Já sabíamos que A Bunch of Meninos é um álbum incrível, só não imaginávamos os trunfos que os Dead Combo escondiam na manga. Ontem à noite, no concerto de consagração da banda, fomos surpreendidos por um Coliseu transformado em arena, onde Tó Trips e Pedro Gonçalves nos arrebataram com a sua qualidade técnica, o seu imaginário e um concerto para recordar.

CLICA AQUI PARA VERES AS FOTOGRAFIAS

 

Na arena, um altar repleto de velas, caveiras e rosas, esperava os Dead Combo, assim como uma plateia expectante que esgotava o Coliseu dos Recreios. Por volta das 21h45, somos informados que, embora a disposição da sala invoque um ambiente circense, não haveria circo “porque os palhaços foram todos de cana”. Ato contínuo, um trio de metais surge na tribuna presidencial para abrir as hostilidades, dando ainda lugar à entrada de um amolador, munido da respectiva flauta, e de um talhante, de cutelo em riste para ser afiado, até a dupla portuguesa ocupar o seu lugar.

“Povo Que Cais Descalço” e “Miúdas e Motas” são as malhas escolhidas para ditar o tom e facilmente nos conquistam, envolvendo-nos num western spaghetti à boa moda lisboeta, repleto da emoção do fado e dos virtuosos da guitarra portuguesa. Por entre a multidão, quase podemos avistar Django, o original, arrastando o seu fiel caixão para mais um duelo numa qualquer travessa alfacinha.

Dead Combo 2

Percebemos logo que são estes os Dead Combo que viémos ver tocar; tão cheios de referências como de emoções, capazes de invocar géneros e personagens hollywoodescas através de melodias, bem como de atribuir sonoridades às nossas emoções e às nossas raízes lusitanas.

“Esta é uma das antigas”, susurra Tó Trips, antes de nos arrastar para as profundezas do imaginário da banda. Com “Mr. Eastwood”, a dupla mostra-nos a sua mestria nas cordas, incendiando a plateia, que permanece expectante, para ver o desfecho desta contenda. Trips, marcando o ritmo com o tacão da bota contra o sobrado da arena, solta o trunfo final: vira a guitarra e lança uma moeda que esmaga contra o tampo. O resultado é a primeira explosão de aplausos.

O concerto desenrola-se e os Dead Combo tocam “Dona Emília”, com direito a dedicatória à senhora que os aturou por muitos anos na ZDB. O duo tem a particularidade de nos guiar numa viagem introspectiva pelo que nos define enquanto povo, pelas nossas heranças musicais, tudo acompanhado por uma coboiada de guitarras, cantares à desgarrada, copos e pedras da calçada.

Pela altura em que se preparam para tocar “Putos a Roubar Maçãs”, juntam-se à festa os primeiros convidados: um trio de cordas, conferindo ainda mais alma à sonoridade dos Dead Combo. O mesmo sentimento de desgarrada portuguesa adensava-se com o acústico e esmagador “Este Olhar Que Era Só Teu”, tocado à média luz, evocando a incontornável Rainha do Fado num momento hiperbolizado pelo silêncio comovido do público.

Posteriormente, os Dead Combo supreendem-nos mais uma vez. Desta feita, com uma “versão tipo prato chinês” de “Like a Drug” dos Queens Of The Stone Age, incrivelmente acompanhado pela soprano Ana Quintans, presenteando o Coliseu com um momento arrepiante. Por momentos, seria possível sentir-nos à beira de um qualquer desfiladeiro do faroeste de Sergio Leone.

Com “Pacheco”, Pedro Gonçalves galantaeia-nos com a sua exímia versatilidade, debruçado sobre o piano, quase fundido com ele, e, em conjunto com o blues da guitarra de Trips, criam uma sonoridade de passo lento, em que até os silêncios são dotados de coolness. “Elétrica Cadente” iniciava um novo momento com a entrada do baterista Alexandre Frazão que veio espicaçar ainda mais os “meninos”. A adição arruaceira da bateria trouxe um pendor mais rockeiro à cena, inflamada por devaneios sonoros musculados e por um Tó Trips a bater com as costas da guitarra contra o próprio peito, culminando com uma plateia em êxtase.

Ao agora trio, junta-se uma pianista e o trio de metais que iniciou o concerto (Real Orquestra das Caveiras), para fazer de “Manobras de Maio 06” uma fascinante procissão de “dia de los muertos” com ingredientes de tango, jazz e mariachis. Ainda com a mesma composição, os Dead Combo oferecem-nos uma incrível versão de “Waits”, ainda mais desgarrada e mais blues que no álbum, confirmando-a como uma das melhores malhas da banda. No final, mais uma ovação, já com muitas pessoas de pé. Seguiu-se “Lusitânia Playboys”, assumindo um ritmo bebop do tempo dos beatnicks e fazendo-nos dançar, obedecendo ao desvario sonoro.

Dead Combo 1

Antes de nos encaminharmos para o final, Pedro Gonçalves apresentou um emocionado agradecimento face ao absoluto sucesso alcançado após uma década de existência da banda. Contudo, ainda antes do desfecho da viagem, os Dead Combo disparam “Bunch of Meninos” num ritmo alucinante, com a percussão galopante de Frazão e riffs de guitarra, ora distorcidos ora saídos de um filme de Robert Rodriguez (escrito pelo Tarantino, claro!), seguido de uma “Lisboa Mulata” igualmente desvairada. Por esta altura, atingimos a apoteose máxima, com toda a plateia de pé, perfeitamente rendida ao duo lisboeta.

Por fim, somos surpreendidos pela derradeira vez, quando escutamos os acordes de “Hawai em Chelas” surgir por detrás da cortina. Voltamo-nos para o palco e lá estão Tó Trips e Pedro Gonçalves, despedindo-se com um sorriso nos lábios, um bailado acústico e um travo a festas populares.

Estamos em casa. Com imenso orgulho. Cada vez mais orgulho por tudo o que os Dead Combo conseguiram criar.

 SETLIST

  1. POVO QUE CAIS DESCALÇO
  2. MIUDAS E MOTAS
  3. MR. EASTWOOD
  4. RODADA
  5. SOPA DE CAVALO CANSADO
  6. DONA EMÍLIA
  7. CACHUPA MAN
  8. PUTOS A ROUBAR MAÇÃS
  9. ARRAIA
  10. RUMBERO
  11. ZOE LLORANDO
  12. ESSE OLHAR QUE ERA SÓ TEU
  13. LIKE A DRUG
  14. PACHECO
  15. ELÉTRICA CADENTE
  16. CACTO
  17. MANOBRAS DE MAIO 06
  18. WAITS
  19. LUSITANIA PLAYBOYS
  20. CUBA 1970
  21. A BUNCH OF MENINOS
  22. LISBOA MULATA

ENCORE

  1. HAWAI EM CHELAS
  2. B.LEZA

Texto: Pedro Monteiro
Fotos: Joana Viana

Subscreve a Punch TV!