Uma viagem musical é aquilo que nos espera quando nos atrevemos a ouvir a discografia de Bruno Pernadas. O convite chega sem destino e promete surpreender em cada paragem. As nove primeiras chegam em 2014, dando o roteiro pelo nome de How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge. Já em 2016 somos desafiados a juntarmo-nos a Worst Summer Ever e Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will be Asked to Retrieve Them.

O primeiro disco em nome próprio questiona no título mas responde no conteúdo, ou não fosse composto pela diversidade e ritmos necessários para deixar os nossos ouvidos felizes. Se na primeira faixa “Ahhhhh” nos apaixonamos por uma suave voz masculina que acompanha ritmos mais mexidos e determinados, na seguinte já não a encontramos. No entanto, a saudade não se sente, tal é a complexidade e completude do trabalho desenhado. Em “Indian Interlude”, a segunda faixa, existe um sopro que nos acalma e nos transporta, quase que de imediato, para um cenário romântico, em que uma história de amor se desenrola. No número quatro do disco, o músico dá, mais uma vez, prova do seu talento, e hipnotiza-nos durante mais de oito minutos que não o parecem ser. “Première” é quase que uma síntese daquilo que é o trabalho de Pernadas – a calma e a inquietação, a harmonia e a fusão. O roteiro termina em “L.A.”, paragem diferente mas pintada com as mesmas cores e sonoridades das anteriores.

2016 é o ano do regresso! Depois de dois anos de espera, Pernadas compensa e traz-nos dois novos álbuns em simultâneo. Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them renova não só a tendência de Pernadas de dar títulos extensos aos seus álbuns, como de experimentar e combinar diversas referências. A identidade “inclusiva”, que recebe inspirações do jazz,  world  music, electrónica ou folk, mantém-se. “Spaceway 70” recupera os teclados e harmonizações vocais. Já “Problem Number 6” acorda-nos com uma alegre combinação de cordas e percursão. A linguagem é semelhante à do álbum de estreia, apesar de (ainda) mais matura e experimental – na composição, formatos e arranjos.

A dificuldade de posicionar a obra de Bruno Pernadas em termos musicais termina em Worst Summer Ever. Exaltando as influências e linguagem do jazz, o compositor reúne oito temas, que nos remetem para o clássico imaginário de Nova Orleães ou Chicago. Os sopros, as teclas de piano e os ritmos sincopados assumem o palco e não deixam dúvidas. Se How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge e Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them vivem da surpresa trazida pelos contrastes, Worst Summer Ever destaca-se pela sua coesão e unidade. Há, no entanto, coisas que os unem – a sensibilidade melódica, o poder cinematográfico e a riqueza da composição.

Findo o percurso, percebemos que basta o bilhete de ida, já que não queremos regressar. Na bagagem somamos, agora, histórias e cenários imaginados ao som de três álbuns que nos transportam para um universo até aqui desconhecido. Neste lugar, feito de tantos outros, as fronteiras perdem-se e desenha-se um novo mapa, que esperamos que esteja longe de acabar.

O próximo encontro já tem lugar marcado: dia 15 de Dezembro, o Grande auditório do Centro Cultural de Belém recebe Bruno Pernadas para encerrar o ciclo CCBeat 2017. O multi-instrumentista estará acompanhado do solista Ricardo Toscano, também ele músico de jazz. No saxofone alto, junta-se a Pernadas para celebrar a música e tornar esta noite de inverno na oportunidade perfeita para te juntares a esta viagem!

Francisca de Castro Lousada