A Golden Age da MTV já lá foi, as televisões de música têm quase a mesma importância que a música em formato físico, mas a importância artística do vídeo permanece. Por isto, e não só, cada vez se aposta mais nesta vertente de promoção, o que contribui para a crescente qualidade deste produto. Já não se fazem só vídeos de música, fazem-se verdadeiros filmes musicados. Nesta rubrica abordamos realizadores de videoclipes, que muitas vezes não têm nem o crédito nem a visibilidade que merecem. Entre dois dedos de conversa, ficamos a conhecer melhor as manhas das telas das nossas músicas, a história que contam, e a história de quem as conta, também. Para a primeira edição trazemos Leonor Bettencourt Loureiro, realizadora responsável pelos dois videoclipes dos Them Flying Monkeys: “Molly” e “Halos”.

Leonor pertence a uma nova geração de criativos “multitasking”, que olha para o mundo em busca de inspiração e conduz os seus projectos seguindo uma ética “do it yourself”. Acredita em fazer as coisas de que gosta mas, acima de tudo, gosta de desafios e de fazer as coisas acontecer. Nasceu em 1993, no Porto, estudou na Escola António Arroio e nas Belas Artes, em Lisboa, tirou o curso de Realização de Cinema e Televisão na Restart, e consumou os estudos de realização e produção na Academia RTP 3.0, onde criou e realizou o programa #Hashtag, da RTP2. Actualmente, trabalha na RDP/RTP (Antena 3) a tempo inteiro. Para além disso, realiza videoclipes de música para várias bandas nacionais (GROGNation, Keep Razors Sharp, entre outras); trabalha em moda (o seu filme GENES recebeu o prémio de Melhor Filme de Autor no FFF 2017, e já trabalhou com a Latitid, Hibu., M HKA ou Gardel by Moore); e o cinema continua a falar mais alto: está a trabalhar numa curta (ante-estreia marcada para dia 24 de março, nos Anjos 70) e tem um projecto para um filme de longa duração.

Os dois vídeos dos Them Flying Monkeys celebram três coisas distintas: adolescência, fantasia e coerência. Adolescência que acompanha a juventude musical que a banda toca. Parece um trailer para um filme “coming of age”, cheio de novas experiências, amores e descobertas. Fantasia a lembrar um caderno de desenhos de uma mente imaginativa, que descobre pela primeira vez o culto dos desamores e a independência. A animação, que se junta ao real, ajuda a pormenorizar o mundo imaginário que o vídeo realça. Não fosse o Feiticeiro de Oz isso mesmo. Coerência porque tudo bate certo. Tudo é esteticamente coerente e sedutor. Faz lembrar o trabalho do conjunto catalão Canada, no vídeo que realizaram para os Tame Impala, “The Less I Know The Better“, que a realizadora Leonor Bettercourt Loureiro teve de certeza como inspiração para estes dois vídeos apelativos e bem feitos.


Vamos começar pelo princípio, portanto conta-nos um pouco sobre o teu percurso até aqui. Qual é que foi o momento em que percebeste que querias dar vida a músicas e estar atrás da câmara?
Antes de haver o vídeo, havia a fotografia, para registar cenários que inventava nas minhas brincadeiras, mas acho que só mais recentemente é que comecei a ter noção que a realização sempre esteve lá. A música era inevitável… tive uma banda na adolescência e não demorei muito a perceber que preferia trocar o ritmo do baixo por uma câmara em movimento.

É difícil ser realizador em Portugal, especialmente nesta vertente? O facto da música portuguesa estar a passar por um dos seus melhores momentos faz com que haja mais procura? Alguma crítica à indústria de videomaking em Portugal?
Não é difícil, é quase impossível, porque mal temos indústria cinematográfica. No entanto, o caminho DIY é um caminho promissor e não nos podemos colar à desculpa da escala de Portugal, apesar de ser uma dor muito presente, que tenho resolvido com me colocar em várias frentes: música, moda, dança/teatro e cinema.
A música portuguesa está bad ass e acaba por haver mais procura, claro, mas também há o lado negro da coisa: A maior parte dos músicos investem tudo na gravação do álbum e, quando chegam à parte da promoção, onde a fotografia e vídeo são fundamentais nos dias de hoje, não sobra. O vídeo, se houver, sofre e acaba por não dar lucro. Felizmente, trabalho a tempo inteiro na Antena 3, criando conteúdos audiovisuais ligados à música, e acabo por ter uma estabilidade que me permite continuar com esta paixão, o videoclipe, enquanto freelancer.

Enquanto realizadora, o que é que mais te inspira? Como é que é o teu processo criativo? Trabalhas sozinha?
O difícil é dizer o que é que não me inspira! É tudo uma questão de enquadrar a realidade e a transformar noutra coisa qualquer, mas é sem dúvida o escape à realidade que torna tudo mais divertido. O processo criativo e o número das pessoas da equipa variam conforme o projecto, por isso é que tenho estado a criar o colectivo LBL para poder assinar grandes produções, mas é o lado autoral que me dá mais pica!

Se pudesses descrever a tua estética visual em três palavras, quais é que seriam e porquê?
Semiótica, sensibilidade e cromatismo, porque adoro relacionar tudo, sou extremamente sensível e ando sempre a “viajar”.

O universo psicadélico, com influências no misticismo de Sintra, dos Them Flying Monkeys é algo de único! Como é que começou a vossa relação criativa? Foi difícil transformar as palavras e as sensações deles em vídeo?
A nossa relação criativa começou através da grande família BlackSheep Studios. Houve logo um encaixe porreiro que tornou o processo fácil, dentro do possível, dando-me eles liberdade para viajar e explorar fetiches meus, que de alguma maneira se ligavam à música deles. Está tudo no Feiticeiro de Oz!

Cada um dos vídeos que fizeste são histórias meio intrigantes, com um leque de personagens que nos atrevemos a dizer icónicas! Qual é que foi o ponto de partida para cada um? Já tinhas alguma coisa pensada?
Bem, tenho o meu universo a que gosto de recorrer…. o dream pop, em que a adolescência jamais será ultrapassada, da intensidade das primeiras vezes, dos arrepios. Neste caso, foi possível trazê-lo à baila e surgiu tudo muito naturalmente, com brainstorms. A Sara Feio, artista visual, produziu os dois vídeos e foi um elemento fulcral no rumo que escolhemos. O Víctor Ferreira, que fez Direcção de fotografia nos dois, percebe-me perfeitamente e tem sido um membro já frenquente da LBL.

Houve algum mais complicado que o outro? A nível de storybook?
O videoclipe da música “Halos” partiu-nos mais a cabeça, porque queríamos ser mais ambiciosos ao nível da produção, filmar em mais decors, ter mais personagens, por aí fora. Difícil é ter as ideias certas para o tamanho da produção de cada projecto, mas consegue-se!

Qual é a tua opinião sobre o universo dos Them Flying Monkeys e do estado actual da música portuguesa?
Além dos tripanços musicais fixes, os Monkeys são pessoas altamente motivadas e boa onda, que é precisamente o tipo de atitude que faz com que a música portuguesa esteja a ganhar dimensão, porque a qualidade sempre houve e haverá.

Algum conselho para jovens realizadores que estão agora a começar? Projectos futuros?
Fazer acontecer, sem desculpas. O mais importante é que as pessoas respeitem os valores de mercado, senão ninguém se consegue profissionalizar! Finalizei agora a curta-metragem INTRA INTER SUBJECTIVO, que vai ter ante-estreia na exposição organizada pela Almáfia, no dia 24 de Março, às 18h nos Anjos 70.

Punch Redação
Foto: Simão Coutinho