso mediático consequente, aventuraram-se pelo México, conheceram mariachis de perto e regressaram para contar a história. A Bunch of Meninos, o novo disco, é incrível, desde o seu título à escolha sublime de todos os elementos que o compõem.

A cena é a que já conhecemos: a genialidade de Tó Trips e Pedro Gonçalves, um cangalheiro e um gangster, num feroz duelo de cordas. Mas, desta vez, os Dead Combo encurtaram espaços, simplificaram processos e amplificaram todo o potencial da sua “alma”. Torna-se claro que a maturidade de mais de uma década de existência permitiu o aperfeiçoamento de uma linguagem própria, que exibe efeitos cada vez mais interessantes. No novo álbum, a dupla portuguesa apurou a sua fórmula com ingredientes mais sumarentos e o resultado é uma “salganhada” (como o próprio Tó Trips descreve) incrivelmente boa.

A sonoridade dos Dead Combo é tanto incomparável quanto inconfundível. Basta-nos ouvir os primeiros acordes de “Waiting for Nick at Rick’s Café”, a primeira faixa do álbum, para nos vermos sugados para o interior do mundo criado pelo duo. De repente, vemo-nos envolvidos num western lisboeta, em passo lento, enriquecido pela emoção do fado e inspirado pelo virtuosismo de Carlos Paredes. Escutamos “Povo Que Cais Descalço” e podemos jurar que compreendemos palavras formadas por entre o pranto das duas guitarras acústicas. Por esta altura, já estamos perfeitamente rendidos.

O início do álbum hipnotiza-nos e faz-nos querer mais desta teia de ténues fronteiras entre fado, rock, tango, jazz, mariachis saídos de Desperado e acordes perfeitos para um western spaghetti de Sergio Leone. “Miúdas e Motas” é exemplo disso. Rapidamente nos assalta a imagem de um herói, que avança destemido (já com um bagaço no bucho), por entre fachadas e vielas pombalinas, para o seu duelo marcado num qualquer miradouro sobre a cidade.

A Bunch of Meninos poderia ser descrito em detalhe, enfatizando a qualidade técnica da produção de Tó Trips e Pedro Gonçalves. Mas este é um álbum que nos inspira a construir cenários, personagens que os ocupem e que nos invoca fotografias da nossa terra com o que tem de mais fascinante. O nível de abstração para onde os Dead Combo nos arrastam é tão agradável que a música que escutamos só pode ser traduzida em imagens vivas.

“Waits” apresenta-se como um espantoso tributo ao cantautor americano. Com riffs ásperos de blues, acompanhados por acordes vibrantes de escaleta, este arranjo faz-nos querer que não termine nunca. A percussão surge para enfatizar toda esta composição, tornando impossível ouvir esta música sem que, pelo menos, nos balancemos com gosto.
A fluidez de A Bunch of Meninos torna-se mais apaixonante a cada nova audição. Esta corrente puxa-nos cada vez mais para dentro, mais para cada pormenor e nós deixamo-nos ir, sabendo-nos cada vez melhor. “Zoe Llorando” e “B.Leza” são faixas de simplicidade maravilhosa, compostas por bailados melancólicos de guitarras acústicas. Isto é fado sem voz, que nos emociona e nos relembra o gosto pela estética das nossas raízes musicais.

Em “Dona Emília”, todo o sentimento luso parece fundir-se com ritmos mexicanos e damos por nós numa coboiada de guitarras por entre bailaricos de Santo António, cantares à desgarrada, copos e pedras da calçada. O álbum aumenta de intensidade e a faixa-título dispara um ritmo alucinante, com percussão galopante e uma linha de guitarra elétrica que vagueia entre a distorção e riffs de Aberto até de Madrugada.

Para terminar, os Dead Combo oferecem-nos um Luau à portuguesa. “Havai em Chelas” está repleta de riffs exóticos, uma percussão bem tradicional portuguesa e uma boa disposição solarenga que convida a uma festa ao pôr-do-sol.

A Bunch of Meninos degusta-se ao nível de todos os sentidos. É um álbum autêntico, carregado de sentimento e de vivências. Numa altura em que, por cá, a maioria das pessoas se encontra sem esperança, o duo relembra-nos o encanto das nossas origens. O reconhecimento é generalizado, prova disso é que os Dead Combo ocupam o nº1 do top de vendas nacional e esgotam as várias salas de espectáculo onde se apresentam. Este é, sem dúvida, um dos discos do ano.

NOTA: 8.8/10

Pedro Monteiro

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