O primeiro “Embalo”? Caótico. A primeira gargalhada matinal, como uma sombria promessa mundanal; rústica vontade sincera de prometer-nos a perplexidade espiritual e o sonambulismo melódico… Nasce Gagliardini Graça. Mulherengo sonoro, amedronta-nos o passo e pausa-nos a alma.

São 23:05, malha-nos a campainha sonora; a companhia respira. Embalado por este tema, começo o percurso. Saído de 2016, é integrado na coletânea Estou Bem Aqui Portugal, que serviu como um palco pulsante para a estreia solista (e solar) de João Graça. Este, dono da senhora voz que alimenta o ideal artístico dos Ciclo Preparatório, (daí não estranharem o nome, caros leitores), é dono da individualidade criativa de um músico e de um produtor. Referenciou-se pelo seu sucesso a par do enorme projeto com que chegou a público e com o qual, em 2013, estreou o primeiro álbum, As Viúvas Não Temem a Morte mas, é no ínterim assumido pelos próprios, que este decide (e bem) recriar-se na calmaria de Gagliardini Graça.

Com o apoio de Bernardo Madureira (Estúdios Santa Catarina), tomou-se a possibilidade imperativa de criar algo durável e, para os mais acarinhados, intemporal. Cruz Quebrada, EP de 2018, é uma democracia melífula e aveludada, que entrega votos às minorias estilísticas e converte-nos no maior eleitorado melómano de sempre. Por outras palavras, tem (substancialmente) tudo para todos. Com menção honrosa, devemos referir duas outras aventuras. Desenvolveu duas bandas sonoras: uma para “Schlboski” (curta-metragem) e outra para “Um Sonho Soberano” (documentário longa-metragem).

Quanto a Cruz Quebrada, compreendemos que a maior razão casuística da atenção, que prestamos à plasticidade musical deste trabalho, é a de um experimentalismo multidimensional, impresso em quebradas tramitações emocionais. A progressão do processo musical combina uma calmaria eletrónica com uma batida introspetiva (mas vincada), capaz de nos suplementar um transcendentalismo ensurdecedor. Um caos miraculoso, onde concluímos a simplicidade do espaço e do tempo… Em momento algum descompensamos a clareza de que vale mais o agora; mais do que qualquer outro ontem, ou outro amanhã. “Pedras no Chão” é, assim, a porta de entrada para um paralelismo dimensional e incontrolável, prazeroso, adormecido pela voz morna e pelas guitarras dinâmicas e suspensas no oxigénio exclusivo dos deuses. O meloso galopar da bateria conduz-nos a um crescendo pelo qual recebemos o groove de “Mãe Não Sei o Meu Destino”, tema integrante da coletânea Novos Talentos FNAC 2017. A infantil mordomia, com que aceitamos a vontade de balançar os ombros e ignorar o mundo, leva-nos a compreender a simplicidade daquele agora de que vos falei anteriormente… E ainda “…dizem que somos crianças…”, como se fosse algo mau; ser-se intemporalmente pequeno. Nos passos subsequentes, atingimos a claridade do orgasmo etéreo em pleno minuto.

“Que Brada” marca a entrada para o tema mais maravilhosamente formal dos últimos momentos; “O Teu Telhado” é aquele espaço onde nos queremos molhar, secar, adormecer e acordar, mas nunca cair… É a canção mais marcante da progressividade atípica com que nos abraça Gagliardini Graça. Os sintetizadores calorosos e as dissonâncias póstumas parecem-nos desrespeitar a entrada mecânica e industrial que se harmoniza entre o fim de “Que Brada” e o início de “O Teu Telhado”… Suprimem-nos o ócio e cavam-nos um poço celeste, onde os anjos do alternativo se encostam a fumar às escondidas dos pais. Na transparência cristalina do seu passo, “A Paz Que Vive Em Nós” é a mesma que vive nos outros, mas diferente. É nesse cigarro que se fuma às escondidas e nesse desabafo íntimo e caloroso que compreendemos a maravilha que é o minimalismo poético. “Aquele que a lírica de Gagliardini nos ensina, Lécio?” – Sim, caro leitor, esse mesmo! – E é nesses mesmos ensinamentos que concluímos “Cascavel”, no último suspiro de ouvinte arrepiado, enquanto nos preparamos para fazer repeat de todo o EP.

Ficamos em suspenso, pensando nas responsabilidades e questionando se “… temos que agradar aos demais…”, mas decidimos ouvir novamente, e mais uma vez, outra, e outra (…) pois, nada nos agrada tanto como a graça com a qual o João nos acolhe.

Lécio Dias