E se o amor não for doce? E se enjoar? Há amantes que preferem salgados, e é a estes amantes que se dedicam! Se provas faltavam (para os mais céticos) quanto à reinante vitória psicadélica dos Grand Sun, essas evaporaram-se a 27 de março de 2020, aquando da edição de Sal Y Amore”(Aunt Sally Records).

Entre gracejos, divagações e sorrisos, o crescendo de “River” silencia o espírito dos mais barulhentos. As repetições conflituosas, o atrito emocional e, claramente, a vitrine refletora da dream machine harmónica, adormecem as batalhas interiores e a raça dos atípicos. O baixo rompe, a trote, e o cavalgar distorcido das elétricas aprimora os egocêntricos devaneios. Ansiosamente se regressa a um ponto de partida que tanto caracteriza Grand Sun; a chegada é o começo de um fim que nem sequer chegou a terminar… e repete-se a conversa com as ideias vagas e os risos roucos e, como só podia ser, “She Wants You” é esse mesmo fim sem término.

Os riffs primaveris invadem-nos inconscientemente, entre falácias e surpresas, quanto a queda de um gigante, os vocais harmonizados alcançam os astros budistas, e a meditação transforma-se num espaço de sensatez mundanal, onde o tema “Veera” nos faz compreender que nada mais existe além do ruidoso silencioso e das paixões hipnóticas. Tal é-nos parecido com um clímax constante, onde a reincidência é o perigo, vicioso e viciante, de voltar à prisão transmórfica que caracteriza a sonoridade dos Grand Sun. É neste quadro de amorosa jovialidade, que se conhece esse pop áspero que nos leva a correr, saltar e gritar. Não há espaço para mais cansaço que o motivacional enredo de “Feeling Tired” – já bem se sabe que parar é morrer! Assim como morreremos simbolicamente nos braços cósmicos de “Dear Ruby”, na descoberta do Palo Santo, que reina a presunção de um “eu”, de tal forma que a solidão se mantém numa cama acesa, a par duma companhia que não parece levar a sério a benção que os Grand Sun nos deram. Parece ser uma estupidez, até à hora em que as ilusões mentais nos confundem, criando o que existe na não-existência do pensamento, A “Picture” basta para criar a confusão que alicerça a companhia solitária de alguém que não ama, mas que se apaixona. É algo que ruma ao destino de um ciclo que só prende os que se deixam prender, na perfeição de um punk aprumado e cheio de boas intenções. E se “Circles” não define o amor em dúvida, talvez defina o duvidoso amante que não sabe se quer e, acima disso, o por quê.

Ora, finalizam-se as conversações. O diálogo passou num instante e, numa disparidade bilateral, o monólogo da sedução adormeceu as certezas e, lá no fundo, o segredo de um romance bem sucedido é a garantia incerta de uma morte presumida; pois amor que é viagem sem viajante, partida sem chegada, colheita sem plantação é, no fundo de tudo, sal na ferida… A aventura a dois não se pode viver sozinho: palavra de Santo Palo!

Nota: 6,7/10

Lécio Dias