Regressados de mais uma edição absolutamente memorável do Festival Vodafone Paredes de Coura, está na altura de relembrarmos os melhores momentos desta 27ª edição do festival que se intitula como o habitat natural da música. Foram cerca de 100 mil festivaleiros que passaram pela Praia Fluvial do Taboão durante quatro dias repletos de concertos e momentos inesquecíveis.

O primeiro dia serviu para nos ambientarmos às temperaturas geladas do rio, para nos cruzarmos com amigos e, até, com alguns dos artistas disfarçados no meio dos campistas, que iam assistindo aos concertos do Palco Jazz Na Relva. Já no recinto, apenas ainda com o palco principal em funcionamento, tivemos tempo para marcar presença em todos os concertos. Bed Legs abriu as hostes no palco Vodafone e despertou quem estava na grade a marcar lugar, mas foi Julia Jacklin quem encantou a vasta mancha humana que se encontrava sentada a apreciar a folk suave da australiana. Tratou-se de um concerto digno do primeiro pôr-do-sol no habitat natural da música, para um público que ainda sabia alguns versos das músicas mais sonantes como “Don’t Know How To Keep Loving You”.

Os Boogarins seguiram-se já com os últimos raios de luz, perante uma moldura humana composta. De Goiânia directamente para Coura, apresentaram a sua vasta discografia ao público português, que tem um carinho muito especial pelo quarteto de rock psicadélico brasileiro. Este foi um concerto que nos deixou à espera de mais, mas talvez fosse a ansiedade para ver Parcels, os próximos a ocuparem o palco. O tão aguardado momento chegou, os cinco magníficos de Byron Bay estavam finalmente ali em cima do palco e a festa pronta a começar. Nem a inclinação do anfiteatro natural foi desculpa para não dançarmos ao som da electropop de Parcels durante aproximadamente uma hora e meia de concerto. As músicas transformavam-se e interligavam-se umas com as outras, numa espécie de “Soul Train session” quer em palco quer no público. “Myenemy”, “Bemyself”, “Lightenup”, “Withorwithout”, “Overnight”, “IknowhowIfeel” foram algumas das músicas que ecoaram, mas a mais celebrada foi sem dúvida “Tieduprightnow”. Houve coreografias em palco, espécies de jam sessions e amor infinito e recíproco por parte de todos os presentes. Foi o momento da noite e quem sabe de todo o festival.

Mal tivemos tempo para respirar e ir atestar o nosso copo para recebermos The National, que se estrearam ali em Portugal, há 14 anos.  Matt Berninger, de copo na mão e lenço ao pescoço, congratulou a plateia courense e deu início a mais um concerto memorável. A simbiose foi perfeita e o habitual coro em sintonia arrepiou a pele até do próprio Matt que, entre músicas, ia interagindo com a plateia, que se manteve fiel durante sensivelmente duas intensas horas. Temos a certeza que, se ele pudesse, tinha abraçado todos os presentes na plateia, mas essa sorte ficou para os que se encontravam na primeira fila. Para os verdadeiros guerreiros, a festa prolongou-se no palco secundário até de madrugada, com os incansáveis KOKOKO! e o tão conhecido Nuno Lopes.

A quinta-feira começou novamente com muitos corajosos a atirarem-se à água e outros, mais preguiçosos, a navegarem de cerveja na mão pelo rio. Sonorizando essa manhã e início de tarde estavam os artistas que passaram também pelo Palco Jazz Na Relva. Debaixo de um sol tórrido rumámos ao recinto cedo, para ouvir ainda o resto do concerto dos caldenses Cave Story e seguir para receber os grandiosos Khruangbin. Como não adorar o trio mais improvável e incrível de Houston, Texas?! Laura Lee, Mark Speer e Donal Ray (DJ) foram um dos tão aguardados artistas e uma das melhores surpresas nos cartazes deste ano no nosso país. Foi com Con Todo El Mundo que descobrimos o funk exótico misturado com o rock’n'roll com botas de cowboy deste trio realmente surpreendente. Coreografias bem ensaiadas em palco, gargantas bem afinadas no público (viram como todos sabiam entoar os riffs da guitarra de Mark Speer?!) e uma união que deixou em lágrimas Laura Lee, que ia piscando o olho a todos os presentes. Até o próprio DJ captou o momento incrédulo com o seu telemóvel e nós temos quase a certeza que até o Mark esboçou um sorriso, apesar da sua postura muito séria e teatral. Com isto tudo só podemos dizer realmente “YES!”.

Stella Donnelly foi uma das substitutas que, apesar de ter sido anunciada à última da hora, deixou bastantes festivaleiros felizes, mas sem dúvida que foi Boy Pablo a dar um dos concertos mais inesperados do palco Vodafone.FM. Lembram-se daquele rapaz de calções que aparecia sempre na vossa página do Youtube? Sim, foi mesmo esse! O norueguês de apenas 19 anos trouxe uma brisa nórdica, que incendiou o palco secundário com a sua teen pop dançante e colorida. Os Car Seat Headrest seguiram-se e houve quem levasse o nome mesmo a sério… (alguém mais viu aqueles dois car seat headrests no meio do público?!). Um concerto repleto de hinos propícios à prática de crowdsurf e consequentes moshes de levantar poeira. Avi Buffalo foi também um dos substitutos, fruto de outro cancelamento, mas apenas espreitámos enquanto atestávamos os copos e tentávamos ganhar uma daquelas lâmpadas raras oferecidas no recinto.

Aproveitámos para esticar as pernas e marcar lugar para New Order, o que parecia algo impossível visto que o dia estava mais que esgotado e a maré de pessoas não tinha fim à vista. Ficámos no meio de famílias completas, de pessoas de todas as idades e conseguíamos sentir aquele nervosismo que pairava no ar. Afinal de contas, aquilo que iria começar dentro de momentos iria marcar a história de todos os presentes e do festival de Paredes de Coura. Foi com “Das Rheingold: Vorspiel”, de Richard Wagner, que a formação de Manchester subiu a palco para êxtase total de 26 mil pessoas. “Singularity” e “Restless” mostraram as ainda acentuadas raízes dos Joy Division e introduziram as primeiras homenagens aos mesmos com “She’s Lost Control” e “Transmission” a invocarem Ian Curtis. A música e as luzes encadeavam-nos mas mesmo assim não conseguíamos tirar os olhos do palco e parar de abanar o corpo, como que por impulso. “Tutti Frutti” do mítico Complete Music foi uma das mais celebradas e a versão da “Waiting for the Sirens’ Call” um dos melhores momentos do concerto. Ainda ouvimos “True Faith”, “Blue Monday” e “Temptation” para acabar a viagem sonora por uma discografia que faz parte da história da música. O encore mais que merecido, foi com “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart” e com uma frase que prevaleceu “Long Live Joy Division” que vimos algumas lágrimas de felicidade pura nas caras de fãs abraçados uns aos outros.

Depois de um concerto destes bem que podíamos cancelar o resto da noite, mas antes ficámos para cantarolar os velhos e novos temas dos portugueses Capitão Fausto, sempre muito bem recebidos e quase a jogar em casa. Fomos a abanar o corpo até ao campismo ao som de Acid Arab e já na tenda adormecemos ao som de Krystal Klear.

 

 

A meio do festival e com as baterias (não só dos telemóveis) a meio, fomos receber bem cedo os leirienses First Breath After Coma, que nos apresentaram a sua mais recente obra-prima: NU, no palco principal. A música portuguesa está em grande forma e o post-rock electrizante deste quinteto fantástico é a prova disso. “The Upsetters”, “Howling For A Chance”, “Heavy”, “Blup” “Feathers and Wax” e “Change” arrepiaram-nos a pele apesar das temperaturas elevadas.”I Don’t Want Nobody” foi um dos momentos mais bonitos do festival, com a voz rasgada de Rui, acompanhada ao piano, a deixar todos os presentes em silêncio e perfeita sintonia, ao ponto de nos deixar uma lágrima no canto do olho. As surpresas ficaram para o fim e Noiserv foi chamado a palco para colaborar em alguns temas, dos quais “Umbrae” e “Salty Eyes”, que foi cantada em uníssono. “Goddamn I fucking love you!” 

Corremos para o palco secundário para apanhar Balthazar, uma das revelações do festival. Palco cheio, foi fácil deixarmos-nos levar pelos ritmos do grupo belga, que apresentava também Fever, o seu último lançamento. Um público bastante receptivo e bem disposto, sem vergonha de mostrar os melhores passos de dança ou de cantarolar aqueles versos mais orelhudos. Afinal de contas, a febre dos Balthazar pegou mesmo! Tivemos pena de ter trocado o rock underground dos londrinos Black Midi (que nos pareceu muito bem) pelos americanos Deerhunter (um pouco calmos demais), que se tornaram um pouco aborrecidos e nos fizeram regressar ao secundário para ouvir o kiwi Conan Mockasin.

Faltava Spiritualized para acordar Coura com um concerto para além de incrível. Os mais de 20 anos de existência destacaram-se pela nobreza e profissionalismo em palco, numa performance de levar as mãos à cabeça. O space rock, pautado com notas gospel dos ingleses, transformou-se num sermão angelical do qual todos nós fomos testemunhas e abençoados por muitos e muitos anos. A missa continuou com Father John Misty, que voltou a repetir a proeza de 2015 e, como se diz, “bom filho a casa torna”. Conseguimos boa vista para Peaking Lights mas o concerto foi demasiado experimental e demasiado estranho. Alguns silêncios entre os temas criavam uma quebra estranha que acabou por se ir dispersando. Romare a horas indecentes manteve alguns corpos dançantes acordados e embalou outros tantos.

O último dia começou devagarinho, em modo poupança de energia junto à beira rio, como manda a tradição. Queríamos tanto ver Alice Phoebe Lou que conseguimos furar até arranjarmos um sítio confortável, bem à frente, para absorvermos tudo. O início um pouco atribulado, com problemas técnicos, e a voz rouca (devido a complicações médicas) não mudaram em nada a doçura e delicadeza da frontwoman que, de guitarra ao ombro, ia desfilando em cima do palco. A voz angelical da sul africana contrasta com o blues rock jazzístico da sua banda e a folk disfarça-se tão bem que damos por nós a murmurar alguns versos baixinho. Encantada com o público de Coura foi sempre dando o ar de sua graça e retribuindo todos os “I love you” com beijinhos e obrigados do coração. No final ainda tivemos oportunidade de lhe dar um abraço e um beijinho porque ela mesma esteve cerca de duas horas na tenda do merchandise a dar toda a atenção do mundo aos seus fãs … uma verdadeira Alice in Couraland.

Mitski também se estreou e apresentou-se com um palco bem mobilado. Bastante teatral e ágil, o americano com ascendência japonesa deu um concerto bastante generoso, tocando quase todas as músicas dos seus dois álbuns. “Old Friend”, “I Don’t Smoke”, “Washing Machine Heart”, “I Will”, “Drunk Walk Home”, entre outras tantas, fizeram parte do longo alinhamento da artista, mas foi “Nobody” que despertou um coro em uníssono. Os Sensible Soccers receberam provavelmente o pior horário de sempre, ali em contra-relógio para a grande cabeça de cartaz, mas não foi por isso que deixámos de marcar presença ou de arredar pé. Nunca pensámos ter um after hours à hora do jantar, mas foi mesmo isso que aconteceu. Podíamos descrever o concerto com adjectivos facilmente censuráveis mas preferimos com amor, bastante amor mútuo e correspondido.

Patti Lee Smith e a sua banda subiram a palco e nós pudemos finalmente respirar de alívio por estarmos prestes a ir assistir a mais um momento histórico. “People Have The Power” foi entoado de punhos fechados, ao alto, e toda uma raiva na voz pela veterana que, com 72 anos e muitos cabelos brancos, ainda tem forças para mudar o mundo. A setlist foi de luxo mas as entrelinhas é que nos deixaram de peito e coração cheio. Quantos foram os versos declamados pela própria que nos fizeram escorrer lágrimas pelo rosto, quantos foram os berros que nos fizeram tremer a garganta e os abraços sentidos a quem mais amamos ou, simplesmente, a quem estava ali ao lado a partilhar a mesma dor ou alegria que nós. E, porque todas a noites pertencem aos apaixonados, a noite de 17 de Agosto foi sem dúvida de um Paredes de Coura rendido aos encantos de Patti Smith. Ainda nos custa descrever o que aconteceu sem que nos trema a voz, porque realmente é difícil de explicar a quem não esteve presente. Rendida também ficou a própria, que foi gentilmente agradecendo com acenos e até mesmo lágrimas de emoção. Posteriormente, a própria disse que será difícil esquecer Paredes de Coura e essa é a mais pura das verdades. Obrigada Patti por nos teres relembrado que vivemos num mundo em que a liberdade ainda é o nosso maior privilégio!

Kamaal Williams ainda tentou roubar as atenções do final do concerto de Patti Smith mas, com a instabilidade emocional proporcionada pelo concerto anterior, quase que nem nos conseguimos arrastar até ao secundário para libertar as energias acumuladas. Freddie Gibbs & Madlib foi o seguimento adequado e uma lufada de ar fresco (literalmente). A personalidade de Freddie Gibbs contagiou o público que correspondeu da melhor maneira. “Fuck Police!” foi a frase mais entoada durante o concerto mas houve quem soubesse versos completos e certeiros das faixas da dupla de hip-hop na ponta da língua. E porque Paredes de Coura não se deixa rotular, aqui fica mais um exemplo de que arriscar em estilos completamente opostos até cria algo verdadeiramente bonito. Os Suede fecharam o palco principal e deixaram tudo ali, quer suor, lágrimas e amor. Uma das bandas mais populares do Reino Unido e respeitadas na cena rock mundial desde os anos 1990 juntaram-se à edição mais lendária dos últimos anos do Paredes de Coura. Esperámos pelo vídeo de despedida ainda no palco principal, para completar o ciclo de quatro dias de sonho no Couraíso e foi Flohio Jayda G que continuaram a festa até o sol voltar a nascer e trazer a chuva para a verdadeira benção do Paredes de Coura.

Mais um ano de concertos que nos tocaram na alma, mais um ano de memórias e momentos únicos vividos no habitat natural da música. É bom relembrar que os sonhos se podem mesmo realizar e este foi mais um deles. Obrigada Couraíso e até para o ano!

Texto : Adriana Lisboa
Fotos: Alexandra Tavares (foto-reportagem completa em breve)