Desde a Secundária de Mira Flores (em 2012), até à garagem do Miguel (em 2015), os Galgo fizeram-se experiência de sucesso nas mais variadas expressões musicais. Joana Batista, Miguel Figueiredo, João Figueiras e Alexandre Moniz, galgando por todo o país, encheram a cena portuguesa de frescura rítmica e emocional, por entre espasmos e contrações de batucadas acutilantes, na calha do espaço das distorcidas guitarras e dos sintetizadores melosos.

Talvez um abraço húmido e, consequentemente, eletrizante, será capaz de definir (minimamente) a cómica sensação de dançarino afrobeatiano que se vê a gingar ao som de um rock que soma versatilidades e aneurismas expressivos que resultam em múltiplos despertares ácidos e pujantes

O somatório de uma bateria palpitante com guitarras oníricas resulta numa vistosa invenção da música nacional. “Trauma de Lagartixa” é o primeiro passo para uma estonteante viagem experimental, naquela que viria a ser a primeira cria deste galgo ameaçador. EP5, o seu primeiro extend play, editado em 2015, aborda o mérito de um dos fuzzes mais bem conseguidos na música nacional. A alucinação coletiva dos que ouvem este trabalho permite aproximar temas como “Drogomania”, “Monte Real” e “Torre de Babel”, ao nível de perigosos alucinogénios.

Como se a sua dançante vivacidade não chegasse, em 2016 ,afirmaram-nos que Pensar Faz Emagrecer, e com “Skela”, single de apresentação do seu primeiro longa duração, tornaram-se animados e perigosos caçadores calóricos. A animosidade com que “Tokutum”, “Pivot” e “Goya” ressoam nos ecos açucarados da sua energia artística, são a contradição notória para combater a psico-sensualidade de “Sabine”, “Lugia” e “Balanço”, pelos quais a transmutação sonora se assemelha à ressaca de um Paul Blart (diabético) que queimou todo o seu açúcar numa única dança expressiva e mirabolante.

A orgânica caminhada que os definia, sente uma introdução à digital assombração de uma emancipada criatura que, esfomeada, decide roer os cabos de robôs que se veem influenciados por uma desconhecida nuvem cuja tempestade electro-digital infecionou Galgo, após um ataque na sua famosa batalha final e, como que por rescaldo da brutalidade inerente a esta, nasce Quebra Nuvens em 2018. Este trabalho encontra-se na insubordinação de um Galgo que largou a trela que o prendia, partindo para dançar com os seus ouvintes, rosnando a todos os que se aproximam do seu espaço pessoal. A pista de dança é sua, sendo “Bambaré” o som de partida para a sua celebração rivalizada perante uma nuvem em combate atmosférico. A figura opressora esvai-se na marcha com que “Banho Quente” relaxa as porosidades dos ouvintes e, como não podia deixar de ser, aliviando-os do stress que uma tal batalha proporcionaria a qualquer expectador. Talvez a obra se apresente como sendo a mais agressiva por força de temas como “Brutus”, “Guruta” e “Tira-Teimas”, mas não deixa de ser uma requintada degustação de uma epopeia capaz de agradar a todos os gostos.

Mas calma Galgo, essa nuvem é apenas a sobra da Festa Da Espuma para a qual nos arrastaste! Mas agora não há festas (pelo menos legais) e, felizmente para nossa alegria, Galgo não podia passar sem dar-nos celebração sonora para as colunas de casa. Parte Chão é o longa duração editado em 2020, que chegou para demonstrar uma simplicidade musical que se enriquece pela textura estética e sonoplástica que o define como um enorme desafio para o assalto aos palcos. Ainda que um álbum menos caótico e desgastante que os anteriores, é a obra por excelência de Galgo. A destilação da raiva desta criatura que nos acostumou à sua pujança, atingiu níveis de sensatez e de sensibilidade que elevam as experiências a uma harmoniosa vivência além mundos. “Muda”, “ Panca Espalha”, “Giga Joga” e “Garras Dadas” mantém-se próprios e intocáveis, leves, voadores, tal como nos acostumaram com os seus anteriores trabalhos, mas se “Murmur” e “Grande Roubo” não são a definição mais fiel à metamorfose da maturação artística de qualquer projeto tão ambicioso, capaz e audaz quanto Galgo, nenhum outro tema definirá melhor coragem quanto estes dois.

Talvez o antagónico estado de procura e de encontro no qual a exploração e aventura estético-sonora de Galgo se prende seja a sua maior virtude. A insatisfação é a porta para todo um mundo de invenções e reinvenções dissonantes e destrutivamente compatíveis que define a sua sonoridade como algo raramente visto a nível da música nacional. Galgo assume-se como o projeto português que melhor define uma destruição feliz. Uma desordem organizada. Uma guerra pacífica. Um atentado de compaixão. Galgo é cão que ladra e que, garantidamente, irá morder, mas só se não tiveres vontade de dançar, ó preguiçoso!

Lécio Dias