Estivemos à conversa com Manuel Fúria, no Clube Capitão Leitão, o seu novo local de ensaios. Falou-nos sobre Viva Fúria, o seu mais recente álbum, que alcançou o top no Japão, falámos sobre a indústria musical portuguesa e sobre futebol,  houve até espaço para abordar 2018 mas também 2017. A conversa decorreu com o álbum Confessions of a Pop Group, da banda The Style Council, como banda sonora – que ouvimos do princípio ao fim. 


Como viste o facto do Correio da Manhã ter eleito o teu álbum Viva Fúria o melhor de 2017?
Fiquei contente. É o jornal de maior tiragem, há muita gente que vai saber que o disco existe e, que para aquela redacção, é o melhor de todos. Achei um bocadinho bizarro na medida em que não estava à espera.

Por outro lado, será ainda mais surpreendente apareceres num top de final de ano no Japão?
Isso também fiquei surpreendido, por ter sido por quem foi. A Shiori Y foi uma fã indefectível dos Golpes. Quando ela estava cá em Portugal a estudar Português, foi na altura que surgimos.

Consideras que o álbum foi bem recebido?
Sim, por um lado acho que foi bem recebido, por outro lado não foi tão ouvido quanto isso. No geral não acho que os jornalistas o tenham ouvido assim tanto.

Qual foi a canção que foi mais bem recebida ou que teve mais feedback?
Não sei dizer, porque em relação aos singles que foram saindo, as pessoas foram-se dividindo por uns e outros. Não senti uma unanimidade esmagadora em relação a uma canção em específico.

Na “Canção Infinita” falas do teu passado. Se pudesses voltar atrás mudavas alguma coisa?
Provavelmente mudava, mas ainda bem que isso não acontece.

Esta foi uma música que tinha de fazer parte do álbum ou que surgiu espontaneamente?
Essa canção foi engraçada porque não estava planeada, não fazia parte do alinhamento que nós íamos gravar. Foi uma canção que saiu durante as gravações, o que também diz alguma coisa sobre o ambiente da gravação e sobre o à vontade com que estávamos a gravar, e a sua relativa tranquilidade. Não havia aquela pressão de estúdio.

Nós gravámos o álbum numa casa particular, gravámos entre amigos. Quem gravou o disco foram o Luís Montenegro e o Gui Tomé Ribeiro, dos Salto. O ambiente foi propício para acontecerem coisas que normalmente neste paradigma de gravações não acontecem. A letra também não saiu imediatamente. Às vezes as letras não saem logo, mas eu já sei sobre o que é que a canção vai ser, apesar de não ter as palavras ainda para completar esse espaço. Normalmente, essas experiências só sobrevivem quando eu de repente identifico naquilo uma coisa que quero dizer, e já sei sobre o que é que a canção vai ser antes de ela estar escrita. Tal aconteceu imediatamente com a “Canção Infinita”. Percebi que ia ser a última canção do álbum e percebi que iria ser uma canção que explicaria o álbum. Seria a chave do disco.

O que foi mais desafiante neste álbum?
Em termos técnicos foram as vozes. Eu não sou particularmente grande cantor e gravar as vozes é sempre uma coisa tecnicamente mais complicada.

Qual foi o melhor concerto que deste em 2017?
Nós depois termos lançado o álbum, no Lux, no dia seguinte fomos a Coimbra, ao Salão Brasil, e esse concerto foi bastante bom.

Ao longo do ano passado estiveram um pouco por todo o país. Há algum lugar que onde gostarias de tocar, onde não tenhas passado?
Ainda não fui às ilhas com os Náufragos, e gostaria muito.

Qual foi a canção que resultou melhor em concerto?
A “Canção Infinita” resultou bem. O “Cala-te e Dança” também resultou bem. O “Cavalos Brancos” também resultou bem, e trata-se de uma canção que, apesar não ter sido single, gera uma reacção boa no publico.

Se pudesses escolher um artista para fazer um remix de uma canção do álbum, quem seria? E qual a canção?
Pedia aos Justice para fazerem uma remistura do “Pequeno Peixe”.

Em 2017 o Moreirense ganhou a Taça da Liga, e sabemos que tens uma ligação especial ao clube. Fala-nos um pouco disso?
O Moreirense é clube da terra (Moreira de Cónegos) do meu avô paterno, que foi um dos fundadores. O meu pai foi o primeiro capitão das equipas sénior, o meu tio Jorge foi irradiado do futebol envergando as cores do clube num célebre Moreirense – Vizela, que são os grandes rivais. O nome do estádio é de um primo nosso.
Tratou-se de uma vitoria simpática. Não é como o Benfica, porque na verdade sou benfiquista. Se o Benfica é clube do meu coração, o Moreirense é clube das minhas costelas.

A música, o mercado e consumo musical têm mudado muitos nos últimos anos. Como vês o mercado musical em Portugal, actualmente?
Prefiro não ver, não tenho grande paciência para acompanhar isso. Por um lado, é uma coisa que não me interessa muito. Por outro, acho que é perder tempo andar a tentar decifrar os códigos de consumo ou a maneira como as pessoas consomem a música – também não é esse o meu papel. O meu papel é fazer música e fazer bons discos. A forma como aprendi a fazer música, de certa maneira, tem a ver com a maneira como eu ouvia música, com a maneira como eu me relacionei com música desde pequeno, e esta está muito relacionada com álbuns. Isso é algo que me interessa, usar um conjunto de 10, 12 ou 24 canções para fazer uma coisa que seja una, coerente e que tenha um título.

Como é que tu costumas ouvir música hoje, no teu dia-a-dia?
Costumo ouvir em CD. Costumo ouvir no carro e no escritório. Tenho aqui um pequeno leitor de CDs ligado a uma coluna. Tenho um prato de vinil, que também uso. Também tenho uma assinatura da Apple Music, por isso também uso o streaming.

Achas que os músicos estão mais competitivos, ou que estão a fazer melhor música em Portugal?
Não sei se estão a fazer melhor música. Há música boa e música má, como sempre houve. É capaz de haver mais e melhor música do que havia há 20 0u 30 anos atrás. Mas continua a existir muita má música. É uma coisa que cada vez menos me interessa. Essa ideia da música portuguesa.

Qual achas que foi a grande transformação na música portuguesa nos últimos 10-12 anos?
Há muito mais música boa gravada, de um modo independente, a acontecer. O primeiro disco dos Golpes foi gravado em 2008 e nunca nos passaria pela cabeça gravar aquilo em casa.

Desejos para 2018?
Desejo que Manuel Fúria & os Náufragos toquem mais, que sejam mais ouvidos. E desejo que as pessoas tenham mais paciência para ouvir um álbum do princípio ao fim.

Rodrigo Castro