Quando adormecemos a sobriedade multiexpressiva, relembramo-nos das palavras acesas que nos conduziram à definição de Vila Martel como um dos projetos mais promissores do indie português. Não só pela jovialidade constante, pela energia e rouquidão espiritual de uma espécie de figura gritante, mas também pela definição da sua vinculativa entrega, como vivacidade altiva e conflituante de toda a lírica consciente de um jovem adulto em busca de estabilidade, neste anfiteatro onde se encenam as mudanças da vida contemporânea.

Quando se trava a miraculosa audição, a pausa serena e a consciencialização do que nos é dito pelos mesmos, soltamos a gargalhada de quem sabe que vai ser muito difícil, mas nunca mais do que sempre foi.  No fundo de tudo, somos todos um pouco desse sumo maldito que os Vila Martel nos cantam, liquidificando-se as dificuldades e as incertezas, que nos colhem a esperança e a cor. A diferença é a de que o Rodrigo Mendes (vocais), Francisco Botelho (guitarra), Francisco Inácio (guitarra), Tiago Cardoso (baixo) e Afonso Alves (bateria) são capazes de colher os limões, fazer limonada, adocicando-a e tornando-a na melhor bebida de sempre. Isto leva-nos a compreender que a vida é sempre doce, por mais amarga que seja. Aprende-se muito com a lírica de Vila Martel, com a sua consciência tranquila e com a sua revigorante postura, o traço humilde do seu discurso é capaz de convencer qualquer um (mesmo que esperançoso), de que haverá um melhor hoje, no melhor amanhã, ainda que intempestivo e incerto. O único receio que nos crava a calmaria, é o de que pode demorar a chegar um promissor álbum pela mão destes. A invejosa ansiedade com que ficamos ao saber que as paredes do seu estúdio ouviram mais do que nós, leva-nos a respeitar o seu single “Não nos deixem ir embora”, apressando-nos a correria atrás de algo que nunca mais chega. Serão precisas oito chaves para abrir a aguardada estreia?

Entretanto, não pensemos nisso… Pense-se (apenas e só) na qualidade musical desta banda lisboeta, revestida com essa tonalidade caleidoscópica, mirabolante, que adormece os nossos receios adultos; sendo completamente proibido não festejar e não se ser jovem. A última mensagem que nos deixam os Vila Martel, é a de que o maior pecado não está no erro, na queda, na falha… está sim na ausência de aproveitamento da aprendizagem que a própria vida se dedica a entregar-nos.

Lécio Dias