É uma das notícias mais calorosas deste mês: o EP de estreia dos Hause Plants, Films For Color Photos, é uma das mais recentes novidades no panorama do Indie (inter)nacional.  A obra distribuída pela label californiana, BIRTHDIY, é um colapso de diabruras, refletindo a cacofonia das guitarras vincadamente animadas, expressivas e palpitantes.

A conformidade com que Guilherme Correia (voz/guitarra) e Dani Royo (guitarra) se aproximam da milagrosa ação de movimento perpétuo, é um reflexo certo da animosidade jovial com que Jantónio Nunes da Silva (bateria) e António Nobre (baixo) invadem as ruas musicais de uma impressiva cidade cosmopolita, perdida na sombria rotina de murmúrios clandestinos, oriundos de um qualquer beco sem saída. A franqueza com que Guilherme canta “…we do our best while we are young…” introduz a passagem para um ritual de amadurecimento  pelo qual “Annie From Community” nos introduz a uma reserva de sobriedade anti-adultez, mas tão mais experiente que a velhice de um octogenário. Torna-se fácil compreender que a batalha entre o hoje e o amanhã é uma responsabilidade combatida com o esforço rítmico com que se espalha o sono de uma juventude quase desperta no outro do “fui o que já não sou”. Esta pomposa confiança de sermos tão mais bem resolvidos quanto a atitude nos permite, transforma as palavras de Guilherme numa narração crónica do que nunca chegará demasiado cedo, por ser tardia a palavra que promove a fortuna da juventude. Os diários com que nos aprisionamos são confirmação de um nada mais confiante, como se apresenta em “Visual Diaries”. É uma consideração descritiva que nos ilumina as graças das desgraçadas aventuras da monotonia rotineira, como uma exigência à calmaria do espírito metamórfico, mas sem nunca perder a marcha até ao semáforo alaranjado, da primavera ao outono e do inverno ao verão, onde os mergulhos salgados da guitarra, as quebras da batida rítmica da batida e o eletrizante baixo cavalgam para um merecido descanso perto de um mar de chorus, no qual cada dedilhada é uma nova onda perto de rebentar.

É esta a transição que se sente entre “Summer Salt” e “Melissa Smith”. Este segundo, em espiral crescente, é uma rajada de um vício extraterrestre… talvez “Marrciano” ( referência a Johnny Marr)! O riff completamente aliciante, é um espasmo de tesão artística, tal como se sente a força nas mil e uma diretas a que nos sujeitamos para aproveitar a maior parte do que ainda falta viver, acompanhados, ainda que sejamos “… just two strangers…”. O desconhecido é a melhor parte do crescer a par do que se reconhece como novidade inesperada na cisão de um campo reduzido de oportunidades. Não fosse a rotina e, confirme-se, talvez faltasse a audácia para desafiar o espaço-tempo em intermináveis noitadas com conhecidos, desconhecidos, perfeitamente compatíveis com a nossa incompatibilidade, nas danças entre o que se presume ser a companhia de um solitário à espera que o levem a algum lugar… “Here,Somewhere”, onde tiver que ser! Onde quiserem que este esteja! Guilherme afirma-se flexível e conformado com as expectativas de quem o escuta na companhia da sua trupe artística. Ainda há tempo para sermos tudo o que ainda não fomos, ou porque não queremos sê-lo, ou porque nem julgávamos ser possível. É com este ensinamento que se adormecem as nervosas passadas de alguém que se atrasa para mais um compromisso inadiável com a vida. Na sombra de “Only You”, a pausa é propositada; para-se porque é preciso respirar aliviado sem que os outros saibam da nossa alarmante intenção de viver mais um pouco, mas fora da via rápida.

Fora dos holofotes, da contemplação anti-metamórfica, da garantia do inevitável, os Hause Plants ensinam-nos a ser artistas do improvável, do inacreditável e do imprevisto. Só assim faremos arte no mesmo sítio para toda a nossa vida, para encenarmos mil e uma mortes diferentes pelas quais o “opós” será como renascer, atemporal e eterno, na juventude da nossa magnificência. Romper com as odes do dia-a-dia é ter a certeza de que nada vale a pena, a não ser que o queiras por acaso.

Nota: 7.7/10

Lécio Dias