O mais recente disco dos 10000 Russos, Kompromat, entrega-nos a sujidade industrial britânica e o minimalismo do krautrock, elementos que vêm aqui aumentar de grau, sem depreciar o toque de psicadelismo que também lhes diz respeito. O nome, que surgiu na brincadeira, tornando-se a este ponto numa inside joke, acabou por se tornar numa temática de inspiração, com referências à cultura e História Russa, presente neste disco no próprio título. Embora sejam late bloomers no panorama musical português, a sorte veio a permitir que trabalhassem com a Fuzz Records e, desde então, não os apanhamos quietos. O trabalho maciço que é Kompromat e as portas entretanto abertas pelos seus antecedentes, foram os principais tópicos de uma breve conversa tivemos com a banda.

Vocês estao imparáveis esta ano, com concertos na Europa, pararam pelo México também, tocaram no Kapu Psych Fest na Áustria… Parece não vos ter dado muito tempo para respirar! Como tem sido a experiência?

Tem sido incrível, na verdade. Não sei se nos lembramos como é dormir nas nossas camas, mas tem sido óptimo. Estivemos um mês no México a tocar por vários estados, mas o ritmo é mais tranquilo do que na Europa. Lá tocavas entre quinta-feira e domingo, sobretudo, aqui tocas todos os dias. Tivemos aí uma série de 16 concertos seguidos a guiar 6-7h por dia, no mínimo. Foi grande coça. Ainda por cima só os três no carro.

A Polónia parece gostar muito de vocês!

E nós gostamos muito da Polónia!

Qual foi a paragem mais memorável até agora?

Tivemos umas quantas! Assim de repente, e sem nenhuma ordem em particular, Cidade do México, Guadalajara, Londres (no lançamento do disco), Viena, Glasgow, Charleroi e Berlim (no Synästhesie Festival).

Ainda seguem o modelo de auto-gestão?

Sim. Para estas tours, no entanto, experimentamos trabalhar com bookers, Hole Records para o México e El Borracho Bookings para a Europa, para nos tirar algum trabalho de cima dos ombros, e resultou bem.

Como apareceu a oportunidade de trabalhar com a Fuzz Club Records?

Foi durante o mítico Reverence 2014. Um cometa que por aqui passou, esse ano do festival, a propósito. O Casper, “the big boss” da Fuzz Club, adorou o nosso concerto e, mal saímos do palco, ele estava à nossa espera no backstage. Na verdade, na semana seguinte íamos mandar o disco que saiu em 2015 pela FC para masterizar e íamos fazer edição de autor, pelo que foi um óptimo timing!

Uma daquelas histórias de “right place – right time!”, sendo que estamos a falar também do investimento total de confiança naquilo que fazem, por parte do Casper.

Sim, bastante. É daquelas histórias que ouvíamos falar nos anos 90 e que achávamos que nunca acontecia. O Casper sempre nos transmitiu total confiança. Conceptualmente e esteticamente estamos na nossa, fazemos os discos, misturamos, e ele nunca mandou nada para trás ou recusou o que quer que fosse. Aliás, o feedback é sempre muito positivo. Assim, sentimo-nos tranquilos e na boa para fazer o que gostamos de fazer, como gostamos de o fazer.

Vocês têm uma sonoridade que parece puxar um pouco do underground britânico e do krautrock alemão. Qual é o vosso background em termos de gostos musicais e de que forma é que estes gostos e possíveis influências se refletiram na construção deste álbum?

Temos todos backgrounds diferentes mas, sim, também gostamos do underground britanico e do krautrock e kosmische music e essas coisas todas. Parece-me que a míúica que sai desta banda é um pouco o resultado desses backgrounds diferentes e como os encaixamos.

Tiveram alguma influência mais direta na feitura do Kompromat? O que têm vindo a ouvir que possam sugerir?

Influência directa? Não mais que o costume. Quanto ao que andamos a ouvir, nestes últimos dois meses estivemos com umas bandas muito porreiras. Tajak, para começar, também responsáveis por nos levar ao México, Camedor, Sei Still. Aqui na Europa tocámos com uma banda francesa muito fixe chamada French Cowboy and The One, os ingleses Psychic Lemon também são muito bons. Pessoalmente adoro Sereias.

Quais foram as intenções em termos de sonoridade para este álbum, inicialmente?

O Kompromat acho que é o nosso disco mais “gordo” a nível de som. Está um bocado mais musculado do que o Distress Distress, por exemplo, que tem um som mais “afiado”. Gravámos no HertzControl, como de costume, com o Marco Lima. As diferenças de som entre os discos têm sobretudo a ver com a intenção que as malhas gravadas pedem. Estas malhas pediam mais este tipo de côr.

O Kompromat foi recomendado pelos Black Rebel Motorcycle Club!

Foi e foi uma bela surpresa! E pelos vistos anda a rodar na BBC6 também.

Olhando um bocado em retroespectiva, para o início de tudo, quando ainda estavam a preparar a vossa exposição ao mundo e todas as expectativas que daí vinham (ou falta delas), estavam à espera deste reconhecimento pelo público português e estrangeiro?

Começamos esta banda depois dos trinta e tínhamos outras vidas, embora sempre ligados à música de uma maneira ou outra. Fazemos música porque gostamos. Mas nenhum de nós estava à espera do que aconteceu, na verdade. Foi acontecendo e fomos trabalhando com as oportunidades com que nos deparávamos.

O que é que ainda nao fizeram que gostassem de fazer?

Ui que lista grande!!!

Só me resta agradecer-vos!

Obrigado é a ti pelo interesse e curiosidade.

Beatriz Fontes